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Inteligência Artificial

IA identifica 60 espécies de peixes no rio Xingu em tempo real

Sistema de inteligência artificial em teste na usina de Belo Monte usa câmeras submersas para reconhecer até 60 espécies de peixes em tempo real e reforçar a conservação no rio Xingu.

IA identifica 60 espécies de peixes no rio Xingu em tempo real

Inteligência Artificial

Tecnologia inovadora monitora a biodiversidade do rio Xingu com reconhecimento instantâneo de espécies aquáticas.

Leia também: ENIC da UEPB terá foco em uso ético da inteligência artificial

Um sistema de inteligência artificial em teste na usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, em Altamira, passou a identificar automaticamente, em tempo real, até 60 espécies de peixes que utilizam o canal de transposição construído para a reprodução dos animais. Operado pela Norte Energia, o monitoramento funciona 24 horas por dia e promete agilizar a coleta de dados sobre a biodiversidade na região.

Como funciona o monitoramento com IA em Belo Monte

A tecnologia está instalada no Sistema de Transposição de Peixes da usina, em Pimental, área do barramento do Xingu. O canal, de 1.200 metros de extensão, foi projetado para permitir que os peixes subam o rio durante o período reprodutivo, contornando a barragem.

Uma janela de observação localizada abaixo da superfície da água abriga câmeras submersas que registram continuamente a passagem dos animais. As imagens alimentam um modelo de inteligência artificial desenvolvido com participação do Instituto Atlântico, que analisa quadro a quadro para reconhecer as espécies que cruzam o canal.

Hoje, a identificação depende principalmente do trabalho manual de biólogos, com coletas pontuais e análises demoradas em laboratório. Com a IA, o objetivo é automatizar esse processo, gerar dados em tempo real e ampliar o volume de informações disponíveis para pesquisadores, órgãos ambientais e para a própria Norte Energia.

Entenda o contexto

Segundo dados da operadora da usina, o canal de transposição de Belo Monte já registrou a passagem de mais de 4 milhões de peixes, de 168 espécies, ao longo de dez anos. O novo sistema de inteligência artificial busca qualificar esse acompanhamento ao identificar automaticamente, em tempo real, até 60 espécies consideradas prioritárias para o monitoramento.

Essas informações alimentam estudos sobre rotas de migração, períodos de maior concentração de peixes e possíveis mudanças no comportamento das espécies, dados considerados estratégicos para orientar medidas de conservação no Xingu e ao redor da usina.

Desafios na água turva do Xingu

Apesar do potencial de transformar o monitoramento ambiental na região, o projeto ainda enfrenta limites técnicos importantes. A turbidez do rio Xingu — quando a água fica mais barrenta e menos transparente — reduz a nitidez das imagens e dificulta o trabalho das câmeras.

Para que a IA funcione com precisão, o modelo precisa ser treinado e ajustado a essas condições variáveis de luminosidade, sedimentos e cor da água. “O sistema precisa ser ajustado às condições do rio para melhorar o reconhecimento das espécies”, afirma Polycarpo Neto, cientista de dados do Instituto Atlântico, envolvido no desenvolvimento da tecnologia.

Na prática, isso significa calibrar constantemente o algoritmo, testar diferentes configurações de captura de imagem e ampliar a base de exemplos de peixes filmados em cenários diversos, inclusive nos dias em que a visibilidade é pior.

Impacto para a conservação e próximos passos

O uso de inteligência artificial no canal de transposição de Belo Monte é visto internamente como uma forma de acelerar e tornar mais preciso o monitoramento da fauna aquática, reduzindo a dependência exclusiva da observação humana e de campanhas de campo esporádicas. A expectativa é que a análise contínua em vídeo contribua para decisões mais rápidas sobre manejo e proteção das espécies.

A Norte Energia não definiu uma data para o início da operação definitiva do sistema. Por enquanto, o projeto permanece em fase de testes, com foco em validar a confiabilidade da identificação em diferentes condições do rio e em aperfeiçoar o algoritmo.

Se os resultados se confirmarem, a tecnologia poderá ser expandida para outros trechos da Amazônia ou para rios com desafios semelhantes de turbidez e grande diversidade de peixes, e servir de referência para novas iniciativas de monitoramento ambiental em tempo real em ecossistemas complexos.