Lula relança Ciência sem Fronteiras com foco em IA e defesa
Governo Lula prepara a volta do Ciência sem Fronteiras, agora voltado a IA, engenharia, matemática aplicada e pesquisas em defesa e soberania, sem limite de renda.
Inteligência Artificial
Programa visa impulsionar pesquisas estratégicas em IA, engenharia e defesa, ampliando oportunidades sem restrição de renda.
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O governo Luiz Inácio Lula da Silva decidiu recriar o programa Ciência sem Fronteiras com um desenho mais focado em áreas estratégicas como inteligência artificial, engenharia, matemática aplicada e pesquisas ligadas à defesa e à soberania nacional, incluindo minerais de terras raras. O Ministério da Educação (MEC) trabalha neste momento nos detalhes do novo modelo, que prevê bolsas para graduação e pós-graduação no exterior sem limite de renda para seleção.
Como será o novo Ciência sem Fronteiras
A proposta em discussão no MEC prevê três grandes frentes de atuação. A primeira deve atender estudantes de graduação que queiram cursar parte da formação em universidades no exterior, em áreas consideradas prioritárias para o desenvolvimento tecnológico do país, como engenharia, inteligência artificial, matemática aplicada e eficiência energética.
Uma segunda frente será voltada a estudantes e pesquisadores de mestrado, doutorado e pós-doutorado em modalidades sanduíche, quando o bolsista realiza parte da pesquisa ou da formação fora do Brasil. Nesse caso, o foco recai sobre temas diretamente relacionados à defesa e à soberania nacional, como estudos sobre minerais de terras raras, fundamentais para a indústria de alta tecnologia e de defesa.
Um terceiro grupo de beneficiários ainda está em definição técnica dentro do MEC e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), responsável pela maior parte das bolsas de pós-graduação do país. Não há, por enquanto, número projetado de bolsistas nem valor de orçamento divulgado, mas a orientação política é concentrar recursos em áreas de alta complexidade e impacto econômico e estratégico.
Entenda o contexto
Na versão anterior, o Ciência sem Fronteiras levou cerca de 100 mil estudantes e pesquisadores brasileiros para instituições estrangeiras, em especial de graduação. Desse total, aproximadamente 30 mil bolsas tiveram como destino universidades dos Estados Unidos, seguidas por instituições do Reino Unido, Canadá, França e Austrália.
O investimento federal chegou a cerca de R$ 13 bilhões naquele ciclo, segundo dados da Capes. Uma pesquisa do DataSenado com 14,6 mil bolsistas e ex-bolsistas apontou que 92% estavam satisfeitos ou muito satisfeitos com a experiência. Na prática, o programa abriu a porta de universidades estrangeiras para uma geração de estudantes brasileiros e ampliou a circulação internacional de pesquisadores.
Ao mesmo tempo, o modelo foi alvo de críticas pela falta de foco temático e por falhas na integração com as universidades brasileiras. Muitos alunos tiveram dificuldades para validar os créditos cursados no exterior ao retornar ao país, o que esvaziou o efeito acadêmico da experiência em vários casos.
Críticas antigas moldam o novo desenho
Especialistas e ex-gestores ouvidos pelo governo apontam que o maior desafio da nova fase é garantir que o investimento se traduza em ganho efetivo para o sistema acadêmico e produtivo brasileiro. Para o professor Leandro Tessler, do Instituto de Física da Unicamp, que acompanhou de perto a experiência anterior, o problema central estava na falta de objetivos claros e de integração curricular.
“Os estudantes adoravam porque realmente é muito bom para a vida pessoal de cada um, mas muitos voltavam e não conseguiam validar os créditos que tinham feito lá”, afirma Tessler. Ele defende que a recriação do programa seja acompanhada de convênios sólidos entre universidades brasileiras e estrangeiras, garantindo compatibilidade de currículos e regras de aproveitamento das disciplinas cursadas fora.
Na avaliação de Tessler, também é necessário estabelecer metas de desempenho para os bolsistas e acelerar a modernização dos cursos de engenharia no país, para que a formação no exterior converse com o que é ensinado aqui. A ideia, segundo técnicos envolvidos, é que o novo desenho do programa incorpore esses mecanismos de controle acadêmico desde o início.
Foco em soberania e tecnologia de ponta
Ao direcionar o programa para inteligência artificial, engenharia avançada, matemática aplicada e minerais estratégicos, o governo busca alinhar a política de bolsas ao esforço de fortalecimento da soberania nacional. Pesquisas em sistemas de informação, segurança cibernética, automação industrial e exploração de terras raras são vistas como essenciais para reduzir a dependência externa em tecnologias sensíveis.
Setores de ciências exatas, engenharias e institutos ligados à defesa devem ser diretamente beneficiados com maior intercâmbio internacional, novas parcerias de pesquisa e atualização de laboratórios e currículos. Por outro lado, áreas acadêmicas que não se encaixam nesse recorte estratégico tendem a perder espaço relativo no acesso a bolsas no exterior.
Outro ponto considerado central é a ausência de limite de renda para a seleção, o que mantém o caráter universal da política: qualquer estudante que atenda aos requisitos acadêmicos poderá concorrer, independentemente de condição socioeconômica. A expectativa dentro do governo é que critérios de mérito e aderência às áreas prioritárias funcionem como filtro principal.
O que muda em relação ao passado
O ex-presidente da Capes Abílio Baeta Neves lembra que, no ciclo anterior, as concessões de bolsas foram suspensas antes do retorno dos últimos participantes. “As concessões de bolsas deixaram de ser feitas em 2015, mas muitos estudantes ficaram até 2017 porque as viagens duravam até um ano e meio”, relata.
Nesta nova etapa, a intenção é que a distribuição de bolsas já nasça atrelada a metas de impacto científico e tecnológico, com monitoramento mais rigoroso de resultados e articulação com demandas do setor produtivo. Internamente, técnicos discutem formas de condicionar parte das bolsas a projetos vinculados a laboratórios estratégicos, centros de inovação e programas nacionais de defesa e de digitalização da economia.
Enquanto o MEC finaliza os critérios de seleção e as modalidades de bolsa, universidades e pesquisadores acompanham com expectativa a reabertura do programa. A avaliação predominante na comunidade científica é que, se corrigir os erros do passado e concentrar recursos em áreas de fronteira tecnológica, o novo Ciência sem Fronteiras pode voltar a ter peso relevante na formação de recursos humanos e na capacidade de inovação do país.

