Flávio Bolsonaro propõe trocar servidores por IA até 2030
Coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro propõe substituir servidores por inteligência artificial e reforma administrativa digital. Sindicatos veem ameaça a direitos e a serviços em bancos públicos.

Inteligência Artificial
Proposta prevê substituição de servidores públicos por IA e reforma digital até 2030, gerando debate sobre impactos sociais.
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Daniella Marques, coordenadora do núcleo econômico da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) e ex-presidente da Caixa, defende substituir gradualmente servidores públicos por inteligência artificial, começando por áreas administrativas e operacionais de órgãos federais e bancos públicos como Banco do Brasil e Caixa. A ideia é não repor aposentadorias por concurso, o que, na prática, pode encolher o quadro e mudar o atendimento à população.
Proposta é evitar concursos e automatizar funções
Em entrevista recente a um podcast de negócios, Daniella resumiu a lógica que pretende aplicar ao serviço público: “E aí, substitui, faz outro concurso pra gente pagar? Ou dá pra ir substituindo por inteligência artificial no tempo?”. A economista fala em uma “reforma administrativa digital”, que usaria automação para reduzir estruturas, cargos e despesas.
Em eventos com empresários, ela tem citado cerca de 12 milhões de servidores públicos no país, com R$ 450 bilhões por ano em gastos com pessoal e outros R$ 150 bilhões em custos operacionais, tecnológicos e terceirizações. Os valores são apresentados como justificativa para um redesenho do Estado que priorize serviços digitais e corte de funções consideradas burocráticas.
Na prática, a proposta significaria congelar concursos, não repor aposentadorias e deslocar tarefas hoje feitas por pessoas para sistemas de IA e outras tecnologias. Setores como atendimento, processamento de dados, análise de crédito e rotinas administrativas em bancos públicos aparecem entre os primeiros alvos possíveis dessa automação.
Entenda o contexto
A agenda defendida por Daniella se articula com a reforma administrativa abraçada pela campanha de Flávio Bolsonaro. O programa do candidato fala em dar continuidade à reestruturação do serviço público, sem detalhar ponto a ponto as mudanças. O eixo central é reduzir o peso da folha, flexibilizar regras de contratação e aumentar instrumentos de avaliação e desligamento.
Textos em discussão no Congresso ajudam a desenhar esse cenário. A antiga PEC 32 previa restringir estabilidade para novos servidores e ampliar contratações temporárias. Já a PEC 38, apresentada neste ano pelo deputado Zé Trovão (PL-SC), propõe mudanças em avaliação de desempenho, progressão na carreira, remuneração variável e demissão por insuficiência de desempenho, abrindo espaço para enxugamento mais rápido de quadros.
Embora a campanha de Flávio não tenha incorporado integralmente essas propostas, elas indicam o tipo de reforma desejada por parte dos aliados políticos do candidato e formam, junto com a automação, um pacote de redução do Estado.
Sindicatos veem risco de cortes em massa e piora do atendimento
As declarações de Daniella acendem alerta entre trabalhadores de bancos públicos, que já convivem com metas agressivas e uso crescente de tecnologia em suas rotinas. O temor é que a automação seja usada prioritariamente para cortes de pessoal, e não para aliviar tarefas repetitivas e melhorar o atendimento.
Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, critica a forma como a coordenadora econômica da campanha descreve o Estado. “Ao classificar a estrutura estatal como ‘nababesca’, Daniella reforçou uma visão economicista que trata trabalhadores e serviços públicos prioritariamente como despesas a serem cortadas, sem considerar adequadamente os benefícios que proporcionam à sociedade. O debate deveria ser em torno de como os avanços tecnológicos poderiam melhorar o atendimento à população e as condições de trabalho, e não em demitir visando corte de gastos”, afirma.
Para Neiva, o discurso de excesso de servidores não se sustenta quando o Brasil é comparado a países ricos. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que a participação dos trabalhadores do governo no emprego total chega a 30,1% na Noruega, 28,2% na Suécia, 27,3% na Dinamarca e 25,2% na Finlândia. A média dos países da OCDE é de 18,4%. No Brasil, essa proporção é de cerca de 12,5%.
“Servidores são responsáveis por atividades fundamentais em hospitais, escolas, segurança, fiscalização, assistência social e atendimento à população”, lembra a dirigente. Ela alerta que a “redução indiscriminada” de quadros resulta em filas maiores, demora na concessão de benefícios, dificuldade de acesso a serviços essenciais e sobrecarga dos profissionais que continuam.
Bancos públicos no centro da disputa
A pressão é ainda maior sobre Banco do Brasil, Caixa e demais instituições financeiras públicas, já altamente digitalizadas e com agências fechando nos últimos anos. Esses bancos operam programas de habitação popular, crédito agrícola, financiamento estudantil, repasse de benefícios sociais e linhas de desenvolvimento regional.
“Além disso, BB, Caixa e demais bancos públicos cumprem funções estratégicas no financiamento habitacional, crédito agrícola, desenvolvimento regional e execução de políticas sociais. O enfraquecimento dessas instituições pode comprometer serviços essenciais para milhões de brasileiros”, alerta Neiva.
O sindicato avalia que uma política de redução de pessoal, somada ao avanço da automação, pode significar menos agências, equipes enxutas e mais atendimento exclusivamente digital. Idosos, pessoas de baixa renda e cidadãos com pouca familiaridade com aplicativos bancários seriam os mais prejudicados.
Hoje, empregados de BB e Caixa são contratados pela CLT, sem a mesma estabilidade dos servidores estatutários. Ainda assim, reestruturações internas, terceirizações e mudanças em políticas de pessoal afetam diretamente seus direitos e o nível de serviço ofertado à população.
IA, eficiência e direitos em disputa
Especialistas em serviço público e dirigentes sindicais não se opõem ao uso de tecnologia, mas cobram outro desenho de política. Neiva defende que a modernização dos bancos públicos seja usada para reduzir tarefas repetitivas, ampliar a qualidade do atendimento e valorizar os empregados, com qualificação profissional e negociação coletiva.
“Os avanços tecnológicos devem contribuir para melhores condições de trabalho e serviços públicos de qualidade, e não servir como justificativa para precarização, redução de direitos e enfraquecimento das instituições financeiras públicas visando sua privatização”, afirma.
Segundo a dirigente, a combinação entre reforma administrativa, automação orientada à redução de custos e propostas de privatização cria um cenário de incerteza para o futuro dos bancos públicos e de quem depende deles no dia a dia.
Sindicatos prometem intensificar mobilizações e pressionar o Congresso durante a tramitação de propostas como a PEC 38, buscando barrar mudanças que facilitem demissões e cortes em massa atrelados à adoção de inteligência artificial e a outros sistemas automatizados no setor público.


