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Tecnologia

O que forma uma comunidade científica forte no Brasil em 2026?

SBPC e ABC se movem para emplacar Francilene Garcia no Ministério da Ciência. Em paralelo, Feitec reúne mais de mil pessoas em Sergipe e RUN 2027 abre inscrições em SP.

O que forma uma comunidade científica forte no Brasil em 2026?

Ciência

Entenda os movimentos e eventos que fortalecem a comunidade científica brasileira rumo a 2026.

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A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) articulam, em Brasília, a indicação de Francilene Garcia, atual presidente da SBPC, para assumir o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação no próximo mandato de Lula, enquanto eventos em Sergipe e em São Paulo mostram a força de uma comunidade científica que se organiza em torno de investimentos robustos, formação de pesquisadores e integração com o setor produtivo.

O que forma uma comunidade científica forte no Brasil

A articulação em torno do nome de Francilene Garcia é vista por lideranças do setor como tentativa de garantir que o comando do ministério seja ocupado por alguém oriundo da própria comunidade científica, em meio à disputa política pelo controle da pasta entre partidos como PCdoB e PSB. A avaliação de pesquisadores é que uma ministra com trajetória na SBPC pode ampliar o diálogo com universidades, institutos de pesquisa e agências de fomento, influenciando diretamente a distribuição de recursos e a definição de prioridades em ciência e tecnologia.

Na prática, o movimento político se soma a iniciativas em estados e instituições de pesquisa que ajudam a desenhar o que forma uma comunidade científica forte no país: financiamento estável, espaços de encontro entre academia, governo e empresas, e formação avançada em áreas estratégicas. É o caso da Feira de Inovação, Tecnologia, Empreendedorismo e Ciência (Feitec), em Sergipe, e da II Reunião de Usuários de Nêutrons (II RUN 2027), programada para São Paulo.

Feitec reúne mais de mil pessoas e expõe investimento de R$ 81 milhões

Em Aracaju, o Aracaju Parque Shopping recebeu, na última quinta-feira, a segunda edição da Feitec, considerada hoje a maior feira de ciência, inovação e tecnologia de Sergipe. Organizado pela Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec/SE), vinculada à Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia (Sedetec), o evento reuniu mais de mil pessoas em um único dia.

A feira apresentou projetos financiados por editais da Fapitec e aproximou professores, estudantes, pesquisadores, empreendedores, representantes da comunidade científica e instituições de ensino. Segundo a organização, trata-se de uma vitrine dos mais de R$ 81 milhões disponibilizados pelo Fundo Estadual de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funtec) para a Fapitec entre janeiro de 2023 e outubro de 2026.

Para o diretor-presidente da Fapitec, Alex Garcez, a feira cumpre o papel de conectar os atores do ecossistema local. “Nosso intuito é integrar os projetos desenvolvidos por meio dos editais da Fapitec, em parceria com instituições públicas e governamentais, promovendo a conexão entre pesquisadores, estudantes, professores e empreendedores da inovação. Nesta primeira Feitec, reunimos 14 instituições públicas para apresentar seus projetos e iniciativas, fortalecendo o ecossistema de ciência, pesquisa e inovação em Sergipe”, afirma.

O secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia, Valmor Barbosa, destaca que o volume de recursos coloca a ciência no centro da agenda do governo estadual. “A feira coroa esse trabalho ao reunir profissionais, instituições e a comunidade acadêmica para discutir inovação, empreendedorismo e sustentabilidade. Em sua segunda edição, a Feitec ganha uma dimensão ainda maior, com perspectivas de crescimento impulsionadas pelos investimentos estaduais e pelo apoio do governador Fábio Mitidieri. A iniciativa reconhece a ciência e a tecnologia como instrumentos fundamentais para a capacitação de pessoas e o desenvolvimento de Sergipe”, diz.

Inovação aplicada e incubação de projetos

A programação incluiu a etapa final do Inovathon SE, maratona de inovação promovida pela Fapitec. Os participantes tiveram de propor soluções tecnológicas para desafios reais, em três eixos: Transformação Digital, Qualidade de Vida e Desenvolvimento Sustentável. Ao fim da competição, três projetos serão selecionados para seis meses de incubação no Sergipe Parque Tecnológico (SergipeTec).

De acordo com a coordenação do Programa de Comunicação da Fapitec (Procit), cada equipe vencedora receberá R$ 5 mil logo após a seleção e poderá conquistar mais R$ 20 mil ao final do período de incubação, totalizando R$ 25 mil por projeto, caso sejam aprovadas pela avaliação do SergipeTec.

Entre as iniciativas apresentadas, o médico Hermílio Carvalho Júnior, à frente da startup Lookside e beneficiário do programa Tecnova III, defendeu que feiras como a Feitec ajudam a transformar ideias em negócios de impacto. “Tudo surgiu a partir de um projeto estudantil, da ideia de desenvolver soluções que pudéssemos construir em conjunto. Desde o início, tínhamos a visão de como a inteligência artificial poderia contribuir para tornar a saúde mais acessível e eficiente. Hoje, estudantes de qualquer área e de qualquer estado do Brasil têm condições de desenvolver projetos extraordinários”, afirma.

Outro destaque foi o Sistema Interno de Gestão Policial (Sisgep), criado pela policial Victoria Barros para centralizar o controle de veículos e objetos apreendidos em delegacias e organizar agendas de oitivas. A plataforma incorpora um assistente de inteligência artificial voltado aos servidores públicos, desenhado para manter o sigilo das informações ao automatizar resumos de procedimentos.

Entenda o contexto

Ao canalizar recursos do Funtec e conectar universidades, empresas e poder público, Sergipe tenta consolidar um ambiente de inovação contínua, em linha com a pauta nacional da SBPC e da ABC por mais orçamento, estabilidade regulatória e protagonismo técnico na condução do MCTI. A leitura de pesquisadores é que experiências estaduais bem-sucedidas ganham peso nas discussões em Brasília, especialmente quando a escolha de ministros passa a ser disputada por partidos políticos.

RUN 2027 amplia formação em pesquisa com nêutrons em São Paulo

Enquanto o debate político avança na capital federal e as feiras regionais ganham corpo, a comunidade de física e materiais se prepara para a II Reunião de Usuários de Nêutrons (II RUN 2027), marcada para os dias 26, 27 e 28 de janeiro de 2027 no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN-CNEN), em São Paulo.

O encontro será realizado em inglês, mediante inscrição prévia, e terá dois blocos principais: a Neutron Diffraction School, dedicada à formação de novos usuários na técnica de difração de nêutrons, e o Neutron Users Workshop, voltado à apresentação de resultados, discussão de projetos em andamento e planejamento de colaborações científicas. As inscrições foram prorrogadas e seguem abertas até 30 de novembro de 2026.

A organização envolve o IPEN e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Associação Brasileira de Cristalografia (ABCr). O evento conta ainda com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do ISIS Neutron and Muon Source, centro internacional de referência na área.

Para pesquisadores, a RUN 2027 é estratégica porque consolida uma comunidade de usuários capaz de aproveitar equipamentos de grande porte e desenhar projetos em rede, algo considerado essencial em campos como física da matéria condensada, química de materiais, geociências e biologia estrutural. Ao formar novos especialistas e aproximar grupos do Brasil e do exterior, o encontro tende a fortalecer frentes de pesquisa de alto impacto em médio e longo prazo.

No conjunto, a articulação pelo nome de Francilene Garcia no MCTI, os investimentos da Feitec em Sergipe e a organização da RUN 2027 em São Paulo são vistos por lideranças acadêmicas como sinais de um momento de maior mobilização e coesão da comunidade científica brasileira, que tenta combinar pressão política em Brasília com resultados concretos em laboratórios, startups e programas de formação espalhados pelo país.