Rejeição a data centers derruba Trump e abala big techs nos EUA
Em plebiscitos locais, 40 de 41 comunidades em dez estados dos EUA barraram data centers de hiperescala. Temor com IA ajudou a derrotar Trump e derrubou ações de tecnologia.

Inteligência Artificial
Comunidades americanas rejeitam grandes data centers, impactando eleições e o mercado de tecnologia.
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Eleitores em dez estados dos Estados Unidos rejeitaram, em 40 dos 41 plebiscitos locais realizados junto às eleições de meio de mandato desta terça-feira (3), novos projetos de data centers de hiperescala em suas comunidades, em uma reação que ajudou a tirar do partido de Donald Trump o controle da Câmara e do Senado e já derruba ações das gigantes de tecnologia nesta sexta-feira (6).
Revolta local contra custos e impactos ambientais
Os plebiscitos, convocados para decidir sobre a instalação de centros de dados com demanda igual ou superior a 25 megawatts, terminaram quase todos com proibições ou severas restrições a esses empreendimentos. Em muitas cidades, a oposição superou 60% dos votos; em Ottawa, no Kansas, a proposta de banir data centers que utilizem mais de 25 megawatts foi aprovada por 72% do eleitorado.
Moradores apontam o alto consumo de energia e água como estopim da revolta. O avanço dessas infraestruturas, essenciais para serviços de inteligência artificial e armazenamento em nuvem, elevou tarifas locais, pressionou sistemas de abastecimento e aumentou a pegada ambiental das comunidades afetadas.
“Nos EUA, os estados que tinham menos regulação para data centers recebiam muito mais investimentos. Isso gerou uma série de impactos ambientais, com encarecimento da energia e da água. Isso foi mobilizando cada vez mais uma reação popular”, afirmou o economista André Roncaglia, diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Segundo a organização Ballotpedia, que sistematiza os resultados, a maior parte das consultas populares foi resultado de petições organizadas pelos próprios moradores. Já há 50 novos plebiscitos programados para 2026, três deles marcados para dezembro.
Entenda o contexto
A expansão acelerada de data centers de hiperescala nos EUA vinha se concentrando em estados com legislação ambiental e urbanística mais flexível, atraídos também por incentivos fiscais. Essa estratégia reduziu custos para as big techs, mas transferiu para comunidades locais a conta do aumento na demanda por energia e água.
Ao mesmo tempo, o avanço de sistemas de inteligência artificial multiplicou a necessidade de capacidade de processamento. A infraestrutura física dessa revolução tecnológica — galpões gigantes, linhas de transmissão, sistemas de refrigeração de alto consumo hídrico — passou a disputar recursos com moradores e outros setores produtivos.
Com o impacto direto no custo de vida, a pauta deixou de ser um debate técnico sobre inovação e virou um tema de sobrevivência cotidiana, capaz de unir eleitores de diferentes partidos e perfis ideológicos.
Temor com inteligência artificial pesa no voto
A rejeição aos data centers veio acompanhada de desconfiança aberta em relação à inteligência artificial. Pesquisa de boca de urna da emissora NBC News apontou que 57% dos eleitores acreditam que a IA fará mais mal que bem à sociedade, enquanto 76% declararam ser contra a instalação de data centers em suas comunidades.
Levantamento citado pelo diretor-executivo da Brazil Office Alliance, Paulo Abrão, mostra ainda que 56% dos eleitores consideraram a IA e os data centers fatores importantes ou decisivos na hora de votar nas eleições legislativas.
“O fenômeno é politicamente significativo, porque atravessa as divisões partidárias tradicionais. Não se trata simplesmente de uma rejeição à tecnologia, mas de uma exigência de controle democrático sobre sua expansão”, disse Abrão, cuja organização conecta pesquisadores brasileiros que atuam nos EUA.
Para ele, a pergunta central em disputa é clara: quem ficará com os lucros da revolução tecnológica e quem pagará a conta social e ambiental? Essa percepção, avalia o especialista, alimenta um novo tipo de clivagem política, menos partidária e mais ligada a interesses territoriais e condições de vida.
Derrota de Trump e virada regulatória
O descontentamento com a expansão desregulada de data centers e com os riscos atribuídos à inteligência artificial contribuiu para a derrota do partido de Donald Trump nas eleições de meio de mandato. A legenda perdeu as maiorias que detinha na Câmara e no Senado, abrindo espaço para que democratas assumam o comando da pauta tecnológica no Congresso.
Roncaglia avalia que o resultado abalou a base política que sustentava o ex-presidente. “O resultado eleitoral nos EUA abalou a coalizão política que dá sustentação a Trump e que conta com as big techs entre os principais aliados”, afirmou. Segundo ele, o mercado financeiro lê a vitória democrata como sinal de que um ambiente até agora praticamente sem regulação para IA e data centers deve mudar.
Do lado vencedor, parlamentares democratas já defendem uma guinada regulatória. “O topo da agenda Democrata no dia 1 precisa ser uma pausa no desenvolvimento de IA avançada, a regulação dessa indústria fora de controle e uma proibição à superinteligência artificial”, afirmou a deputada eleita pelo Arizona, Yassmin Ansari.
Do outro lado, Trump tentou reagir ao mal-estar com o setor ainda em setembro, ao anunciar uma agenda de “autorregulação” que deixaria nas mãos das próprias big techs a definição de mecanismos de segurança e controle — proposta vista por críticos como insuficiente diante da pressão social por regras mais duras.
Queda nas bolsas expõe nervosismo das big techs
A mudança de humor político em Washington e nas comunidades onde se concentram os projetos de data centers se refletiu de imediato nos mercados globais. As principais bolsas operam em baixa nesta sexta-feira (6), puxadas pela queda das ações de tecnologia.
O índice Nasdaq Composite, referência para o setor nos EUA, recua 5,5%, num movimento atribuído à combinação de risco regulatório mais alto e incerteza sobre a velocidade de expansão da infraestrutura necessária para sustentar serviços de IA em larga escala.
Roncaglia destaca que o ajuste era esperado caso houvesse virada política. “Sempre que há uma mudança de perspectiva, o mercado financeiro se ajusta. Essa era uma correção que já era esperada se houvesse essa mudança política. Agora vamos ver um processo de acomodação a partir de uma arbitragem regulatória do setor”, avaliou.
Empresas de tecnologia, energia e infraestrutura tendem a rever planos de investimento em regiões com forte mobilização comunitária, enquanto buscam áreas ainda abertas a receber data centers — cenário que pode acirrar disputas entre estados por empregos, impostos e proteção ambiental.
IA entra de vez na disputa pelo poder
Para Paulo Abrão, o ciclo eleitoral atual marca um ponto de inflexão na relação entre sociedade, tecnologia e política nos EUA. “A inteligência artificial entrou definitivamente na agenda eleitoral americana, e tudo indica que será um tema relevante na disputa presidencial de 2028. Parte disso também decorre de um desgaste crítico da aliança entre Trump e Musk junto à opinião pública”, afirmou.
O fortalecimento de iniciativas de democracia direta, como os plebiscitos que barraram data centers, indica que a população pretende manter sob vigilância a expansão da infraestrutura digital e o avanço da IA. Com mais 50 consultas locais já programadas para 2026, a pressão vinda das comunidades tende a permanecer na mesa de governadores, prefeitos e parlamentares em Washington.
No curto prazo, a expectativa é que a nova maioria democrata apresente projetos de lei para regulamentar o uso de inteligência artificial, proteger consumidores e impor limites à instalação de data centers em áreas já pressionadas por falta de água e energia cara. As big techs, por sua vez, terão de negociar novas bases para seguir crescendo em um ambiente bem menos tolerante a custos sociais e ambientais invisíveis.


