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Data centers chegam às escolas com livros e kits para crianças

Setor de data centers intensifica ações em escolas dos EUA, com livros infantis, kits temáticos, Dia Internacional do Data Center e visitas técnicas para melhorar imagem e atrair jovens.

Data centers chegam às escolas com livros e kits para crianças

Tecnologia Educacional

Iniciativas em escolas americanas unem tecnologia e educação para engajar crianças com data centers.

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Empresas e entidades da indústria de data centers nos Estados Unidos estão dentro das salas de aula com livros infantis, kits de atividades e visitas técnicas para convencer estudantes e famílias de que esses gigantes consumidores de energia são parte essencial da infraestrutura digital e uma fonte promissora de empregos.

Setor leva livros, kits e um “dia do data center” às escolas

A ofensiva educativa é articulada por organizações como a 7×24 Exchange International, que define os data centers como infraestrutura “crítica para a missão” e recomenda o livro infantil “What is a Data Center?”. Na história, um texugo chamado Honey visita um data center guiado por um funcionário, Oliver, que explica que a função dos profissionais é garantir que “the functions supported by the data center” estejam disponíveis para qualquer pessoa, “no matter what time it is”.

O livro faz parte de um pacote mais amplo. A mesma organização criou o International Data Center Day, um “feriado” sugerido a escolas de ensino fundamental e médio. Para os mais novos, há páginas de colorir, atividades como “desenhe um super-herói do data center” e um experimento de ciências sobre evaporação. Para os adolescentes, palavras cruzadas temáticas e informações sobre cursos de formação ligados ao setor.

Além disso, a 7×24 Exchange já promove pelo menos meia dúzia de eventos em escolas de educação básica só neste ano, em diferentes estados norte-americanos, reforçando a mensagem de que a nuvem e os serviços digitais dependem de galpões cheios de servidores que funcionam 24 horas por dia.

Kits patrióticos e cartões sobre “impacto positivo”

Em Loudoun County, na Virgínia — região conhecida como Data Center Alley pela concentração de empreendimentos do tipo — a Associação para Gestão de Operações de Computação (AFCOM) financiou kits de fabricação de bandeiras de Memorial Day para 3.100 alunos do primeiro ano do ensino fundamental, em 37 escolas.

Junto com o material de artes, as crianças levaram para casa um cartão informativo com estatísticas sobre “the positive impact” que a indústria de data centers teria na economia local. A mensagem busca conectar o cotidiano das famílias à geração de empregos, arrecadação de impostos e investimentos associados aos grandes campus tecnológicos.

Em paralelo, a 7×24 Exchange indica outros livros infantis em que personagens visitam data centers, encontram robôs e “salvam a internet”, todos com tom lúdico e foco em mostrar a infraestrutura digital como algo divertido, necessário e cheio de oportunidades de carreira.

Visitas técnicas a data centers e usinas de energia

A estratégia não se limita ao material em sala. Um levantamento a partir de publicações públicas da própria indústria identificou que, desde o ano passado, pelo menos onze empresas e grupos setoriais organizaram visitas de estudantes a data centers nos EUA.

A Sabey, que opera sete data centers no país, vem recebendo turmas de ensino médio de distritos do estado de Washington. Em uma dessas visitas, descrita em boletim escolar, estudantes ouviram explicações sobre “the role data centers play in storing, processing, and protecting information” e sobre “the wide range of careers” na indústria, que vão de manutenção de equipamentos a engenharia de software e construção civil.

No distrito de Quincy, a Sabey é tratada como parceira de longa data. Segundo a coordenadora de comunicação do distrito, a empresa participa com palestrantes, simulações de entrevistas de emprego e oportunidades de estágio, além de visitas voltadas apenas para meninas e para alunos interessados em áreas específicas, como engenharia e construção.

Em Minnesota, estudantes do Fridley High School foram levados a uma instalação de geração de energia a diesel da Cummins. O objetivo declarado era mostrar os “geradores que alimentam data centers ao redor do mundo”, conectando o mundo físico da geração elétrica ao funcionamento ininterrupto dos servidores.

Entenda o contexto

A presença intensa de data centers em determinadas regiões dos Estados Unidos virou motivo de conflito local. Moradores, autoridades e grupos ambientalistas questionam o impacto desses complexos sobre consumo de energia, pressão sobre a rede elétrica, uso de água e alterações na paisagem urbana, além dos pacotes de isenções fiscais muitas vezes oferecidos a grandes empresas de tecnologia.

Pesquisas de opinião recentes indicam que uma parcela significativa da população enxerga os data centers como algo “mais ruim do que bom” para o meio ambiente e para a qualidade de vida. Em locais como Loudoun County, áreas de Minnesota e partes do estado de Washington, a resistência a novos projetos cresceu à medida que os galpões de servidores se multiplicaram perto de bairros e escolas.

Nesse cenário, ações em escolas funcionam também como um investimento de relações públicas. Ao se apresentarem como base da economia digital e fonte de empregos qualificados para a juventude local, empresas e entidades tentam reforçar seu “direito de operar” nas comunidades e reduzir a oposição a futuros projetos.

Especialistas veem “propaganda corporativa” em sala de aula

Para especialistas em políticas educacionais, o movimento da indústria de data centers repete um roteiro conhecido de setores com imagem desgastada, como petróleo, gás, tabaco e fast food, que há décadas patrocinam materiais didáticos e programas escolares.

“A very, very big reason why corporations get involved in the schools is, quite simply, corporate propaganda—for the purpose not necessarily of selling a product, but of telling their ‘story,’” afirma Alex Molnar, professor de pesquisa e diretor do National Education Policy Center, da Universidade do Colorado Boulder.

Molnar argumenta que crianças são especialmente vulneráveis à mensagem corporativa. Para ele, estudantes “estão em uma posição absolutamente sem poder” e “precisam ser protegidos” por escolas e comunidades. Adultos, diz, têm mais acesso a informações alternativas e capacidade crítica para avaliar o que ouvem, algo que não se aplica a alunos do ensino fundamental.

Críticos também apontam que a narrativa nas escolas costuma deixar em segundo plano pontos polêmicos, como o consumo massivo de energia e o uso de fontes fósseis para garantir o funcionamento ininterrupto dos servidores, mesmo em regiões que anunciam metas de neutralidade de carbono.

Disputa de narrativas em meio à pressão ambiental

Ao apostar em histórias infantis, feriados temáticos, kits de atividades patrióticas e excursões a instalações tecnológicas, a indústria de data centers tenta se aproximar de famílias e, ao mesmo tempo, alimentar um funil de talentos para um setor em rápida expansão.

Na prática, estudantes ganham acesso a informações sobre tecnologia e infraestrutura digital e são expostos desde cedo à ideia de que há “the wide range of careers” possíveis nesse universo. Escolas, por sua vez, recebem apoio material e atividades extras em um momento em que redes públicas enfrentam restrições de orçamento.

Do outro lado, movimentos ambientais e moradores preocupados com o avanço dos data centers veem nessas ações um esforço para suavizar o debate sobre custos ambientais e sociais da atividade, deslocando o foco para a promessa de empregos e inovação. A expectativa é de que empresas e associações ampliem ainda mais esse tipo de iniciativa nos próximos meses, enquanto a pressão por transparência e metas de sustentabilidade também tende a crescer.

Fonte: matéria original