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Roblox baixa 145 GB de modelos 3D sem permissão e gera polêmica

Crawler ligado à Roblox ignorou robots.txt e termos de uso para baixar 145,5 GB de modelos 3D em sites Open3DLab, SFMLab e SmutBase. Parte do material é adulto, sem permissão dos criadores.

Roblox baixa 145 GB de modelos 3D sem permissão e gera polêmica

Tecnologia

Roblox enfrenta críticas ao baixar grande volume de modelos 3D sem autorização, incluindo conteúdo adulto.

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Um crawler identificado como pertencente à Roblox acessou quase todo o acervo dos sites Open3DLab, SFMLab e SmutBase e baixou 145,5 GB em modelos 3D de 712 projetos, incluindo conteúdo adulto, sem respeitar termos de uso, licenças dos criadores nem o arquivo robots.txt. A coleta ocorreu entre os dias 15 e 16 de outubro e foi detectada no dia 18, quando os administradores bloquearam o robô e passaram a cobrar explicações da empresa de games, que até agora não respondeu.

Por que Roblox baixou 145GB de modelos do nosso site sem autorização?

Os administradores dos três sites acreditam que os 1.027 arquivos baixados foram coletados para treinar ou ajustar modelos de inteligência artificial 3D da Roblox, possivelmente ligados ao sistema generativo Cube. O robô varreu 18.926 páginas de projetos em 26.429 requisições ao longo de 34 horas, operando a partir de um endereço da Amazon Web Services (AWS) e se identificando como “trellis2-data-sourcing/1.0 (3D foundation model research; [redacted]@roblox.com)”.

Esse user agent cita explicitamente pesquisa em “modelo de base 3D” e traz o e-mail de um pesquisador que atua no desenvolvimento desse tipo de tecnologia na Roblox. A suspeita das plataformas é que o robô buscava ativos 3D completos, texturizados e, em muitos casos, já rigados — exatamente o tipo de dado escasso em bases públicas, mas abundante em Open3DLab, SFMLab e SmutBase. Segundo os administradores, “nós não sugerimos que este pesquisador tenha agido por iniciativa própria ou fora do comum para seu trabalho. Uma coleta de dados como essa é decisão da empresa, e a responsabilidade é da Roblox”.

O nome “trellis2” usado pelo crawler pode remeter ao TRELLIS.2, um modelo aberto de geração 3D da Microsoft, o que indicaria possível reutilização de ferramentas open source em um pipeline próprio da Roblox. Não há, porém, confirmação sobre o destino final dos dados nem se os arquivos já foram incorporados a algum modelo.

Roblox baixou modelos com conteúdo adulto sem pedir permissão?

Sim. Dos 145,5 GB baixados, 62,6 GB correspondem a conteúdo adulto. O crawler copiou 364 arquivos de projetos hospedados no SmutBase, site dedicado exclusivamente a material adulto, e ainda levou modelos marcados como adultos no SFMLab. Ao todo, 345 dos 712 projetos de onde saíram downloads são classificados como adultos.

Os logs analisados pelos administradores mostram que o robô tratou o conteúdo adulto da mesma forma que qualquer outro tipo de ativo 3D: não houve filtragem por categoria, aviso prévio ou pedido de autorização. Como a base de usuários diários da Roblox tem forte presença infantil e suas regras proíbem conteúdo sexual na plataforma, a coleta indiscriminada de modelos explícitos cria um conflito direto entre o discurso de segurança para crianças e a prática de ingestão de dados para IA.

Entenda o contexto

A Roblox vem construindo um grande modelo de inteligência artificial voltado para 3D, capaz de gerar formas, personagens e, em perspectiva, avatares completos. Esse sistema, apelidado internamente de Cube, é treinado com algo em torno de 1,5 milhão de ativos 3D vindos de conjuntos de dados licenciados, coleções públicas e itens do próprio ecossistema da Roblox.

Open3DLab, SFMLab e SmutBase são comunidades que concentram exatamente o tipo de recurso que falta em bases tradicionais: personagens prontos para uso em engines modernas, com texturas e rigging, acompanhados de metadados como título, descrição e imagens de prévia. Por isso, esses sites vêm se tornando alvo de grandes empresas de tecnologia interessadas em alimentar sistemas de IA, muitas vezes sem transparência sobre a forma de coleta.

Desrespeito a termos, licenças e robots.txt

Nos três sites afetados, o scraping automatizado é proibido pelos termos de serviço. Ainda assim, o robô da Roblox não apenas ignorou essa regra, como também desrespeitou o arquivo robots.txt, que serve para orientar e limitar o acesso de crawlers a determinadas áreas. Os administradores conseguiram verificar que o arquivo robots.txt chegou a ser acessado, o que reforça a conclusão de que as diretrizes foram ignoradas de forma consciente.

A coleta também atingiu diretamente direitos autorais e licenças de uso. Entre os 712 projetos de onde foram baixados arquivos, 423 são licenciados apenas para uso não comercial. Esses modelos não podem ser explorados em produtos lucrativos sem autorização explícita dos criadores, o que coloca a iniciativa da Roblox em rota de colisão com a propriedade intelectual de artistas e desenvolvedores.

Ritmo de coleta e bloqueios

O robô atuou por cerca de 34 horas contínuas, lendo páginas de praticamente todo o catálogo das plataformas. O volume de downloads acabou limitado mais pelas restrições técnicas dos servidores — que impõem limites de velocidade e de conexões simultâneas nos serviços gratuitos — do que por qualquer moderação no ritmo do crawler.

Os administradores identificaram o comportamento anômalo no dia 18 de outubro e bloquearam o endereço de origem ainda na manhã daquele dia, além de enviarem um e-mail para o contato listado no user agent. Não houve resposta. No dia 19, o robô tentou retomar a coleta, mas todas as requisições foram barradas. A insistência continuou no dia 20, com uma nova leva de acessos a partir das 8h, pausas de cerca de uma hora na hora do almoço e encerramento por volta das 15h. De novo, nenhum dado adicional foi entregue, apenas tentativas de contornar os bloqueios.

Quais riscos existem ao Roblox baixar modelos sem consentimento dos criadores?

O principal risco é jurídico e recai sobre possíveis violações de direitos autorais e de cláusulas de licenças que restringem uso comercial ou redistribuição. Se esses ativos forem usados para treinar modelos que passem a gerar conteúdo derivado, abre-se espaço para disputas sobre uso indevido de obra protegida e compensações financeiras aos criadores.

Há ainda um impacto direto sobre a confiança da comunidade 3D em relação a grandes empresas de tecnologia. Ao verem seu trabalho copiado em massa sem consentimento, artistas podem se sentir pressionados a retirar projetos de repositórios abertos ou endurecer licenças e controles de acesso, o que reduz o espaço de colaboração e experimentação que sustentou o crescimento desse ecossistema.

No campo ético, o uso de modelos adultos em sistemas que atendem dezenas de milhões de crianças adiciona uma camada extra de preocupação. Mesmo que a Roblox aplique filtros na etapa de geração para tentar bloquear conteúdo explícito, o fato de a coleta ter sido feita sem qualquer triagem de idade ou contexto levanta dúvidas sobre a governança de dados dentro da empresa.

Reação das plataformas e silêncio da Roblox

Depois dos bloqueios, os administradores de Open3DLab, SFMLab e SmutBase aguardam um posicionamento da Roblox. Duas mensagens foram enviadas ao e-mail presente no user agent do crawler, ambas sem retorno até agora. Publicamente, a empresa também não se manifestou sobre a origem da coleta, o uso pretendido para os dados nem eventuais medidas para excluir os arquivos baixados.

Do lado das plataformas, a expectativa é reforçar barreiras técnicas, como filtros mais agressivos a endereços suspeitos, regras mais rígidas para crawlers e, possivelmente, mecanismos legais adicionais para coibir coletas em larga escala sem autorização. A controvérsia deve alimentar o debate sobre como regular o uso de conteúdo protegido em treinamentos de IA, em especial quando envolve material sensível e obras licenciadas para não serem exploradas comercialmente.