IA decifra carta codificada de Napoleão em apenas 6 horas
Modelos de inteligência artificial decifram em horas uma carta codificada de Napoleão, revelam papiros carbonizados de Herculano e transcrevem milhões de manuscritos hebraicos, mudando a pesquisa histórica.

Inteligência Artificial
Tecnologia avança na decodificação rápida de documentos históricos, revolucionando a pesquisa acadêmica.
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Modelos de inteligência artificial estão abrindo cofres da história: em poucas horas, decifraram uma carta codificada de Napoleão Bonaparte, ajudaram a ler papiros carbonizados de Herculano e já transcrevem milhões de páginas de manuscritos hebraicos, criando bancos de dados digitais que começam a transformar o trabalho de historiadores no mundo todo.
IA quebra código de carta de Napoleão em seis horas
A vitrine mais recente desse avanço é o trabalho do engenheiro de IA Carter Church, de 27 anos. Usando um modelo desenvolvido pela OpenAI, ele conseguiu decifrar em cerca de seis horas uma carta que Napoleão mandou criptografar em 1809, endereçada a um de seus generais e dedicada a detalhar posições militares francesas e aliadas. O documento estava disponível em um arquivo universitário online, mas seguia praticamente impenetrável para leitura direta.
Sem auxílio digital, a tarefa poderia levar semanas de tentativa e erro de especialistas em códigos históricos. Com a IA, o processo foi automatizado e acelerado: o modelo testou combinações, identificou padrões e reconstituiu o texto. “O que a IA traz, acima de tudo, é perseverança”, resume Church, destacando a capacidade do sistema de testar hipóteses sem se cansar.
O caso alimenta projetos maiores, como o francês “Back in time”, que reúne historiadores, criptógrafos e especialistas em computação para criar ferramentas capazes de transcrever e decifrar missivas diplomáticas e militares codificadas, armazenadas em arquivos europeus. Boa parte desses documentos é escrita com símbolos inventados – triângulos, círculos e sinais variados – que, até aqui, ficaram esquecidos em caixas e microfilmes.
À frente científica do projeto, a criptógrafa Cécile Pierrot, do Instituto Nacional de Pesquisa em Ciências e Tecnologias Digitais da França (Inria), vê nesse arsenal uma chance de recontar períodos inteiros. “Há séculos inteiros sobre os quais estamos totalmente perdidos”, afirma. A ambição, diz ela, é usar a IA para construir “uma abordagem muito mais ampla sobre a história”.
Papiros de Herculano ganham leitura virtual
Outro campo em que a tecnologia vem rompendo barreiras é o dos papiros carbonizados de Herculano, preservados após a erupção do Vesúvio no ano 79. Os rolos, escurecidos e extremamente frágeis, não podem ser desenrolados à mão sem se despedaçar – o que por décadas condenou boa parte desse material ao silêncio.
A saída encontrada por pesquisadores passa por escaneamento com raios X de altíssima resolução, seguido da análise por modelos de IA. Os algoritmos ajudam a “desenrolar” virtualmente os rolos e a distinguir sutis diferenças de densidade no interior do material, suficientes para revelar letras e linhas de texto.
Em junho, a equipe que trabalha com o acervo da Biblioteca Nacional de Nápoles anunciou a primeira reconstituição virtual completa de um desses papiros. O conteúdo emocionou os especialistas. “O texto revelado é um tratado estoico dedicado à ética”, conta Federica Nicolardi, professora associada de papirologia na Universidade de Nápoles. O manuscrito, ilegível a olho nu, passa agora a ser estudado em detalhe e pode mudar a compreensão sobre correntes filosóficas no mundo romano.
Para papirologistas como Nicolardi, a IA não substitui o conhecimento filológico e histórico, mas torna possível acessar materiais que, fisicamente, o ser humano não poderia tocar. Cada novo rolo digitalizado amplia a coleção de textos antigos disponíveis para comparação, edição crítica e tradução.
Milhões de manuscritos hebraicos em banco de dados
Enquanto alguns grupos miram documentos individuais de alto valor simbólico, outros apostam em escala massiva. É o caso do projeto Midrash, que usa IA para transcrever cerca de 10 milhões de páginas de manuscritos hebraicos, espalhados por acervos do mundo inteiro. A meta é transformar esse oceano de páginas em bancos de dados consultáveis, em que nomes, lugares, conceitos e referências cruzadas possam ser rastreados em segundos.
“Estamos transcrevendo 10 milhões de páginas de manuscritos hebraicos. É algo gigantesco. Não existe ser humano capaz de processar uma quantidade dessas”, afirma Daniel Stökl Ben Ezra, diretor de estudos em Ciências Históricas na École Pratique des Hautes Études, em Paris. Ele compara o sistema a um “grande Facebook do passado”, no qual será possível enxergar conexões antes invisíveis entre pessoas, comunidades, textos religiosos e decisões legais.
Na prática, os modelos de IA recebem imagens digitalizadas dos manuscritos, reconhecem os caracteres, fazem a transcrição automática e alimentam uma base pesquisável. Historiadores e linguistas entram em seguida para revisar trechos problemáticos, treinar novamente os modelos com correções e qualificar as consultas.
Entenda o contexto
A chegada da inteligência artificial a arquivos, bibliotecas e laboratórios de história atende a três desafios clássicos da área: decifrar códigos difíceis, lidar com materiais frágeis e vencer o volume de documentos. A carta cifrada de Napoleão ilustra o primeiro ponto; os papiros de Herculano, o segundo; e o Midrash, o terceiro.
Em todos os casos, a lógica é parecida: algoritmos assumem tarefas repetitivas, exaustivas ou fisicamente impossíveis, enquanto especialistas humanos interpretam o conteúdo, contextualizam, conferem a precisão e discutem o que esses textos significam para a história. A promessa é democratizar o acesso a fontes primárias, ampliando o número de pesquisadores e instituições capazes de trabalhar com acervos antes restritos.
O movimento, porém, exige infraestrutura e formação técnica. Digitalizar em alta resolução, armazenar grandes bases de dados e treinar modelos de IA demanda investimento em equipamentos, servidores e equipes capacitadas. Instituições menores correm o risco de ficar para trás, a menos que projetos colaborativos – como os que hoje reúnem universidades, bibliotecas nacionais e centros de pesquisa – se expandam.
Para pesquisadores como Pierrot, Nicolardi, Church e Ben Ezra, a tendência é que essa primeira onda de ferramentas, hoje focada em decifrar, transcrever e organizar, evolua para sistemas capazes também de sugerir relações históricas, padrões de circulação de ideias e mudanças de linguagem ao longo do tempo. A aposta é que, ao abrir esses arquivos adormecidos, a IA ajude a reescrever capítulos inteiros da história com base em fontes que, até agora, ninguém conseguia ler.
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