Ex-chefe do BRB diz que Ibaneis mandou vender banco ao Master
Em depoimento à PF, ex-presidente do BRB afirma que Ibaneis determinou em jantar a venda do banco ao Master. Investigação aponta fraudes e pede indiciamento ao STF.

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Depoimento revela ordem de venda do BRB ao Master, com investigação envolvendo fraudes e pedido de indiciamento ao STF.
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Em depoimento à Polícia Federal, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, afirmou que a negociação para venda de ações do banco público ao Banco Master foi determinada diretamente pelo então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, durante um jantar na casa do banqueiro Daniel Vorcaro, em Brasília. O relato embasa pedido de indiciamento de Paulo Henrique e de Vorcaro por crimes contra o sistema financeiro no Supremo Tribunal Federal (STF).
O que o ex-presidente do BRB declarou à PF sobre a ordem de Ibaneis no negócio com o Banco Master?
Segundo o depoimento colhido no último dia 15, Paulo Henrique disse que foi convocado pelo gabinete do governador para um jantar na casa de Daniel Vorcaro, após receber mensagem em 24 de setembro. Ele relatou que estava em viagem à Bahia, tentou evitar o encontro, mas acabou voltando a Brasília para comparecer à reunião.
No jantar, de acordo com o ex-presidente do BRB, Ibaneis fez a apresentação formal: “Olha Paulo, eu queria te apresentar o Daniel”, teria dito o então governador. Paulo Henrique respondeu: “Eu já conheço, a gente faz algumas cessões de crédito e tal”. Em seguida, ainda segundo o depoimento, veio a ordem: “Paulo, estrutura uma venda do BRB para o Master”.
Paulo Henrique relatou que, naquele momento, buscou encerrar rapidamente a conversa, mas ouviu de Vorcaro a exigência de garantia de controle, por se tratar de um banco público. “É, mas é banco público, normalmente troca governo depois de um tempo, eu preciso de um acordo de acionista que me garanta controle”, teria dito o banqueiro, dono do Banco Master.
O ex-presidente do BRB afirmou à PF que, no dia seguinte, às 7h30 da manhã, enviou mensagem a Ibaneis pedindo uma conversa para tratar da operação. Em reunião posterior no gabinete do governador, ele disse ter se colocado contra a venda. “Chefe, não concordo com essa operação. A gente prometeu que não ia privatizar o banco, o banco tá dando um resultado extraordinário, o banco é chave pro Distrito Federal”, relatou ter dito a Ibaneis.
De acordo com o depoimento, o então governador respondeu: “Paulo, é uma decisão do acionista”, numa referência ao governo do Distrito Federal, controlador do BRB. Paulo Henrique afirmou ter sido “pego de surpresa, mas pego de surpresa de maneira contrária” e reiterou à PF que via o banco como estratégico para programas sociais, plano de saúde de servidores e projetos de infraestrutura no DF.
Qual é o papel de Ibaneis na negociação entre BRB e Banco Master?
O relato do ex-presidente do BRB coloca Ibaneis Rocha no centro da negociação, como articulador político da tentativa de venda de ações do banco público ao Master. Segundo Paulo Henrique, os primeiros contatos entre o então governador e Daniel Vorcaro começaram em 18 de setembro de 2024, em um almoço na casa do banqueiro, em Brasília. Dias depois, o jantar que contou com a presença do ex-presidente do BRB teria sido o momento em que Ibaneis determinou que ele estruturasse a operação.
Paulo Henrique disse que já tinha uma relação comercial com o Banco Master, baseada em cessão de carteiras de crédito, dentro de um plano de expansão do BRB que vinha sendo discutido com o próprio Ibaneis. Esse plano previa transformar o banco, que ele descreveu como “lá em 2018, um banco apático, obsoleto, que atuava só no DF com consignado com servidor público daqui”, em uma instituição de porte nacional, mais moderna e rentável.
Na versão do ex-presidente, porém, a orientação de venda do BRB ao Master extrapolava esse projeto de expansão e contrariava o compromisso público de não privatizar o banco. Ele afirmou ter alertado o governador de que a operação poderia desfigurar o papel do BRB como braço financeiro do governo do DF, responsável por políticas sociais e investimentos locais.
A defesa de Ibaneis Rocha nega que o ex-governador tenha sugerido a negociação ou apresentado Daniel Vorcaro a Paulo Henrique. Em nota, os advogados afirmam que o então presidente do BRB era uma pessoa de confiança técnica de Ibaneis e que tinha “completa autonomia e responsabilidade” sobre as decisões e operações do banco. A versão contrasta com o depoimento prestado à PF, no qual o ex-presidente aponta interferência direta do Palácio do Buriti na condução do negócio.
Quais são as acusações relacionadas ao negócio entre BRB e Banco Master?
O inquérito conduzido pela delegada federal Janaína Palazzo apura suspeitas de crimes contra o sistema financeiro vinculados à tentativa de mudança no controle acionário do BRB. A PF identificou dois aumentos de capital considerados fraudulentos no banco público, que teriam permitido a entrada de fundos e de pessoas ligadas a Daniel Vorcaro na base de acionistas.
Com essas operações, a participação vinculada ao grupo de Vorcaro teria alcançado 23,5% das ações do BRB. Segundo a investigação, esse movimento deu lastro para a tentativa de compra do Banco Master, que acabou barrada pelo Banco Central em setembro do ano passado. Os detalhes técnicos desses aumentos de capital constam no relatório parcial encaminhado ao STF junto com o depoimento de Paulo Henrique.
Com base nesse material, a PF pediu o indiciamento de Daniel Vorcaro e de Paulo Henrique Costa por crimes contra o sistema financeiro. O pedido já está sob análise do Supremo e pode resultar em abertura de ação penal, caso a Procuradoria-Geral da República apresente denúncia e ela seja aceita pelos ministros.
Até o momento, não há pedido formal de indiciamento de Ibaneis Rocha, mas o teor dos depoimentos e dos documentos apurados pressiona politicamente o ex-governador e levanta dúvidas sobre eventual responsabilidade dele em decisões que afetaram o controle de um banco público estratégico para o Distrito Federal.
Entenda o contexto
O BRB é controlado pelo governo do Distrito Federal e exerce papel central em políticas públicas, programas sociais e projetos de infraestrutura locais. A operação sob investigação envolvia a venda de ações do banco ao Master em volume suficiente para permitir influência — e, na visão de Vorcaro, eventual controle — na gestão da instituição.
Segundo o relato de Paulo Henrique, embora a estratégia de expansão do BRB incluísse a compra de carteiras do Master e outros movimentos de crescimento no país, a transformação de uma cooperação comercial em um processo de privatização parcial ou controle privado contrariava promessas políticas de campanha.
O caso agora se desenrola em duas frentes: a criminal, com o inquérito na PF e o pedido de indiciamento no STF; e a política, com o desgaste para Ibaneis Rocha, questionamentos sobre a gestão do patrimônio público e novos debates sobre limites para a influência de governos e grupos privados em bancos estatais.


