Brasil perde US$ 5 bi em IA para Paraguai e EUA até 2027, entenda
Escassez de talentos em inteligência artificial e dependência de nuvem estrangeira travam projetos no Brasil, enquanto Paraguai fecha acordo com EUA para usar energia de Itaipu em estrutura de IA até 2027.

Inteligência Artificial
Falta de profissionais e infraestrutura limita avanços brasileiros, enquanto Paraguai avança com apoio dos EUA.
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O Brasil vive uma combinação de atraso em inteligência artificial (IA) e fuga de investimentos, enquanto o Paraguai fecha acordo com os Estados Unidos para usar a energia de Itaipu em uma estrutura de IA prevista para meados de 2027. Na avaliação de especialistas, a escassez de profissionais qualificados e a dependência de soluções prontas importadas podem deixar empresas brasileiras em desvantagem na corrida tecnológica.
Brasil consome IA, mas produz pouco
Apesar de contar com energia limpa em escala, uma fila recorde de projetos de data centers e um plano nacional de IA, o país segue principalmente como comprador de tecnologia pronta. Márcio Aguiar, diretor da divisão Enterprise da Nvidia na América Latina, descreve o Brasil como um mercado que depende dos custos e condições de grandes provedores globais.
Na prática, boa parte das empresas contrata capacidade de computação fora do país e acessa esses recursos pela nuvem. Isso permite rodar projetos de IA sem infraestrutura local, mas reforça a dependência tecnológica e reduz a chance de geração de propriedade intelectual brasileira, já que a arquitetura, os modelos e até os dados mais sensíveis tendem a ficar sob regras e preços definidos no exterior.
Essa opção por soluções prontas também afeta o resultado financeiro de muitos projetos. Sem times internos capazes de adaptar e melhorar os modelos à realidade do negócio, a IA vira apenas mais uma ferramenta, com impacto limitado sobre produtividade e lucro.
Paraguai antecipa movimentos e atrai projetos
Enquanto o Brasil discute como destravar sua infraestrutura de IA, o Paraguai avança com uma estratégia clara: usar a parte da energia de Itaipu, usina binacional que divide com o Brasil, como base de um polo de computação de alto desempenho. O acordo firmado com os Estados Unidos prevê uma estrutura de IA com início de operação em meados de 2027.
Ao atrelar energia limpa e barata a um projeto de alto valor agregado, o Paraguai se posiciona para receber data centers, centros de pesquisa e operações corporativas intensivas em computação. A movimentação acende um alerta em Brasília e no mercado brasileiro: sem um plano equivalente, o país corre o risco de ver empresas e talentos cruzarem a fronteira em busca de melhores condições.
Entenda o contexto
Especialistas apontam que o Brasil pode levar anos para destravar de forma plena sua infraestrutura de IA, o que inclui regras claras para data centers, incentivos para computação de alto desempenho e políticas consistentes de formação de mão de obra. Nesse cenário, quem já domina IA operacionalmente ganha poder de barganha.
“Quem souber colocar IA para rodar dentro de uma operação vira ativo raro”, diz Márcio Aguiar. Segundo ele, tanto profissionais empregados em times internos quanto empresas que ofereçam esse serviço a terceiros tendem a ser disputados, em um mercado ainda pequeno para a demanda projetada.
A velocidade da transformação é outro fator. “Um ou dois meses de atraso já bastam para colocar o país em outra fase da IA”, afirma Aguiar. A avaliação vale também para empresas: quem demorar mais para testar, ajustar processos e integrar a tecnologia corre o risco de chegar ao mercado quando os concorrentes já estiverem na próxima geração de soluções.
Como o atraso do Brasil em IA impacta o mercado de trabalho local?
O atraso se traduz em menos projetos robustos de IA nas empresas brasileiras, o que reduz a oferta de vagas desafiadoras e bem remuneradas para cientistas de dados e engenheiros de machine learning no país. Sem demanda consistente, muitos dos profissionais mais qualificados migram para o exterior, onde encontram times maduros, infraestrutura de ponta e remuneração em moeda forte.
Os especialistas relatam um movimento em duas pontas. De um lado, quem tem alta qualificação técnica recebe propostas de empresas estrangeiras e deixa o país. De outro, os profissionais que permanecem são disputados por grandes grupos nacionais e multinacionais, elevando salários e concentrando talento em poucos polos. Pequenas e médias empresas acabam sem capacidade de atrair esse perfil de mão de obra, o que amplia a distância entre empresas líderes e o restante do mercado.
Ainda assim, há uma peculiaridade no momento atual: a escassez de especialistas convive com um volume crescente de profissionais em formação ou com conhecimento superficial em IA. Sem projetos estruturados, boa parte dessa nova geração não encontra espaço para ganhar experiência prática, o que mantém o descompasso entre oferta e demanda em níveis altos.
O que o Brasil pode fazer para aproveitar a janela de oportunidade em IA?
O Brasil precisa acelerar simultaneamente três frentes: formação de talentos, incentivo à infraestrutura local de computação e estímulo para que empresas internalizem projetos de IA, em vez de apenas consumir ferramentas prontas. A avaliação de especialistas é que existe uma janela até 2027 para que companhias nacionais estruturem times e processos, entrando na próxima fase da tecnologia com soluções já rodando.
Do lado da qualificação, a aposta é ampliar cursos técnicos e de graduação focados em IA aplicada, além de programas intensivos de requalificação para profissionais de tecnologia que já atuam no mercado. No campo da infraestrutura, o desafio é criar segurança regulatória e incentivos para que data centers de alta capacidade sejam instalados em território nacional, aproveitando a disponibilidade de energia limpa.
Para o setor privado, o recado é começar já, mesmo que em projetos-piloto. Empresas que conseguirem testar modelos, limpar dados e ajustar processos hoje tendem a chegar a 2027 com IA integrada à operação, e não apenas em fase experimental. Segundo a StartSe, iniciativas como master talks e programas abertos de formação em IA, oferecidos de forma gratuita, buscam justamente orientar executivos e empreendedores sobre por onde começar e quais sinais monitorar nos próximos meses.
A preocupação de especialistas é que, se essas medidas não avançarem com rapidez, o país consolide um atraso tecnológico difícil de reverter, com impactos duradouros sobre competitividade, produtividade e geração de renda em setores como finanças, tecnologia, saúde e indústria.


