Funcionários viram alvo nº 1 em ataques digitais no Brasil hoje
Especialista ligado ao Cesar, em parceria com o GSI, alerta que funcionários viraram principal porta de entrada para crimes digitais e detalha projeto nacional de troca de dados sobre ameaças.
Segurança Digital
Especialistas destacam que colaboradores são a principal vulnerabilidade para ataques cibernéticos no país.
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Funcionários de empresas e servidores públicos são hoje o principal ponto de entrada para crimes digitais no Brasil, alerta um especialista em segurança ligado ao Centro de Estudos em Segurança e Cidadania (Cesar), que trabalha em parceria com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência. Segundo ele, criminosos preferem enganar pessoas a tentar invadir sistemas diretamente, o que força empresas e governo a reverem estratégias e ampliar investimentos em educação e em equipes de cibersegurança.
Pessoas viram alvo principal dos criminosos
Para o especialista, a mudança de foco dos ataques é clara: a vulnerabilidade humana passou à frente das brechas técnicas. “Os criminosos estudam os comportamentos das pessoas e das empresas. Alguns estão infiltrados em empresas e órgãos públicos”, afirma.
Ele explica que, em ataques recentes a companhias, é comum o ponto de rompimento ser um acesso legítimo, feito com credenciais de um funcionário, e não uma invasão tradicional. “Quando vemos um ataque a empresas, é comum ver que ele ocorreu com um acesso legítimo de um funcionário”, diz. Golpes de engenharia social miram desde atendentes até executivos de alto escalão, com abordagens personalizadas.
Um exemplo citado pelo especialista mostra o nível de sofisticação. “Se um executivo de alto escalão tem uma mãe com uma doença terminal e está sendo estudado por criminosos, eles vão tentar golpes falando sobre estudos experimentais, por exemplo”, relata. A partir desse gancho emocional, os fraudadores tentam induzir o alvo a clicar em links maliciosos ou liberar informações sensíveis que podem sabotar a empresa.
Segundo ele, os criminosos cruzam dados de redes sociais, vazamentos e informações públicas para mapear rotina, gostos e fragilidades de cada alvo. “Os criminosos sabem o que você faz no dia a dia, qual é o seu time de futebol e para onde você viaja”, resume.
Entenda o contexto
O avanço da automação e da transformação digital barateou e facilitou a produção de malwares e ataques em massa. Ferramentas de inteligência artificial, hoje usadas por empresas para ganhar eficiência, também são exploradas por grupos criminosos para criar códigos maliciosos e campanhas de fraude em escala.
Nesse cenário, a proteção digital virou um jogo assimétrico. “Existe uma escala de riscos de cibersegurança que não vai ter controle. A questão é quais são os mecanismos para mitigar isso”, afirma o especialista. Ele reforça que a segurança digital tende a andar na direção oposta do conforto: “A cibersegurança é inimiga do conforto. Se temos mais tecnologia e mais facilidades, temos mais vulnerabilidades”.
Do lado da investigação, as forças policiais enfrentam limites concretos. “A polícia tenta pegá-los, mas há uma limitação de infraestrutura”, diz. A velocidade com que criminosos testam e abandonam novas formas de ataque, sem se prender a protocolos ou longos ciclos de validação, cria um ambiente em que o Estado corre atrás do prejuízo.
Projeto nacional de troca de informações
Para tentar diminuir essa desvantagem, o Cesar desenvolve, em conjunto com o GSI, um modelo de compartilhamento nacional de informações sobre ameaças cibernéticas. “Estamos criando um modelo de compartilhamento de ameaças a nível nacional”, explica o especialista.
O sistema está em fase de validação com mais de 180 instituições federais e universidades, incluindo Petrobras, Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Ministério da Agricultura, Pecuária e Meio Ambiente e DataPrev. A ideia é que, quando uma dessas entidades sofrer um ataque, consiga repassar rapidamente detalhes técnicos e de autoria suspeita para a rede, permitindo que parceiras ajustem suas defesas antes de serem atingidas.
Na prática, o fluxo compartilharia dados como tipo de ataque, vulnerabilidades exploradas e possíveis grupos de hackers associados, criando um banco de inteligência coletiva. Hoje, parte dessa troca ocorre de forma fragmentada e informal entre algumas empresas e órgãos, o que reduz a eficácia da resposta.
Tecnologia sob pressão e problema dos falsos positivos
O especialista avalia que as ferramentas disponíveis para detectar ataques ainda estão em ajuste e geram ruído demais para as equipes. “Existem tecnologias, mas elas geram muitos falsos positivos. Isso é muito perigoso porque onera equipes, processos e aumenta custos”, afirma.
Soluções que monitoram anomalias em redes e sistemas já estão disseminadas, mas ainda patinam para identificar desvio de comportamento humano sem travar o dia a dia das empresas. “Há tecnologias sendo usadas para detecção de anomalias, para detectar problemas de segurança e outras para estudar o comportamento humano, o que é mais difícil porque não necessariamente será uma anomalia convencional e pode passar despercebida”, explica.
Enquanto equipes de segurança precisam cumprir etapas de análise, testes e validação para colocar um sistema de inteligência artificial em produção, criminosos operam sem freios. “Quando criamos um sistema de IA, temos de escolher o algoritmo mais adequado para cada tipo de dado e fazemos uma série de testes. Os criminosos não fazem nada disso; se der certo, ótimo. Se não, criam outro sistema rápido e o caos está feito”, resume.
Educação e falta de lucro travam investimentos
Além de tecnologia, o especialista insiste em uma mudança de cultura que começa fora das empresas, ainda na escola. Para ele, noções de segurança digital, golpes e fraudes deveriam fazer parte da educação básica, para que a população se torne menos vulnerável a abordagens criminosas cada vez mais elaboradas.
Dentro das organizações, ele defende expansão dos times de segurança, programas contínuos de treinamento e integração da cibersegurança em todas as áreas. “A cibersegurança não pode estar separada de nenhum processo, seja governamental ou de instituições privadas. Ela é uma área de conhecimento que é transversal”, afirma.
Um dos entraves, porém, é financeiro. Como a proteção digital não é percebida como fonte direta de receita, muitas empresas a tratam como despesa adiável. “A IA visa performance e entrega para gerar lucro. A cibersegurança não gera lucro diretamente e, muitas vezes, é deixada de lado”, diz o especialista.
Ele argumenta que essa visão é perigosa em um momento em que praticamente todos os processos críticos — de pagamentos a cadastros sensíveis e sistemas de infraestrutura — dependem de redes conectadas. Falhas podem parar operações, expor dados de milhões de pessoas e gerar prejuízos de difícil cálculo.
Pressão por prioridade estratégica
Com o aumento dos ataques e a maior dependência de serviços digitais, cresce a pressão para que a segurança deixe de ser um item de checklist e passe a ocupar lugar estratégico em conselhos de empresas e no alto escalão do governo.
Para o especialista, a combinação de um sistema robusto de compartilhamento de ameaças, investimento em tecnologias mais precisas e uma ofensiva em educação digital é o mínimo necessário para conter a escalada dos crimes. Enquanto isso não acontece de forma ampla, ele vê o país em uma corrida permanente para reduzir danos num ambiente em que a vulnerabilidade humana segue no centro dos ataques.
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