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Inteligência Artificial

IA revoluciona seleções e escolas, mas não substitui humanos

Entrevistas de emprego por inteligência artificial e uso crescente de IA na educação acendem debate no Brasil: até onde a tecnologia ajuda e quando começa a ameaçar a experiência e a relação humana.

IA revoluciona seleções e escolas, mas não substitui humanos

Inteligência Artificial

Uso crescente da IA em processos seletivos e ensino gera discussões sobre limites e impactos humanos.

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Entrevistas de emprego conduzidas por inteligência artificial e o uso cada vez maior de sistemas automatizados na educação estão mudando a rotina de empresas e escolas no Brasil, mas levantam um alerta: sem equilíbrio, a tecnologia pode esvaziar justamente o que sustenta processos de contratação e de aprendizagem — a experiência e as relações humanas.

‘Máquina não vive a vida’, diz Professor Carlão

Para o professor Carlos Alberto Rezende, conhecido como Professor Carlão, existe um limite claro entre o que a Ia inteligência artificial consegue fazer e aquilo que depende de vivência. “Uma máquina pode processar informações, mas não acumula experiências de vida”, afirma. Ela cruza dados, identifica padrões e oferece respostas rápidas, mas não sente, não enfrenta contradições nem compartilha conquistas.

Na visão do educador, quando uma primeira entrevista de emprego é feita apenas por um robô, a empresa ganha agilidade, mas corre o risco de perder a história de quem está do outro lado da tela. Ficam de fora nuances como postura, capacidade de diálogo, maturidade e até as pequenas inseguranças que revelam potencial de crescimento.

“A tecnologia deve ser uma ferramenta a serviço das pessoas, e não um instrumento para diminuir a importância delas”, diz Rezende. Para ele, processos seletivos que se apoiam só em algoritmos tendem a privilegiar respostas encaixadas em padrões, em vez de trajetórias reais, muitas vezes marcadas por quebra de rota e superação.

Escola não é só conteúdo, é interpretação de gente

No ambiente educacional, o movimento é parecido. Plataformas de Ia inteligência artificial ajudam a organizar conteúdos, sugerir exercícios personalizados e tirar dúvidas instantaneamente. Mas, segundo Professor Carlão, nada disso substitui o olhar treinado de um bom professor, capaz de perceber além da prova ou do trabalho entregue.

“Um bom professor aprende a interpretar comportamentos, identificar dificuldades, compreender contextos e reconhecer potencialidades”, resume. Esse repertório vem de anos de convivência com diferentes turmas e realidades, algo que nenhum algoritmo herda por download.

Ele reforça que a própria capacidade de usar bem a IA depende do que a escola desenvolve hoje. Alunos que leem, escrevem, interpretam textos e são estimulados ao pensamento crítico conseguem formular perguntas melhores, desconfiar de respostas prontas e comparar informações. Já quem só sabe “apertar botões” tende a aceitar qualquer resultado da tela como verdade absoluta.

“A inteligência artificial pode oferecer milhares de informações, mas é o repertório humano que permite selecionar, interpretar e dar sentido ao que recebemos”, afirma.

Entenda o contexto

O Brasil caminha para ter, nas próximas duas ou três décadas, uma população significativamente mais envelhecida. Parte importante desses brasileiros cresceu em um mundo em que conversa era olho no olho, ligação telefônica, encontro marcado, não apenas troca de mensagens por aplicativo.

Esse choque de gerações acontece em meio à digitalização acelerada de serviços públicos, atendimentos bancários, consultas médicas e rotinas de trabalho. Nesse cenário, o debate sobre inteligência artificial não se limita à eficiência: passa a envolver solidão, acesso, empatia e o risco de transformar modernização em distanciamento social.

Risco de desumanização em entrevistas e serviços

Na prática, empresas já usam IA para filtrar currículos, aplicar testes on-line e fazer as primeiras conversas por vídeo ou chat. O ganho está na escala: um sistema consegue analisar em minutos o que um time de recrutadores levaria dias para ver.

Mas, quando todo o contato inicial é automatizado, parte da riqueza da interação some. Um candidato tímido, por exemplo, pode se sair mal diante de uma interface fria, mas encantar em uma conversa presencial. Outro pode ter buracos no currículo que só fazem sentido quando ele conta que precisou abandonar a faculdade para cuidar de um parente doente — algo que um formulário dificilmente captura.

Para Rezende, o risco é transformar eficiência em indiferença. “Uma entrevista de emprego não deveria avaliar apenas respostas previamente identificadas por um algoritmo. Ela também precisa permitir que alguém perceba a história, a postura, a capacidade de diálogo, a maturidade e as experiências de quem está diante de uma oportunidade”, alerta.

Pensar com a máquina, não no lugar dela

Na avaliação do Professor Carlão, o maior desafio não é ensinar as máquinas a fazer mais coisas, mas preparar a sociedade para não desaprender a pensar. Isso vale da sala de aula ao mercado de trabalho: usar a IA como atalho permanente pode enfraquecer justamente as habilidades de interpretação, argumentação e escrita que sustentam decisões complexas.

Ele defende que escolas e universidades assumam o papel de treinadoras de pensamento crítico em tempos digitais, estimulando alunos a comparar fontes, testar hipóteses e verificar incoerências em textos gerados por sistemas automáticos. Em paralelo, empresas teriam de rever políticas internas para garantir espaço à conversa humana em etapas-chave de seleção, avaliação de desempenho e promoção.

“O futuro precisa ser tecnológico, sim. Mas não podemos aceitar que, para sermos mais modernos, tenhamos que ser menos humanos”, afirma Rezende. Para ele, ganha quem aprende a trabalhar em modelo híbrido: tecnologia para agilizar e organizar, gente para interpretar, decidir e se relacionar.

No centro da discussão está uma ideia que o professor repete: a inteligência artificial pode acumular dados, mas não substitui a inteligência construída pela experiência de viver. E, em meio a entrevistas por robôs e aulas mediadas por algoritmos, ele aposta que seguirá fazendo diferença quem souber combinar tela, escuta e, sempre que possível, uma boa conversa frente a frente.