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Inteligência Artificial

IPO da Anthropic em novembro testa futuro bilionário da IA

A abertura de capital da Anthropic, prevista para o próximo mês, virou termômetro bilionário para o boom da inteligência artificial e pode chacoalhar todo o mercado de tecnologia.

Inteligência Artificial

A oferta pública inicial da Anthropic pode redefinir o mercado tecnológico e impulsionar o setor de IA em escala global.

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A abertura de capital da Anthropic, esperada para o próximo mês, deve ser o primeiro grande exame da saúde do boom da inteligência artificial na Bolsa e pode redefinir o apetite dos investidores por um setor que já mobiliza trilhões de dólares em chips, data centers e infraestrutura digital ao redor do mundo.

IPO medirá fôlego do mercado de IA

A Anthropic, rival direta da OpenAI, chega ao pregão no topo de uma extensa cadeia de parceiros e fornecedores que inclui fabricantes de semicondutores, provedores de nuvem, empresas de energia e startups de tecnologia. Todos apostaram pesado, nos últimos anos, na premissa de que a demanda por produtos e serviços de IA seguiria em alta por muito tempo.

A estreia na Bolsa vai mostrar se essa aposta se sustenta. Investidores querem saber se existe de fato uma demanda quase inesgotável por sistemas de IA generativa, que justifique os gastos colossais com chips e data centers, ou se os primeiros sinais de esgotamento já começam a aparecer nos números da companhia.

“Para o mercado, é um termômetro”, resume Umesh Padval, investidor da Seligman Ventures, que há décadas acompanha ciclos de tecnologia. O comportamento das ações da Anthropic nos primeiros dias de negociação tende a guiar a percepção sobre o restante do ecossistema de IA.

Por que o IPO da Anthropic preocupa Wall Street

O momento da oferta pública não poderia ser mais delicado. As bolsas vivem semanas de nervosismo, com quedas generalizadas de ações de tecnologia e, em especial, de empresas de semicondutores, justamente as que fornecem os processadores que alimentam os modelos de IA. O Índice de Semicondutores da Filadélfia já recua 26% desde o pico registrado em junho, sinal clássico de forte aversão ao risco no setor.

No mesmo ambiente, grandes grupos começam a rever planos. A Microsoft cancelou recentemente um acordo com a Nscale, de data centers, enquanto um relatório da consultoria Gartner projeta que até 80% das chamadas “neoclouds” — empresas que alugam capacidade computacional para companhias de IA — podem ser forçadas a fechar as portas.

Para parte do mercado, o quadro já é de bolha. “Investidores em IA estão quase certamente em uma bolha”, avaliou o bilionário Ken Griffin, dono do fundo de hedge Citadel. Nessa leitura, a Anthropic será o caso-teste que pode confirmar ou aliviar os temores.

Trilhões em jogo em chips e data centers

Os números por trás do entusiasmo ajudam a explicar o nível de tensão. Só este ano, Amazon, Meta, Google e Microsoft planejam gastar pelo menos US$ 740 bilhões em infraestrutura de IA, principalmente na construção e modernização de data centers e na compra de chips avançados.

Desde 2022, investidores do mercado privado já injetaram US$ 1,1 trilhão em empresas de inteligência artificial como Anthropic e OpenAI, numa corrida para garantir participação em um setor visto como a próxima grande fronteira tecnológica. Esse fluxo, somado à escalada das gigantes listadas, transformou o peso da IA nas bolsas.

Hoje, as dez maiores ações do índice S&P 500 somam valor de mercado superior a US$ 1 trilhão, e oito delas são de tecnologia. Juntas, essas dez empresas respondem por mais de 40% de todo o índice — o dobro da fatia registrada cerca de uma década atrás.

A expectativa de analistas é que, após o IPO, a Anthropic entre nesse grupo seleto, possivelmente desbancando a Berkshire Hathaway ou a Eli Lilly, hoje as únicas gigantes de mais de US$ 1 trilhão de valor que não pertencem ao setor de tecnologia.

Se der errado, impacto pode ser sistêmico

O efeito da listagem, porém, não se limita à própria Anthropic. Uma estreia fraca, com preço abaixo do esperado ou forte queda nos primeiros pregões, pode disparar uma onda de vendas em ações de tecnologia e semicondutores, atingindo diretamente empresas como Amazon, Meta, Google e Microsoft, além de uma multidão de startups que dependem do crescimento da demanda por IA.

“Há muita coisa em jogo nessa estreia”, alerta Brad Gastwirth, diretor global de pesquisa e inteligência de mercado da Circular Technology. “Se der errado, vai derrubar o mercado.”

Em caso de decepção, a leitura do balanço da Anthropic será minuciosa. Analistas querem entender se uma eventual desaceleração viria de perda de espaço para a OpenAI ou para modelos de código aberto, mais baratos, o que indicaria competição acirrada, mas demanda geral ainda firme, ou se refletiria um recuo mais amplo no interesse por produtos de IA, cenário que poderia esfriar todo o boom do setor.

Uma recepção negativa também teria efeito direto sobre fornecedores de chips, operadores de data centers e fundos especializados em tecnologia, que veriam crescer a pressão para revisar planos de investimento e estratégias de crescimento acelerado.

Entenda o contexto

A Anthropic e a OpenAI são hoje vistas como a ponta de lança da atual revolução em inteligência artificial generativa, com modelos que alimentam assistentes virtuais, ferramentas de automação de código e sistemas de criação de textos, imagens e vídeos. Em torno delas, formou-se uma pirâmide de empresas que dependem do sucesso da IA para sustentar seus próprios negócios.

Ao mesmo tempo, o ambiente regulatório começa a ficar mais complexo. Um processo judicial movido por um grande veículo de imprensa contra a OpenAI e a Microsoft, por suposta violação de direitos autorais em conteúdo jornalístico usado no treinamento de sistemas de IA, adiciona incertezas jurídicas e de reputação ao setor. As duas empresas negam as acusações.

No mercado de capitais, banqueiros de investimento já vêm alertando companhias de tecnologia de que talvez não consigam repetir as avaliações discutidas há poucos meses, quando o entusiasmo com a IA estava ainda mais aquecido. Em uma teleconferência recente, David Solomon, presidente-executivo do Goldman Sachs, observou que, “embora o mercado de ofertas públicas estivesse totalmente aberto, empresas que buscassem avaliações próximas das discutidas durante o verão poderiam optar por esperar”.

Segundo Solomon, “as coisas perderam um pouco de força em setembro”, comentário que ajuda a explicar por que o IPO da Anthropic é visto como divisor de águas: um sucesso pode reaquecer a janela de ofertas de empresas de IA; um fracasso tende a alongar a cautela.

Procurada, a Anthropic não comentou os planos de listagem nem as expectativas em torno da oferta. O desempenho da empresa na Bolsa, quando vier a público, será acompanhado de perto por investidores, concorrentes e reguladores — e pode determinar se o atual ciclo de euforia com a inteligência artificial ganha fôlego extra ou entra em fase de teste de realidade.