Paraguai usa 74% da energia de Itaipu e reduz oferta ao Brasil
Paraguai já consome 74% da energia que lhe cabe em Itaipu, reduzindo o excedente vendido ao Brasil. Acordo para centro de IA com energia da usina acende alerta em especialistas.

Energia
Consumo crescente do Paraguai em Itaipu impacta oferta de energia para o Brasil, gerando preocupações no setor.
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O Paraguai já consome 74% da energia que lhe cabe na usina binacional de Itaipu e reduz, de forma contínua, o excedente de eletricidade destinado ao Brasil, em meio ao anúncio de um centro de inteligência artificial que também será alimentado pela hidrelétrica na fronteira entre os dois países.
Centro de IA dos EUA e do Paraguai usará energia de Itaipu
Nesta quarta-feira (21) foi anunciada uma parceria entre a empresa americana Crusoe, especializada em infraestrutura para inteligência artificial, e a paraguaia Araico para construir, em território paraguaio, um grande centro de processamento de dados abastecido por energia de Itaipu. A primeira fase da estrutura está prevista para entrar em operação em meados de 2027.
O empreendimento será instalado no Paraguai e, segundo o governo dos Estados Unidos, atenderá clientes americanos e de outros países da América Latina. A quantidade de energia que será contratada da usina não foi detalhada publicamente.
O acordo foi costurado sem participação do governo brasileiro. A Itaipu Binacional informou que não esteve na reunião que selou o entendimento e reiterou que o uso da parcela de energia destinada a cada país é uma decisão soberana, nos termos do tratado que rege a hidrelétrica.
Demanda paraguaia sobe e diminui espaço para Brasil
Pelo tratado de Itaipu, Brasil e Paraguai têm direito, cada um, a 50% da energia produzida. A parcela não utilizada por um dos sócios fica disponível para compra pelo outro. Durante décadas, o Paraguai usou apenas uma fração de sua metade e vendeu o excedente, principalmente ao mercado brasileiro.
Esse cenário mudou nos últimos anos. Hoje, o Paraguai utiliza cerca de 74% da energia de sua cota, restando apenas 26% como excedente para o Brasil. Desde 2021, a demanda paraguaia cresce de forma acelerada, puxada por indústrias eletrointensivas, como operações de mineração de criptomoedas, e agora pela perspectiva de grandes estruturas de computação para inteligência artificial.
O doutor em Energia e professor da Universidade Nacional de Assunção, Victorio Oxilia, avalia que a redução do volume disponível ao Brasil já está em curso e tende a se intensificar com a chegada de novos consumidores. “O que dá para prever é que talvez a quantidade disponível de energia para o Brasil diminua bastante. É muito difícil que suma totalmente, mas vai diminuir bastante”, afirma.
Na prática, a tendência é que o mercado brasileiro conte, ao longo dos próximos anos, com um volume menor de energia barata de Itaipu, o que pode pressionar principalmente setores industriais e comerciais que hoje se beneficiam desse fornecimento.
Entenda o contexto
Especialistas lembram que não há risco imediato de desabastecimento no Brasil. O sistema elétrico brasileiro é diversificado, com usinas hidrelétricas em outras bacias, além de fontes como térmicas, eólica e solar. A avaliação é que o impacto será mais sentido em preço relativo e planejamento de longo prazo do que em apagões.
Ao mesmo tempo, a energia de Itaipu tem peso importante no abastecimento do Centro-Sul do país, região mais industrializada. Uma redução progressiva dessa “reserva estratégica” pode obrigar o Brasil a acionar fontes mais caras ou a reforçar investimentos em geração e transmissão para compensar a perda do excedente importado do Paraguai.
O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados, Tomaz Espósito, destaca que a entrada de grandes consumidores privados paraguaios tende a tornar mais complicadas as negociações bilaterais. “Com um novo consumidor, as negociações do Anexo C se tornarão mais complexas, pois o Paraguai poderá ter outros consumidores, como essas empresas. No curto prazo, isso significa uma possibilidade de redução da oferta de energia ao mercado brasileiro”, afirma.
O Anexo C do tratado de Itaipu define as regras financeiras e de comercialização da energia entre os dois países, incluindo a forma de cálculo da tarifa e da compensação paga pela parcela não utilizada por um deles e comprada pelo outro. Com o Paraguai usando uma fatia maior de sua própria energia, a tendência é que o Brasil tenha menos volume para negociar e veja esse capítulo ganhar peso nas conversas diplomáticas.
Diplomacia pressionada e próximos passos
A ausência do governo brasileiro nas negociações do projeto de inteligência artificial ressalta um desalinhamento na coordenação sobre o uso da energia da usina binacional. Embora o tratado assegure a soberania de cada país sobre sua quota, decisões que alteram significativamente o fluxo de energia e os interesses comerciais de ambos costumam ser discutidas em instâncias conjuntas.
Com o consumo paraguaio em alta e novos projetos atraídos pelo acesso a eletricidade relativamente barata, especialistas projetam um cenário em que o Brasil terá que lidar com volumes menores de energia vindos de Itaipu, rever expectativas de receita associada ao excedente e acelerar a diversificação de sua matriz, ao mesmo tempo em que negocia mudanças no Anexo C para preservar, na medida do possível, o equilíbrio econômico do empreendimento binacional.

