Previsão temporais sul do país: ciclone no RS aumenta riscos hoje
Levantamento global mostra salto de 5 para 102 tempestades de calor por ano desde os anos 1960. Fenômeno alimenta secas, incêndios, ciclones e já matou mais de 50 mil pessoas só no último verão europeu.

Clima
Ciclone no Rio Grande do Sul eleva a probabilidade de eventos extremos e tempestades na região sul do Brasil.
Leia também: Anatel restringe SEI após falhas críticas em PHP e afeta serviços
Tempestades de calor — ondas de calor gigantes que hoje cobrem áreas continentais inteiras por semanas ou meses — se tornam mais de 20 vezes mais frequentes no planeta e passam a interferir diretamente na previsão do tempo no sul do país, onde um ciclone em atuação no Rio Grande do Sul ajuda a amplificar a instabilidade e o risco de extremos.
A nova radiografia do clima global mostra que esses eventos subiram de uma média de 5 por ano na década de 1960 para cerca de 102 atualmente. A maior tempestade já registrada durou 367 dias seguidos entre 2023 e 2024, alcançou quase 85% da superfície terrestre e afetou praticamente toda a população mundial.
Por que está tendo onda de calor no Brasil e no mundo?
O avanço das emissões de gases poluentes de combustíveis fósseis é apontado por climatologistas como o motor principal das ondas de calor cada vez mais longas e intensas no Brasil e no mundo. Na prática, a atmosfera mais quente e carregada de dióxido de carbono, metano e outros gases prende mais calor próximo à superfície, muda o regime de ventos e favorece bloqueios atmosféricos que estacionam massas de ar quente sobre grandes áreas.
Essa combinação dá origem às chamadas tempestades de calor: episódios em que, por pelo menos cinco dias consecutivos, temperaturas muito acima da média se espalham por 1% ou mais da superfície do planeta. Pesquisadores que analisaram dados hora a hora desde 1960 identificam uma cascata praticamente ininterrupta desses fenômenos desde o fim da década de 2000.
No Brasil, inclusive no sul do país, essas estruturas globais de calor interagem com frentes frias, ciclones e áreas de baixa pressão. No Rio Grande do Sul, o ciclone em atuação encontra oceano mais quente e um ar já aquecido por uma dessas tempestades, o que intensifica a instabilidade, aumenta o contraste de temperatura e deixa a previsão temporais mais extrema, com episódios alternados de calor sufocante e chuva intensa em curtos intervalos.
Onde está o ciclone agora no Rio Grande do Sul
O ciclone que influencia o Rio Grande do Sul neste fim de semana atua sobre o oceano, ao largo da costa sul do estado, mas ainda organiza ventos fortes, mantém o mar agitado e ajuda a canalizar ar quente e úmido do interior do continente. Essa configuração reforça a sensação de abafamento em parte do sul do país ao mesmo tempo em que favorece nuvens carregadas, rajadas de vento e diferenças bruscas de temperatura entre regiões vizinhas.
À medida que o sistema se desloca lentamente e começa a perder força, o ar mais seco em altitude tende a predominar, abrindo espaço para novas ondas de calor em sequência — um padrão que meteorologistas consideram típico da atual fase de aquecimento global acelerado. Autoridades estaduais monitoram o comportamento do ciclone e dos próximos sistemas previstos, em alerta para episódios de chuva extrema, vento e calor excessivo.
Entenda o contexto
Para dimensionar a nova escala do problema, meteorologistas e pesquisadores climáticos examinaram mais de um milhão de pontos do globo, comparando a temperatura máxima diária atual com a faixa considerada normal para cada local. Quando esse valor entra, por pelo menos cinco dias seguidos, nos 10% mais quentes da série histórica e ocupa uma área vasta, o episódio é classificado como tempestade de calor.
O resultado dessa análise é um salto impressionante: de 5 tempestades por ano na década de 1960 para 102 por ano hoje. Em outras palavras, fenômenos que antes eram raros e pontuais se transformaram em uma rede quase constante de bolhas de calor, muitas vezes conectadas entre si, cruzando oceanos e continentes.
A maior delas, batizada informalmente por pesquisadores, durou 367 dias, alcançando quase 85% do planeta. Em alguns momentos, esse mesmo evento atuou simultaneamente na Europa, na Ásia, nas Américas e em regiões polares, alimentando secas, incêndios, tempestades e chuvas extremas em cadeia.
Europa tem verão mais letal da história recente
A Europa se tornou o exemplo mais dramático do impacto direto dessas tempestades de calor sobre a saúde. No verão deste ano, mais de 50 mil pessoas morreram no continente em consequência do calor extremo, das quais 32.600 tiveram a morte atribuída diretamente às mudanças climáticas ligadas à poluição de combustíveis fósseis, segundo estudo publicado em revista científica.
A pesquisadora Clair Barnes, do Imperial College London, resume a gravidade do quadro: “Acredito que podemos afirmar, com bastante segurança, que o verão de 2026 provavelmente foi o pior já registrado em termos de mortalidade relacionada ao calor em grande parte da Europa”. Em apenas uma semana, governos locais estimaram mais de 10 mil mortes extras durante uma grande tempestade de calor que manteve termômetros até 42,7 °C em cidades como Bilbao.
Levantamentos indicam que a Europa Ocidental viveu “o verão mais quente já registrado na região, com temperaturas cerca de 2,9 °C acima da média do período de 1991 a 2020”, em linha com o que registram os serviços climáticos do continente. O excesso de mortes foi maior entre idosos com 85 anos ou mais, mas houve mais de 800 mortes entre pessoas de 20 a 44 anos.
Para a professora associada Raquel Nunes, da Universidade de Warwick, o perigo ainda é subestimado: “O calor extremo pode ser um ‘assassino silencioso’, já que seus impactos nem sempre são visíveis de imediato”. O médico Lasse Vestergaard, chefe da Rede Europeia de Monitoramento da Mortalidade, reforça que “o número de mortes relacionadas ao calor está se tornando cada vez mais evidente”.
Clair Barnes destaca que, se nada mudar na matriz energética global, a tendência é de verões cada vez mais letais: “Enquanto não abandonarmos a dependência de combustíveis fósseis, continuaremos a presenciar verões cada vez mais quentes e perigosos”.
Calor recorde atinge escolas, estradas e florestas
Os impactos das tempestades de calor se espalham por diferentes cantos do planeta. Nas Filipinas, durante a maior delas, temperaturas de 38 °C em Manila atingiram escolas sem ar-condicionado. O professor de matemática Joel Arrojado lembra do dia em que um aluno desabou sobre a carteira, chorando, até que ele o ajudou a erguer o rosto: “Quando Arrojado convenceu o menino a levantar o rosto, viu seu rosto e peito cobertos de sangue. O menino havia sofrido um sangramento nasal espontâneo, um problema comum em calor extremo”, relatou.
No sul da Louisiana, nos Estados Unidos, a mesma tempestade agravou uma seca histórica e alimentou 600 incêndios florestais registrados em agosto, no que o governador classificou como “o maior incêndio florestal que vimos desde, pelo menos, a Segunda Guerra Mundial”. Meses depois, a fumaça de um foco persistente em área de pântano formou uma “superneblina” que reduziu a visibilidade a quase zero e causou um engavetamento com 158 carros, deixando mortos e feridos.
Em outros pontos, o calor extremo contribuiu para tempestades incomuns e enxurradas devastadoras, como o ciclone que despejou chuva torrencial sobre cidades do Mediterrâneo, e para incêndios de grande porte em florestas na Europa, com vítimas entre migrantes e trabalhadores rurais.
O que diz a investigação sobre essas ondas de calor gigantes
A análise global aponta que as tempestades de calor deixaram de ser anomalias para se tornar uma nova camada permanente do clima da Terra. Desde o fim dos anos 2000, sempre há pelo menos uma tempestade de calor ativa em algum lugar do planeta, às vezes mais de uma ao mesmo tempo.
Climatologistas ouvidos na investigação alertam que o aquecimento adicional previsto para as próximas décadas tende a ampliar ainda mais a duração e a intensidade desses episódios, caso as emissões não sejam reduzidas. Como a maioria das mortes e perdas econômicas ainda não entra de forma padronizada nas estatísticas, eles defendem que governos tratem as tempestades de calor com o mesmo nível de planejamento dedicado hoje a enchentes, furacões e terremotos.
Lasse Vestergaard lembra que parte desse impacto ainda é invisível nas planilhas de saúde pública. Segundo ele, muitas internações por problemas cardiovasculares e respiratórios têm o calor como gatilho, mas não aparecem como “doenças relacionadas ao calor” nos registros. Daí a necessidade de integrar dados de clima, hospitais e serviços de emergência para construir alertas mais precisos e sistemas de resposta rápida.
Impactos no Brasil e o que pode vir pela frente
No Brasil, o efeito em cadeia vai da saúde pública à energia. Ondas de calor prolongadas pressionam a rede elétrica com o aumento do uso de ar-condicionado e ventiladores, reduzem a produtividade no campo e ampliam o risco de queimadas em biomas como Amazônia, Cerrado e Pantanal. No sul do país, a combinação de tempestades de calor com ciclones, frentes frias mais intensas e oceano aquecido favorece extremos de curto prazo — do calor sufocante à chuva volumosa em poucos dias.
Especialistas ouvidos por governos locais defendem medidas de adaptação imediatas: criação de sistemas de alerta de calor em tempo real integrados à previsão temporais, ampliação de áreas de sombra e ventilação em cidades, reforço de estoques na rede de saúde e planos específicos para idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas e comunidades de baixa renda.
Ao mesmo tempo, pesquisadores como Clair Barnes insistem que a única forma de frear a escalada das tempestades de calor é cortar rapidamente as emissões de gases de efeito estufa, acelerar a transição energética e reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Sem isso, ciclones mais intensos, ondas de calor gigantes e verões fatais tendem a se tornar, cada vez mais, parte do dia a dia também no sul do Brasil.


