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Lançamentos de IA

Startup cria IA que “ouve” plantas e capta sede em tempo real

Startup Electric Plant desenvolve sensores baratos e modelo de IA, o Bombadil, que lê sinais elétricos internos de mais de 125 espécies de plantas para ajustar irrigação e insumos em tempo real.

Startup cria IA que “ouve” plantas e capta sede em tempo real

Tecnologia

Sensores inovadores e IA permitem monitoramento em tempo real da necessidade hídrica de plantas para otimizar irrigação.

Leia também: Smartsheet revoluciona trabalho com IA generativa focada no time

A startup americana Electric Plant desenvolveu um sistema que promete mudar a forma como agricultores e silvicultores cuidam de suas culturas: um modelo de inteligência artificial, batizado de Bombadil, capaz de interpretar em tempo real os sinais elétricos internos das plantas e avisar quando elas precisam de água, nutrientes ou ajuste de luz.

Com sensores de baixo custo presos diretamente ao tronco ou caule e conectados à nuvem, o sistema traduz esses micro-sinais em alertas e recomendações práticas de manejo. A tecnologia já foi treinada com dados de mais de 125 espécies e acaba de receber um aporte de US$ 11,2 milhões em rodada seed para acelerar sua chegada ao mercado.

Como a startup usa inteligência artificial para decifrar a linguagem das plantas?

O Bombadil é um modelo de linguagem treinado especificamente para padrões elétricos biológicos: ele recebe, pela nuvem, as leituras dos sensores instalados nas plantas e interpreta variações de microvoltagem como indicadores de estresse hídrico, carência de nutrientes, excesso de calor ou outras necessidades.

Durante três anos, a Electric Plant coletou grandes volumes de dados em campo, cruzando os sinais elétricos das plantas com informações obtidas por ferramentas tradicionais — como sondas de solo, medidores portáteis e imagens — e com o próprio estado observado das culturas. Essa base serviu para “ensinar” a IA a associar determinados padrões elétricos às condições reais da planta.

Hoje, o Bombadil já consegue interpretar sinais em mais de 125 espécies diferentes, que vão de samambaias e sequóias a tomates e dálias. “Essa é a tecnologia mais diversa já criada para sinais elétricos biológicos. Ninguém fez nada equivalente no mundo animal”, afirma Justin Mast, cofundador e CEO da Electric Plant.

Os resultados são enviados de volta ao usuário em forma de alertas e recomendações, como ajustes finos na irrigação ou na fertilização, sem que o produtor precise entender os detalhes técnicos dos sinais elétricos.

Como funciona o sensor preso na planta

O coração do sistema está em sensores do tamanho aproximado de um celular dobrado no sentido do comprimento, instalados diretamente na planta. Pequeninos parafusos de aço inoxidável atravessam a casca até alcançar o câmbio — a camada de tecido vivo logo abaixo — e fazem contato com as microvariações elétricas que circulam ali.

Esses sinais, de baixíssima intensidade, são amplificados e enviados por uma rede sem fio de baixo consumo a uma estação base, que encaminha tudo para a nuvem. De lá, o Bombadil processa as informações e devolve interpretações e comandos ao agricultor.

Segundo Mast, não é preciso cobrir o campo de dispositivos: bastam poucos sensores por área para obter leituras representativas. “Os sensores custam dezenas de dólares, enquanto os equipamentos tradicionais custam milhares”, diz o executivo, ressaltando que a diferença de preço amplia o acesso à tecnologia.

Entenda o contexto

Hoje, produtores rurais e gestores florestais dependem principalmente de medições indiretas, como umidade do solo, análise de folhas, espectroscopia portátil ou imagens de satélite. Essas ferramentas ajudam, mas mostram o ambiente em torno da planta, não o que acontece dentro dela naquele instante.

“Essa tecnologia é sofisticada, mas sua capacidade de entender o interior da planta não é tão sofisticada. A maioria ainda está atrasada em relação às necessidades em tempo real da planta”, afirma Mast. O objetivo da Electric Plant é virar essa chave: em vez de reagir quando a planta já deu sinais externos de problema, agir antecipadamente a partir da “voz” elétrica da própria planta.

Quais aplicações práticas podem surgir do modelo de IA que interpreta sinais das plantas?

A primeira aplicação direta está na irrigação e na fertilização. Ao indicar exatamente quando e quanto irrigar, o sistema pode evitar tanto a falta quanto o excesso de água, reduzindo desperdício e risco de doenças ligadas à umidade. “Um sistema assim pode aumentar a produtividade e reduzir o uso de água em 20% ou mais”, diz Mast.

Na prática, isso significa menores custos com bombeamento, energia e insumos, além de menor pressão sobre mananciais e aquíferos. Em culturas de alto valor e em florestas plantadas, a tecnologia também pode orientar decisões de adubação e poda, sincronizando o manejo com o estado fisiológico real da planta.

Em casas de vegetação e estufas, o sistema pode conversar com controladores de clima e irrigação, automatizando respostas em tempo quase real. Em áreas de silvicultura, os sensores podem servir como “sentinelas” de estresse hídrico prolongado ou de mudanças ambientais, útil inclusive para monitoramento de risco de incêndios e adaptação a extremos climáticos.

Há ainda um potencial científico: com uma base crescente de sinais elétricos decifrados, pesquisadores podem avançar na compreensão de como plantas percebem e reagem ao ambiente, de ataques de pragas a eventos climáticos severos.

Investimento milionário e próximos passos

A Electric Plant acaba de captar US$ 11,2 milhões numa rodada seed liderada por fundos especializados em tecnologia climática e com participação de investidores como Onto Ventures, Climactic, Ponderosa, Endeavor Catalyst, Ludlow, Michigan Rise, The Fund, Schox VC e o empreendedor Dug Song.

Os recursos devem financiar a expansão dos testes em campo, a produção em escala dos sensores e o aprimoramento do Bombadil, incluindo mais espécies e cenários ambientais distintos. A empresa não revelou quem são os primeiros clientes, mas o foco inicial deve estar em produtores e empresas florestais que buscam ganhos de produtividade aliados à redução de impactos ambientais.

Mast resume a ambição da startup como um novo tipo de relação entre humanos e plantas. “Estamos ouvindo mais do que falando, mas ouvir é o primeiro passo”, afirma. A aposta dos investidores é que, se esse diálogo se consolidar, a agricultura pode entrar numa fase em que cada gota de água e cada grama de fertilizante será aplicada no momento exato em que a planta pedir.

Fonte: matéria original