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Gestão de TI

FPT do Vietnã cresce 40% e desafia domínio indiano em TI global

Saída da Wipro do Nifty 50 simboliza perda de fôlego dos offshorers indianos e abre espaço para a vietnamita FPT, que cresce com foco em IA, outsourcing e transformação digital.

FPT do Vietnã cresce 40% e desafia domínio indiano em TI global

Tecnologia

Empresa vietnamita FPT expande rapidamente no mercado global de TI, impulsionada por inteligência artificial e serviços digitais.

Leia também: CIOs enfrentam desafios de segurança com agentes de IA

A saída da Wipro do índice indiano Nifty 50, no fim de setembro, virou símbolo de uma virada no mercado global de serviços de TI: enquanto os tradicionais offshorers indianos perdem espaço, a vietnamita FPT acelera como nova potência em inteligência artificial, terceirização e transformação digital, disputando contratos de alto valor com clientes na Europa, Oriente Médio e Estados Unidos.

FPT cresce com IA, outsourcing e contratos milionários

No centro dessa mudança está a FPT, gigante de tecnologia do Vietnã que replica o modelo de serviços globais criado por Wipro, Tata e Infosys, mas com foco declarado em IA e tecnologias emergentes. A empresa já soma 85.000 funcionários, presença em 30 países e 1.100 clientes, com uma receita de quase US$ 2,7 bilhões em 2025.

Os contratos de outsourcing da FPT, voltados a grandes empresas de setores como finanças, telecomunicações e indústria, frequentemente superam US$ 10 milhões. Segundo a própria companhia, esses acordos crescem cerca de 30% ao ano, impulsionados por projetos que vão além da simples terceirização de código e incluem consultoria de transformação digital, modernização de sistemas legados e implantação de plataformas de IA.

“We are an AI-first company and we are good at complex challenges that can serve the UK, such as quantum computing and building AI skills”, afirma Dang Tran Phuong, head da FPT para Europa e Oriente Médio. A estratégia é clara: usar IA, computação quântica e segurança cibernética como porta de entrada para contratos maiores e mais estratégicos.

Entenda o contexto

O movimento em torno da FPT acontece no momento em que a Índia, por décadas sinônimo de offshoring em TI, sente os limites de um mercado saturado e pressionado por margens menores. A saída da Wipro do Nifty 50 é vista por analistas como um sinal concreto de perda de protagonismo de parte desses gigantes.

O vácuo é ocupado por novos polos de serviços digitais. O Vietnã se destaca como “estrela” do crescimento no Sudeste Asiático, com expansão acima de 8%, desempenho que supera vizinhos como Malásia, Singapura e Indonésia. O país persegue a meta de entrar entre as 25 maiores economias do mundo nas próximas décadas, apoiado em políticas agressivas de digitalização de serviços públicos, inclusão financeira via identidade digital e cobertura ampla de banda larga móvel.

Esse ambiente atrai players globais como Apple, Intel, Nvidia e Samsung, que instalam operações voltadas a pesquisa, desenvolvimento e engenharia avançada, incluindo semicondutores. A presença dessas multinacionais alimenta um ecossistema local de fornecedores — e a FPT é hoje o principal símbolo dessa nova fase.

Universidade própria e parcerias com gigantes de tecnologia

Diferentemente de muitos concorrentes, a FPT construiu um modelo integrado que combina serviços, produtos e formação de talentos. A empresa mantém suas próprias universidades e campi tecnológicos no Vietnã, o que lhe permite abastecer a operação global com desenvolvedores, cientistas de dados e engenheiros treinados sob medida para suas demandas.

No portfólio, além de desenvolvimento de software e BPO, entram consultoria de transformação industrial, visualização computacional, uso de drones em operações críticas, telecomunicações e infraestrutura. A companhia também se apoia em uma rede extensa de parcerias com provedores centrais para o Ocidente, como Salesforce, Palantir, AWS, OpenAI e Sitecore.

Essa estratégia tem um componente de visibilidade global. O logo da FPT já estampa, por exemplo, a manga da camisa do Chelsea, clube inglês com o qual a empresa mantém parceria em projetos de experiência do torcedor e transformação digital. Ao mesmo tempo, a FPT avança em contratos com governos e grandes grupos privados no Reino Unido, Europa continental e Oriente Médio.

IA, segurança e o novo modelo de outsourcing

Para se diferenciar, a FPT aposta em um pacote de soluções de IA que vai da infraestrutura de GPUs, o chamado “AI factory”, até plataformas de agentes inteligentes usadas para automatizar processos corporativos. A empresa trabalha com parceiros como Microsoft, Nvidia, SAP e Anthropic para transformar seu ecossistema FleziPT em peça central da industrialização da IA nas empresas.

No campo da segurança cibernética, a FPT fechou acordo com a OpenAI para usar modelos de fronteira em detecção de ameaças e resposta automatizada, integrados a fluxos de trabalho de clientes. Em vez de depender de frameworks de terceiros, a companhia desenvolveu o Casan, metodologia própria em cinco etapas que guia organizações desde o estágio “curioso” em IA até um nível “nativo”, passando por fases intermediárias de uso aumentado, padronizado e automatizado.

Segundo a FPT, a combinação de Casan com FleziPT permite reduzir em até 60% o tempo de desenvolvimento de projetos e elevar em cerca de 30% a produtividade de desenvolvedores — números que, se sustentados, reforçam a promessa de maior velocidade e eficiência em comparação a modelos tradicionais de outsourcing.

Clientes também relatam ganhos práticos. Ashkan Marandi, head de engenharia e desenvolvimento de produto na seguradora Davies Insurance, afirma que a parceria com a FPT se baseia na capacidade de entrega rápida aliada à experiência técnica em serviços financeiros. “We partner with FPT because they can provide us with offshore capabilities and speed, and to be able to use the technical experience within the BFSI sector”, diz.

Vietnã vira alternativa estratégica ao modelo indiano

Para analistas, a ascensão da FPT encaixa-se em uma tendência mais ampla: a queda das barreiras de entrada em serviços globais de TI graças à IA e a modelos abertos, que permitem a novos países seguir trajetória semelhante à da Índia sem repetir, na mesma escala, o esforço educacional de décadas atrás.

Com o avanço da automação e da IA generativa, empresas de qualquer lugar podem montar times enxutos, porém altamente qualificados, e disputar projetos globais que antes exigiam enormes fábricas de software. Ao combinar um “motor” próprio de talentos (via FPT University), uma base de propriedade intelectual reutilizável e um modelo flexível de delivery — que mistura Vietnã, centros regionais e presença local em mercados-chave —, a FPT se posiciona como fornecedora capaz de executar grandes programas de tecnologia com escala e velocidade.

Relatórios recentes de consultorias internacionais indicam, porém, que apenas cerca de um quarto das empresas se consideram avançadas em IA, o que abre uma avenida para quem se apresentar como parceiro capaz de tirar projetos do piloto e levá-los para produção, com resultados mensuráveis. É exatamente nesse ponto que a FPT mira seus investimentos em IA-first, computação quântica aplicada e segurança cibernética.

Linus Lai, analista da IDC, destaca que a combinação de universidade própria, entrega baseada em plataformas e um stack completo de IA dá à empresa “direito de vencer” em projetos de grande porte, especialmente na Ásia. O desafio daqui para frente, avalia ele, é avançar em liderança de pensamento e migrar para modelos de precificação baseados em resultados, ampliando sua “AI factory” para outros continentes.

Pressão sobre offshorers indianos e próxima fase da disputa

Do outro lado, a saída da Wipro do Nifty 50 funciona como alerta para os offshorers indianos. A mensagem é de que não basta mais oferecer mão de obra em larga escala e custo competitivo: grandes clientes multinacionais buscam hoje pacotes completos de inovação, proximidade geográfica (nearshoring quando possível), tempo de resposta curto e domínio de tecnologias emergentes.

Países e empresas que investem pesado em formação de talentos digitais, como o Vietnã, tendem a ganhar vantagem nessa nova corrida. O resultado provável, no médio prazo, é um mercado de serviços de TI mais diversificado, em que Índia, Vietnã, América Latina e países do Leste Europeu disputam contratos com base em especialização técnica, qualidade e capacidade de inovar — não só em preço.

Para os clientes corporativos, a mudança é positiva: mais opções de fornecedores globais, maior pressão por qualidade e ciclos de entrega mais rápidos. Para provedores tradicionais, o recado é duro: ou renovam suas ofertas em torno de IA, segurança, computação de ponta e novos modelos de negócio, ou correm o risco de perder espaço para recém-chegados famintos, como a FPT e outros players do Sudeste Asiático.

Fonte: matéria original