IA dispara corrida para trocar criptografia no sistema financeiro
Avanço da inteligência artificial em matemática acende alerta sobre fragilidade da criptografia atual. Regulador britânico pressiona mais de 35 mil empresas a se preparar para trocar algoritmos.

Inteligência Artificial
O avanço da IA em matemática revela vulnerabilidades na criptografia usada no setor financeiro, exigindo atualização urgente.
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O avanço da inteligência artificial na matemática está acendendo um alerta vermelho sobre a segurança da criptografia que protege transações bancárias e grandes bancos de dados, e já leva o principal regulador financeiro do Reino Unido, a Autoridade de Conduta Financeira (FCA), a pressionar mais de 35 mil empresas a planejar a troca dos algoritmos usados hoje.
Como a inteligência artificial ameaça a segurança da criptografia?
A inteligência artificial ameaça a criptografia ao reduzir, na prática, a dificuldade de problemas matemáticos que sustentam os códigos de segurança digitais. Sistemas de IA passaram a produzir novos algoritmos e a encontrar soluções para questões antes consideradas intratáveis, abrindo a possibilidade de decifrar métodos que hoje blindam contas bancárias, comunicações corporativas e dados sensíveis.
O matemático Geordie Williamson, em palestra no Imperial College London, descreveu o que está em jogo: “O que vem ocorrendo nesses sistemas [de IA] é um tipo completo de reestruturação do que é a ‘dificuldade’, e a dificuldade serve de base para grande parte da criptografia moderna”. Para ele, o setor deve se preparar para “choques muito perturbadores, grandes, grandes choques”.
A criptografia moderna depende de certezas práticas, como a de que é fácil multiplicar dois números primos enormes, mas muito difícil fazer o caminho inverso e descobrir quais primos geraram um produto. Se modelos de IA conseguirem acelerar esse tipo de fatoração ou encontrar atalhos em problemas semelhantes, códigos hoje considerados seguros podem deixar de ser confiáveis.
Pesquisadores relatam que a IA já melhora o desempenho em áreas cruciais, como teoria dos números e elaboração de algoritmos, justamente os campos que alimentam esquemas criptográficos. Ao mesmo tempo, modelos desenvolvidos por grandes laboratórios de IA vêm expondo falhas em linguagens de programação amplamente usadas, como a PHP, o que evidencia o potencial da tecnologia para encontrar brechas em sistemas digitais.
Entenda o contexto
A tensão aumentou depois que a OpenAI divulgou centenas de artigos matemáticos com provas para problemas abertos de longa data, parte deles produzidos com auxílio de seus modelos. A iniciativa provocou reação da Associação pela Matemática Humana (AHM), criada para defender o campo da “ameaça da inteligência artificial”, que pediu a matemáticos que interrompam colaborações com a empresa.
A OpenAI, por sua vez, saiu em defesa do trabalho e prometeu US$ 5 milhões para uma fundação dedicada à matemática, numa tentativa de mostrar que a tecnologia pode impulsionar, e não substituir, a pesquisa. Enquanto o debate acadêmico se acirra, reguladores e especialistas em cibersegurança olham para o impacto direto sobre a infraestrutura digital.
Daniel Shiu, professor de criptomatemática na Universidade de Manchester, resume a preocupação: a perspectiva de que a IA “quebre” ferramentas de criptografia emerge como um “risco significativo” para “formas mais matemáticas de criptografia”. Na visão dele, algoritmos novos, desenhados justamente para resistir a ataques de futuros computadores quânticos, estão entre os “menos maduros” e, portanto, mais vulneráveis a descobertas inesperadas feitas com ajuda de IA.
Quais medidas estão sendo tomadas para proteger dados contra ataques de inteligência artificial?
No Reino Unido, a FCA já testa uma nova ferramenta de supervisão com 50 grandes instituições financeiras para medir o nível de preparo diante de riscos tecnológicos emergentes. A agência afirma que as ciberameaças vêm “evoluindo rapidamente à medida que a IA e a computação quântica avançam” e prepara orientações práticas, previstas para novembro, para orientar o plano de transição criptográfica das mais de 35 mil empresas sob sua alçada.
O recado do regulador é de urgência. “As firmas não deveriam ficar esperando para agir”, declarou a FCA. A orientação é que as instituições entendam detalhadamente como seus sistemas estão protegidos hoje e comecem a se organizar para um futuro “seguro contra ameaças quânticas” e de IA, o que inclui mapear onde a criptografia é usada, quais algoritmos dependem de suposições matemáticas mais frágeis e como será feita a migração para padrões mais robustos.
Na prática, isso significa desenvolver planos de substituição de algoritmos, adotar arquiteturas que permitam trocar ferramentas criptográficas com menos atrito e acompanhar de perto os padrões técnicos internacionais em criptografia resistente tanto a computadores quânticos quanto a avanços de IA. Empresas de outros setores estratégicos, como telecomunicações, já começaram a adaptar suas infraestruturas para facilitar futuras trocas de tecnologia à medida que surgirem novas ameaças.
A discussão também reabre uma dúvida central no setor financeiro: “Qual é o crocodilo que está mais próximo do barco no que se refere a nossos algoritmos criptográficos? É o quântico ou é a IA?”, provocou uma fonte do mercado. Até agora, o consenso era de que computadores quânticos seriam a principal ameaça futura à criptografia. Com o salto recente da IA em matemática, cresce a percepção de que o risco pode chegar antes pelo lado dos algoritmos inteligentes, forçando governos e empresas a agir já, e não apenas quando a computação quântica estiver madura.
Segundo especialistas ouvidos por universidades e autoridades, países como Estados Unidos, China e Alemanha já reavaliam ferramentas criptográficas em uso e em desenvolvimento à luz da nova capacidade da IA. A expectativa é que as diretrizes da FCA sirvam de modelo para outros reguladores e acelerem uma mudança global nas práticas de segurança digital, com atualização constante de tecnologias e regras para tentar manter os dados um passo à frente das máquinas.


