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Inteligência Artificial

Brasil cria Redata e pode atrair R$ 10 bi em IA até 2030

Governo lança regime especial de tributação para data centers e tenta destravar investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, em disputa direta com vizinhos latino-americanos.

Brasil cria Redata e pode atrair R$ 10 bi em IA até 2030

Inteligência Artificial

Novo regime tributário para data centers visa impulsionar investimentos em IA no Brasil até 2030.

Leia também: Medo de restrições à IA derruba US$ 3 tri em Wall Street hoje

O governo federal instituiu nesta semana o Redata, um regime especial de tributação para data centers, em uma tentativa direta de destravar investimentos em infraestrutura digital e inteligência artificial no Brasil e reduzir a vantagem de países vizinhos como Chile, Paraguai, México e Colômbia, que hoje atraem mais capital para o setor.

Brasil tenta recuperar terreno na economia digital

O Redata busca diminuir a carga tributária sobre data centers, peças centrais da economia digital e das aplicações de IA, e criar um ambiente de negócios mais previsível e competitivo. A expectativa no mercado é que o novo regime ajude a viabilizar projetos que, até agora, migravam para outros países da América Latina com políticas mais estáveis e incentivos mais claros.

Investidores e empresas de tecnologia reagem com otimismo cauteloso. Para eles, o pacote tributário é um movimento concreto depois de anos de diagnósticos sem execução. Mas ainda há dúvidas sobre a velocidade de regulamentação, os detalhes operacionais do regime e, principalmente, a capacidade do governo de manter regras estáveis no longo prazo.

Por trás da iniciativa está a percepção de que o Brasil vinha perdendo oportunidades para vizinhos que estruturaram melhor suas políticas de atração de capital em infraestrutura digital. Esses países consolidaram regras mais previsíveis para projetos intensivos em energia e computação, algo que o Redata tenta começar a corrigir no caso brasileiro.

Entenda o contexto

O setor de infraestrutura digital no Brasil convive com efeitos de vinte anos de decisões desencontradas e inconsistências em políticas de incentivo e fomento a novos negócios. A falta de continuidade regulatória e a insegurança sobre benefícios fiscais afastaram projetos de grande porte em data centers, energia e conectividade.

Nesse período, a América Latina passou a disputar de forma mais agressiva a condição de hub digital regional. Chile, Paraguai, México e Colômbia avançaram com investimentos de alto nível em centros de dados e redes de alta capacidade, amparados por marcos regulatórios considerados mais claros por investidores globais.

A criação do Redata é interpretada por especialistas como um primeiro passo para reposicionar o Brasil nesse tabuleiro, mas não resolve, sozinha, o passivo acumulado. A chave, avaliam executivos do setor, será combinar incentivos fiscais com previsibilidade regulatória, agilidade em licenciamento e coordenação entre União, estados e municípios.

AI Factories ganham espaço na estratégia

Paralelamente ao Redata, ganha força no país o conceito de AI Factories, instalações projetadas especificamente para suportar aplicações de inteligência artificial e cargas de trabalho de alto desempenho, com exigências mais duras de eficiência e sustentabilidade do que as de um data center tradicional.

Essas estruturas exigem uma abordagem integrada para otimizar energia, água, capacidade computacional e emissões de carbono. Em vez de apenas armazenar e processar dados, são pensadas desde a origem para treinar e operar modelos avançados de IA, o que intensifica o consumo elétrico e a necessidade de refrigeração eficiente.

O Brasil aparece com uma vantagem estrutural nesse cenário: a intensidade de carbono da matriz elétrica nacional é, em termos gerais, significativamente inferior à dos Estados Unidos. Em um mercado global cada vez mais atento à pegada ambiental dos projetos de IA, essa característica pode pesar na decisão de onde instalar as novas fábricas de inteligência artificial.

Empresas de infraestrutura digital começam a se posicionar para aproveitar esse diferencial. A RT-One, por exemplo, desenvolve projetos que miram padrões de consumo de energia considerados de ponta para a região. “A RT-One já desenvolve projetos com metas de eficiência energética que posicionam suas instalações entre os níveis mais avançados previstos para a América Latina, comparáveis aos melhores padrões observados em determinados projetos da Europa”, afirma Fernando Palamone, CEO da companhia.

Desafio é transformar incentivo em projeto instalado

Na prática, o sucesso do Redata e das AI Factories dependerá da capacidade do país de transformar incentivos no papel em infraestrutura instalada. Grandes centros de dados exigem investimentos bilionários em construções, equipamentos, conexão de alta capacidade e contratos de fornecimento de energia de longo prazo.

Setores intensivos em tecnologia, como nuvem, comércio eletrônico, serviços financeiros, streaming e saúde digital, tendem a ser os primeiros beneficiados por uma expansão da oferta de serviços de data center e de AI Factories em território nacional. Maior capacidade computacional dentro do país pode reduzir latência, custos operacionais e, em alguns casos, facilitar o atendimento a regras de proteção de dados.

Ao mesmo tempo, empresas e regiões que não se adaptarem à nova dinâmica digital podem perder competitividade. Municípios sem planejamento urbano, oferta de energia confiável ou políticas locais de incentivo têm menos chances de receber projetos, concentrando a infraestrutura em poucos polos.

No plano ambiental, especialistas defendem que o avanço das AI Factories seja acompanhado de metas claras de eficiência e monitoramento das emissões, do consumo de água e do impacto na rede elétrica. A combinação entre incentivos fiscais, exigências técnicas e transparência de dados é vista como condição para que o país use sua matriz de baixa intensidade de carbono como ativo, e não como licença para descuidar de novos impactos.

Os próximos meses serão decisivos para testar a eficácia do Redata. Investidores acompanham a regulamentação do regime, o detalhamento de quais projetos poderão aderir e a evolução dos primeiros anúncios de AI Factories, em um ambiente regional cada vez mais competitivo pela posição de hub digital latino-americano.