Especialista alerta para avanço de textos sem autoria com IA hoje
Mestre em Cinema, psicanalista e jornalista com 19 livros publicados alerta que a inteligência artificial pode estimular produção em massa de textos sem investigação, afetando educação, jornalismo e literatura.

Inteligência Artificial
Especialista destaca riscos da produção automatizada de textos para áreas como educação e jornalismo.
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A popularização da inteligência artificial na escrita está criando um cenário em que estudantes, profissionais e até redações produzem textos em segundos, mas muitas vezes sem investigação, reflexão ou autoria intelectual, alerta um especialista brasileiro em IA, comunicação e cultura global.
Especialista vê “textos brilhantes” sem autor conhecido
Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, autor de 19 livros publicados em diversos países, o professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética critica a facilidade com que hoje se assinam textos escritos com forte apoio de máquinas. Com mais de duas décadas na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal e atuação como analista de IA, redes sociais e cultura global, ele diz rejeitar a celebração de conteúdos impecáveis cuja origem intelectual é obscura.
“Recuso-me a celebrar textos brilhantes quando hoje desconhecemos quem formulou suas ideias; preocupa-me o dia em que escreveremos cada vez mais e pensaremos cada vez menos”, afirma. Para ele, a tecnologia reorganiza o processo de escrita: a máquina “organiza argumentos, escolhe palavras e oferece conclusões com uma segurança que impressiona”, criando uma aparência de autoridade capaz de dispensar o pensamento crítico.
O autor relata que, diante de um texto muito bem acabado, sua reação inicial é de suspeita. “Quando encontro um texto impecável, desconfio primeiro da facilidade com que ele procura convencer”, diz. A checagem passa então por perguntar de onde vieram os fatos, quais versões ficaram de fora e que dúvidas foram ignoradas.
Estudos apontam queda no pensamento crítico
A preocupação não fica apenas no campo das impressões pessoais. O professor cita um estudo publicado em 2025 por pesquisadores ligados à Microsoft e à Universidade Carnegie Mellon, que analisou 936 exemplos de uso de inteligência artificial no trabalho e ouviu 319 profissionais. O levantamento identificou uma associação: quanto maior a confiança depositada na ferramenta, menor o esforço de pensamento crítico relatado.
Segundo ele, o risco é inverter a lógica da investigação. Em vez de formular perguntas, buscar dados e construir raciocínios, usuários passam a entender “investigar” como apenas conferir respostas geradas pela máquina e “elaborar” como editar o que já veio pronto. Sem ter percorrido o caminho de uma apuração, quem revisa um texto pode não enxergar justamente a pergunta que revelaria a falha.
Na educação, notas que não medem o aprendizado
No ambiente educacional, o especialista vê um potencial de dano direto ao aprendizado. Com a IA, um estudante pode entregar uma dissertação detalhada sobre um livro que não leu, com citações e argumentos bem encadeados, e ainda assim não ter desenvolvido as habilidades de leitura e análise que o exercício deveria estimular.
Para ele, o valor intelectual de um trabalho está menos no resultado final e mais nas tentativas, erros e reescritas que o antecedem. Se a resposta chega pronta, a nota pode registrar um desempenho que o aluno não adquiriu de fato. O risco é formar gerações treinadas a comandar ferramentas, mas pouco acostumadas a sustentar ideias próprias.
No jornalismo, ameaça à apuração e à credibilidade
O professor leva ao jornalismo as lições aprendidas na prática. Ele lembra que uma frase sedutora pode encobrir um dado falso e que a primeira versão quase nunca encerra uma boa apuração. A rotina, explica, deveria incluir busca de documentos, confronto de versões divergentes, checagem de datas e retorno constante às fontes humanas, mesmo com o apoio intenso de recursos digitais.
Na avaliação do especialista, delegar esse percurso às ferramentas automatizadas ameaça a própria credibilidade do noticiário. “A assinatura exige autoria intelectual, não apenas identificação no rodapé”, afirma. Ele considera perigoso que redações publiquem textos montados a partir de respostas automáticas sem que repórteres tenham efetivamente investigado a origem das afirmações.
Na literatura, risco de vozes menos reconhecíveis
Na literatura, a crítica mira o empobrecimento da originalidade. Escrever, argumenta, envolve memória, hesitação, experiências de vida e uma sensibilidade construída ao longo dos anos. Quando milhões de pessoas recorrem à mesma facilidade tecnológica para iniciar e concluir suas páginas, aumenta o risco de uma produção abundante, tecnicamente correta, mas com vozes cada vez menos reconhecíveis.
O especialista defende que a originalidade nasce de escolhas subjetivas – decisões de estilo, ritmo, silêncio e omissão – que nenhuma ferramenta pode viver no lugar do autor. O medo é que a padronização dos caminhos sugeridos pela IA, somada à busca por eficiência, leve a uma literatura de superfícies polidas e pouca densidade existencial.
Entenda o contexto
O avanço recente da inteligência artificial generativa, capaz de produzir textos longos e articulados a partir de instruções simples, alterou a rotina de escolas, empresas, redações e escritores. Ferramentas gratuitas ou baratas oferecem, em poucos segundos, respostas que vão de resumos de obras literárias a relatórios corporativos.
Ao mesmo tempo em que isso democratiza o acesso a recursos de escrita, cresce o temor de que a sociedade passe a valorizar apenas quem apresenta respostas rápidas, sem perguntar se essas respostas foram realmente compreendidas, investigadas ou questionadas por quem as assina.
Pausas e tempo de maturação favorecem a criatividade
O especialista também destaca a importância do tempo na elaboração de ideias originais. Ele menciona uma metanálise de 52 estudos, publicada em 2026 na revista científica Psychology of Aesthetics, Creativity, and the Arts, que reuniu 195 resultados e encontrou benefício médio dos chamados intervalos de incubação para a criatividade.
Essas pausas não equivalem à inércia: o ganho aparece quando existe um problema previamente trabalhado. Ao abandonar temporariamente uma questão, a mente segue elaborando, conectando memórias, leituras e experiências. O professor relata reconhecer em sua rotina o efeito de deixar uma ideia “descansar” para reencontrá-la mais complexa e madura dias depois.
Nesse cenário, a promessa de respostas instantâneas oferecida pela inteligência artificial tende a entrar em choque com o tempo necessário para que um pensamento se forme de maneira profunda. Nem toda solução rápida, argumenta ele, corresponde a uma reflexão que realmente amadureceu.
Ferramenta poderosa, mas dependente de quem conduz
Apesar das críticas, o autor não defende a rejeição da tecnologia. Pelo contrário: ele afirma que renunciar à inteligência artificial seria desperdiçar instrumentos poderosos para localizar informações, testar hipóteses e identificar inconsistências em textos e argumentos.
O ponto decisivo, insiste, está em quem conduz a investigação. Quando o usuário já formulou uma interpretação, a IA pode servir para confrontá-la, ampliando o debate. O problema surge quando o primeiro e o último movimento são entregues à máquina: nesse caso, até os limites da discussão ficam determinados por um sistema externo, sem que a pessoa tenha participado de sua definição.
Na visão do especialista, o risco maior é naturalizar essa abdicação, premiando quem apenas apresenta respostas geradas por ferramentas e deixando atrofiar a capacidade de julgamento próprio. A discussão, avalia, precisa agora se voltar para regras de uso consciente da IA e para a formação de habilidades críticas que assegurem autoria intelectual em meio à automatização crescente.


