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Economia

Surto em SC deve baratear frango e impactar receita no Sul

Foco da doença de Newcastle em granja de perus em Nova Itaberaba leva cinco países a suspender importações e deve aumentar oferta de frango no mercado interno, pressionando preços no Sul.

Surto em SC deve baratear frango e impactar receita no Sul

Economia

Doença em granja de perus em SC aumenta oferta de frango e pressiona preços na região Sul do país.

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O foco da doença de Newcastle confirmado em uma granja comercial de perus em Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina, levou cinco países a suspender importações de produtos avícolas brasileiros e deve provocar um aumento da oferta de carne de frango no mercado interno nos próximos meses, com expectativa de queda de preços no atacado, principalmente na Região Sul.

Como o surto em SC afeta o preço do frango no Brasil?

O impacto começa em Santa Catarina, que destina cerca de 63% da produção de frango à exportação, bem acima da média nacional de 37%. Com parte desses embarques suspensa, frigoríficos terão de redirecionar volumes para o mercado interno, o que tende a pressionar os preços para baixo no atacado.

Relatório do Itaú BBA aponta que o efeito deve se concentrar em Santa Catarina e no atacado da Região Sul, onde está a maior parte da indústria que hoje vê cargas paradas ou redirecionadas. A projeção é de que a pressão baixista ganhe força no primeiro trimestre de 2027, período em que o consumo de frango costuma recuar por causa do fim do 13º salário e do peso maior de despesas como impostos e material escolar. “A possibilidade de queda pode crescer no primeiro trimestre de 2027, quando o consumo costuma diminuir”, avalia o banco.

Esse movimento ocorre em um cenário em que a produção de aves já vinha em alta: de janeiro a setembro, o número de aves abatidas no país cresceu 3,7% e a produção de carne de frango avançou 6,2% em relação ao mesmo período anterior. Até agora, o aumento da oferta vinha sendo absorvido pelas exportações e pela preferência do consumidor pelo frango, ainda mais barato que a carne bovina.

No mercado doméstico, porém, o reflexo imediato ainda é discreto. Segundo analistas do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), “o mercado apresenta certo equilíbrio entre oferta e demanda, sem sinais, até o momento, de impactos comerciais associados ao caso de Newcastle”. Na prévia da inflação de outubro, o frango em pedaços subiu 0,71% no mês, mas acumula queda de 4% em 12 meses.

Mesmo que o frango fique mais barato no atacado, isso não significa automaticamente preços menores para o consumidor que compra frango em pedaços ou pensa na próxima receita de frango para o almoço. O Itaú BBA destaca que o varejo pode não repassar integralmente os descontos, já que o valor final inclui custos de transporte, armazenagem e margem de comercialização.

Quais países suspenderam a importação de frango brasileiro após o caso em SC?

Cinco países adotaram restrições desde a confirmação do foco em Nova Itaberaba: China, Arábia Saudita, Chile, México e Malásia. As medidas variam em abrangência e atingem tanto produtos de Santa Catarina quanto de todo o Brasil.

México e Malásia decidiram suspender temporariamente as importações de carne, produtos cárneos, miúdos de aves e outros itens avícolas de todo o território brasileiro. Já China, Arábia Saudita e Chile restringiram as compras aos produtos originários de Santa Catarina, principal foco do problema sanitário e um dos maiores polos exportadores do país, com mais de 20% das vendas externas de carne de frango.

A decisão saudita é a mais sensível pelo peso do país nas contas da exportação: entre janeiro e setembro, foram embarcadas cerca de 327,8 mil toneladas de carne de frango para aquele mercado, o que representa aproximadamente 8% do volume exportado pelo Brasil no período. A Malásia, por sua vez, responde por menos de 0,5% das vendas externas, mas, assim como o México, adotou restrição nacional, afetando exportadores de outros estados além de Santa Catarina.

No bastidor, frigoríficos e entidades do setor avícola mantêm diálogo com autoridades sanitárias estrangeiras para tentar reduzir o tempo das restrições. A avaliação é que, quanto mais longa for a suspensão, maior tende a ser o acúmulo de estoques no país, elevando gastos com armazenagem, pressionando o caixa das empresas e exigindo maior escoamento via mercado interno.

Entenda o contexto

O foco da doença de Newcastle foi confirmado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) após análise de amostras coletadas em setembro em uma granja comercial de perus em Nova Itaberaba. A doença é causada por um vírus que afeta aves domésticas e silvestres e, em quadros graves, provoca problemas respiratórios e neurológicos nos animais.

Em humanos, a infecção é considerada rara e, quando ocorre, costuma ser leve, geralmente associada a conjuntivite temporária em pessoas que têm contato direto com aves doentes ou suas secreções. Não há transmissão pelo consumo de carne de frango, ovos ou outros produtos devidamente inspecionados. O próprio Mapa reforça que “o consumo de produtos avícolas submetidos à inspeção oficial permanece seguro, sem contraindicações”.

O caso reacende a sensibilidade do comércio internacional em relação a temas sanitários. A expressão repetida por lideranças do agronegócio, “frango não tem partido”, volta a ser usada para lembrar que o equilíbrio nas relações com grandes compradores é visto como estratégico pelo setor, sobretudo em momentos de crise sanitária.

Quais medidas estão sendo tomadas para controlar o surto de Newcastle em frangos no Brasil?

Desde a confirmação do foco em Nova Itaberaba, o Ministério da Agricultura afirma ter colocado em prática um protocolo rigoroso de controle sanitário, com o objetivo de conter o vírus e demonstrar transparência aos parceiros comerciais.

Entre as principais ações estão a eliminação de todas as aves da granja afetada, seguida de limpeza profunda e desinfecção das instalações. A pasta também ampliou a vigilância na região, com monitoramento de 133 granjas em Nova Itaberaba e municípios vizinhos, como Nova Erechim, Coronel Freitas e Águas Frias.

As propriedades monitoradas passam por coleta de amostras e fiscalização reforçada, de modo a detectar rapidamente qualquer nova suspeita. O fluxo de aves, ovos e veículos entre granjas também sofre restrições adicionais, para reduzir o risco de disseminação do vírus.

Paralelamente, o governo brasileiro envia informações técnicas e laudos laboratoriais aos países importadores para tentar encurtar o período das suspensões. A aposta é que o rigor das medidas, aliado às estatísticas de monitoramento, ajude a restabelecer a confiança dos compradores e a normalizar o comércio o quanto antes.

Enquanto isso, o mercado interno de frango segue em observação. Cepea, Itaú BBA e outros institutos de pesquisa acompanham preços e volumes negociados, de olho em possíveis oportunidades para o consumidor – de quem prepara receita de frango em pedaços no dia a dia a grandes redes de food service – e nos riscos para a rentabilidade de produtores e frigoríficos do Sul do país.