OMC dobra projeção e IA lidera alta do comércio global em 2026
OMC elevou para 3,9% a projeção de crescimento do comércio em 2026 e para 4,1% em 2027, impulsionada por IA e data centers, mas alerta para desequilíbrios e riscos.

Comércio Global
Crescimento impulsionado por avanços tecnológicos, com destaque para inteligência artificial e infraestrutura digital.
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A Organização Mundial do Comércio (OMC) dobrou a projeção de crescimento do comércio exterior para 3,9% em 2026 e elevou a estimativa para 4,1% em 2027, impulsionada pelo boom de investimentos em inteligência artificial (IA) e data centers, mas alertou em Genebra que esse fôlego esconde problemas estruturais e concentra os ganhos em poucas regiões, sobretudo nos Estados Unidos.
IA puxa quase metade do crescimento do comércio
As novas projeções, divulgadas neste mês no relatório Perspectivas e Estatísticas do Comércio Global e detalhadas por Ngozi Okonjo-Iweala nesta terça-feira, praticamente dobram as estimativas anteriores, que eram de 1,9% para 2026 e 2,6% para 2027. A revisão reflete, principalmente, o salto do comércio de bens usados na infraestrutura de IA, como servidores, semicondutores e placas de memória.
De acordo com a OMC, produtos ligados à IA responderam por 47% do crescimento do comércio global de mercadorias no primeiro semestre, com um avanço de 67% em relação ao mesmo período do ano passado. Esse movimento foi puxado pela corrida global por data centers e capacidade computacional, que vem sustentando exportações e importações do setor tecnológico mesmo em meio a tensões geopolíticas e tarifas mais altas.
Ngozi reconheceu que os números são positivos, mas insistiu que a bonança da IA distorce a leitura do quadro geral. “Acho que o crescimento está mascarando um pouco os desafios nos outros setores. Desse modo, os problemas decorrentes das tarifas, das guerras no Mar Negro ou no Estreito de Ormuz estão sendo mascarados por essa tendência muito positiva da IA”, afirmou a diretora-geral.
Conflitos e tarifas jogam contra outros setores
O relatório lembra que o comércio global segue pressionado por uma combinação de guerras, choques em rotas estratégicas e um ambiente mais protecionista. As disputas no Mar Negro entre Rússia e Ucrânia e o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã afetaram rotas de energia, em especial após o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passava uma fatia relevante do comércio mundial de petróleo.
Ainda assim, o impacto negativo sobre o volume total de trocas de petróleo foi parcialmente compensado pelo aumento das exportações de fornecedores de fora do Oriente Médio, como produtores da América Latina. Paralelamente, o tarifaço aplicado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, sobre uma ampla gama de parceiros comerciais tornou mais caros e incertos os fluxos de vários bens industriais, contribuindo para a fraqueza de setores tradicionais.
Na prática, a expansão acelerada dos bens de alta tecnologia acaba apagando, nos agregados globais, o desaquecimento de áreas mais expostas a conflitos e barreiras tarifárias. Para a OMC, essa assimetria torna o momento menos sólido do que as manchetes de crescimento poderiam sugerir.
Benefícios concentrados em EUA e Leste Asiático
Outro ponto de preocupação destacado por Ngozi é a concentração geográfica dos ganhos da economia da IA. “Quando decompomos os números, vemos uma concentração dos benefícios do comércio de IA em duas regiões: América do Norte e Leste da Ásia. E, na América do Norte, trata-se, principalmente, dos EUA. Logo, o resto do mundo não está tão incluído nos benefícios desse comércio”, disse.
A avaliação da OMC é que a maior parte da produção e do consumo de equipamentos para IA se concentra em poucos polos industriais e tecnológicos, o que aprofunda a distância entre essas economias e países com menor acesso a capital, tecnologia e infraestrutura digital. O risco é que a nova onda tecnológica reforce a exclusão econômica e reduza a capacidade de outras regiões de se integrarem às cadeias globais de valor.
Ao mesmo tempo, a entidade questiona se o atual ritmo de expansão dos investimentos em data centers e infraestrutura de IA será sustentável por muitos anos. Sem ajustes que ampliem a base de fornecedores, diversifiquem os compradores e distribuam melhor os ganhos, o impulso atual pode perder força e deixar expostos os setores que hoje estão sendo ofuscados.
Entenda o contexto
O alerta da OMC ocorre num momento em que o próprio sistema multilateral de comércio enfrenta dificuldades internas. O Órgão de Apelação, instância máxima para solução de controvérsias comerciais na entidade, segue paralisado pelo bloqueio dos Estados Unidos à indicação de novos juízes. Sem integrantes, o mecanismo fica impedido de concluir disputas entre países, o que esvazia uma das principais funções da organização.
Desde o primeiro mandato de Donald Trump, Washington vem ampliando o uso de tarifas unilaterais e questionando a atuação da OMC. No segundo governo, com o lançamento de um tarifaço que alcança praticamente todos os parceiros, a pressão aumentou, enquanto Ngozi Okonjo-Iweala insiste que o sistema ainda é indispensável para evitar uma fragmentação maior do comércio mundial.
O relatório anual da entidade, divulgado em setembro, projeta que o Produto Interno Bruto global poderá ficar 6,9% abaixo do nível estimado até 2050 se os países seguirem o caminho de acordos puramente bilaterais, em vez de fortalecer regras multilaterais. Para os técnicos da OMC, esse cenário significaria menos crescimento, menor previsibilidade e mais espaço para conflitos comerciais.
Pressão por acordos e inclusão no comércio de IA
Diante do novo quadro, a OMC vê espaço para que o bom momento do comércio ligado à IA seja usado como alavanca para reativar negociações e ampliar a inclusão de mais regiões nas cadeias digitais. A avaliação na entidade é que, sem um esforço coordenado, a concentração atual tende a se consolidar, dificultando que economias em desenvolvimento aproveitem a transição tecnológica.
Para isso, Ngozi aponta dois eixos considerados urgentes: destravar o funcionamento pleno do sistema de solução de controvérsias, o que depende diretamente de uma mudança de posição de Washington, e costurar entendimentos que reduzam tarifas e incertezas sobre bens e serviços digitais, evitando uma escalada de guerras comerciais em torno da IA.
Nos próximos meses, a OMC pretende usar as novas projeções — com crescimento do comércio de 3,9% em 2026 e 4,1% em 2027 — como argumento em favor de um reforço do multilateralismo, ao mesmo tempo em que monitora a capacidade do setor de tecnologia de manter o atual ritmo de investimentos sem acentuar desequilíbrios regionais.


