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Inteligência Artificial

Paradise Lost traz IA e maternidade em suspense psicológico único

Dirigido por Yeon Sang-ho, ‘Paradise Lost’ estreia nos cinemas da América do Norte nesta sexta (6) após passar por Toronto, com trama sobre maternidade, isolamento e um filho recriado por IA.

Paradise Lost traz IA e maternidade em suspense psicológico único

Inteligência Artificial

Filme de Yeon Sang-ho explora temas de isolamento e relações familiares com tecnologia avançada.

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O diretor sul-coreano Yeon Sang-ho lança nesta sexta-feira (6), nos cinemas da América do Norte, o suspense psicológico “Paradise Lost”, em que uma mãe em luto se vê diante de uma versão virtual do próprio filho, criada por inteligência artificial, e de um reencontro real com o garoto já adulto e irreconhecível. O longa, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto, aposta em originalidade e reflexão em meio à enxurrada de conteúdos gerados por IA.

Suspense íntimo em era de conteúdo massificado

Conhecido mundialmente por “Invasão Zumbi”, Yeon afirma que agora mira um público disposto a pensar, não apenas a se emocionar. Para ele, a inteligência artificial generativa mudou de vez a lógica do audiovisual, tornando a singularidade da visão do autor um diferencial decisivo.

“A IA generativa trouxe a humanidade a uma era em que qualquer pessoa pode escrever histórias de gêneros universais e produzir qualquer tipo de vídeo. Por isso, acredito que, quando as pessoas pagam para assistir a um filme no cinema, o público entra em uma fase em que busca histórias mais originais”, diz o diretor.

Em “Paradise Lost”, essa aposta aparece em uma trama contida, quase teatral, que coloca no centro o conflito de Ryu So-young, mãe marcada por um episódio traumático em que perdeu o filho. Ela passa a conviver com um simulacro digital do garoto, produzido por algoritmos, enquanto o filho verdadeiro retorna, adulto, estranho e carregando um passado que ela não reconhece.

Entenda o contexto

O filme nasce de um gesto íntimo: um texto de três páginas escrito pela mãe de Yeon. No conto, uma mulher de aldeia, incapaz de lidar com o comportamento cada vez mais delinquente do filho, planeja um fim trágico para os dois. Ao ler a história, o cineasta diz ter percebido fissuras na imagem idealizada de maternidade que carregava desde a infância.

“Percebi que minha própria ideia de ‘maternidade’ talvez fosse muito mais um produto da minha imaginação e que poderia haver camadas muito mais complexas por trás dela. Acho que foi isso que me levou a começar este projeto, na tentativa de compreendê-la”, afirma.

Segundo Yeon, sua mãe, como muitas mães sul-coreanas, era extremamente protetora e tinha a identidade profundamente ligada ao papel materno. Ao transportar essa figura para o cinema em meio a simulacros digitais e memórias reconstruídas por IA, o diretor tenta investigar o quanto dessa devoção é afeto, controle, fantasia ou solidão.

IA, isolamento e a imagem que não muda

Yeon enxerga o avanço da IA como motor não apenas de novas narrativas, mas também de novas formas de solidão. Ele descreve o presente como um tempo em que a reflexão se perde na velocidade das informações mediadas por algoritmos.

“Os seres humanos inevitavelmente mudam rapidamente, mas o filho criado por IA que ela encontra no espaço virtual representa exatamente a imagem que Ryu So-young deseja, aquela que ela espera que permaneça para sempre. Acho que é justamente isso que a isola ainda mais”, diz o diretor.

No filme, a versão virtual do filho funciona como um espelho confortável: criado para corresponder ao afeto da protagonista, ele cristaliza um menino que não cresce, não discorda e não a frustra. Já o filho real, adulto, carrega marcas do tempo, escolhas próprias e distâncias emocionais que não cabem no ideal construído pela mãe. O choque entre essas duas presenças — o humano mutável e o avatar imutável — organiza o suspense e os momentos mais perturbadores da narrativa.

Baixo orçamento, escolhas radicais

“Paradise Lost” foi produzido pela CJ ENM com um orçamento de aproximadamente 500 milhões de wons e filmado em apenas 14 sessões. As cifras, modestas para os padrões do cinema comercial, se traduzem em um projeto enxuto, com poucos cenários e foco em atuação e atmosfera.

De acordo com o diretor, as restrições acabaram moldando a personalidade visual do longa. Ele afirma que a estética nasceu da “escassez de recursos” e que o processo deu coragem à equipe para assumir escolhas mais radicais de encenação, sem depender de grandes efeitos.

É o segundo longa de baixo orçamento da carreira de Yeon, depois de “The Ugly”. O resultado, aponta o desempenho comercial inicial, é positivo: “Paradise Lost” já foi vendido para 118 países, e a receita internacional superou o custo líquido de produção antes mesmo da estreia comercial na América do Norte.

Impacto no cinema em plena era da IA

O bom começo de “Paradise Lost” reforça uma movimentação na indústria cinematográfica: em vez de competir com a IA em volume de conteúdo ou grandiosidade visual, parte dos cineastas busca se diferenciar pela singularidade do olhar e pela disposição de enfrentar temas incômodos, como luto, identidade e a fragilidade dos laços familiares.

O caso de Yeon também fortalece o papel do K-content, o conteúdo audiovisual sul-coreano, como polo de inovação criativa. Formado inicialmente na animação e influenciado pelo cinema noir de Hong Kong e pela animação japonesa, o diretor vê nessa mistura de referências uma das bases para a atual força global da produção de seu país — e espera que experimentos como “Paradise Lost” sirvam de estímulo a criadores de outras partes do mundo.

Ao colocar uma mãe diante de dois filhos — o real, em constante mudança, e o digital, eternamente igual —, Yeon transforma a discussão sobre IA em drama íntimo. Em vez de robôs rebelados ou distopias grandiosas, o filme pergunta o que acontece quando a tecnologia oferece a promessa de congelar para sempre a versão idealizada de quem amamos.