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Economia

Crise Nissan em 2026 reacende debate sobre volta de Carlos Ghosn

Assembleia da Nissan expõe frustração de acionistas, que evocam Carlos Ghosn em meio à queda nas vendas e à pressão da concorrência chinesa. Fuga e legado voltam ao centro.

27/09/2026 17:00 8 min de leitura
Crise Nissan em 2026 reacende debate sobre volta de Carlos Ghosn
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Acionistas da Nissan manifestam insatisfação e relembram o impacto de Carlos Ghosn diante dos desafios atuais da empresa.

O nome de Carlos Ghosn volta ao centro da cena na Nissan. Em assembleia recente, acionistas frustrados com a crise da montadora sugerem a volta do ex-CEO, hoje foragido da Justiça japonesa no Líbano, e escancaram a dificuldade da empresa em recuperar o fôlego sem o executivo que um dia simbolizou sua virada.

A lembrança de Ghosn surge enquanto a Nissan vê as vendas globais despencarem de cerca de 5,5 milhões para 3,15 milhões de veículos por ano, perde valor de mercado e apanha da concorrência chinesa em carros elétricos. O pedido por seu retorno é rejeitado formalmente, mas revela um incômodo profundo com a atual gestão e um saudosismo de tempos mais prósperos.

Da ascensão meteórica ao colapso público

Carlos Ghosn nasce em Porto Velho, Rondônia, filho de libaneses, e começa a carreira na Michelin, onde rapidamente assume fábricas e operações na América do Sul. Em meio à hiperinflação brasileira, ajuda a devolver a divisão ao lucro, antes de comandar a Michelin na América do Norte.

Contratado pela Renault, chega ao Japão quando a montadora francesa assume o controle da Nissan, então endividada e perdendo mercado. Ghosn corta fábricas, desmonta práticas tradicionais de gestão e entrega um dos turnarounds mais estudados da indústria. Ganha o apelido de “cost killer” e vira celebridade, com direito até a biografia em mangá.

O sucesso lhe rende um poder raro: passa a comandar simultaneamente Renault e Nissan, e mais tarde assume também a presidência da Mitsubishi Motors, na qual a Nissan compra 34% de participação. A aliança Renault–Nissan–Mitsubishi torna-se um dos maiores grupos automotivos do mundo, com Ghosn como figura central.

O auge, porém, antecede a queda. Ele é preso em Tóquio sob suspeita de subdeclarar remuneração e usar recursos da Nissan para benefício próprio. Os promotores japoneses falam em má conduta financeira; Ghosn nega e diz ser alvo de uma conspiração de executivos da Nissan e autoridades japonesas contrários a uma integração mais profunda com a Renault, apoiada pelo governo francês, acionista da parceira.

A fuga cinematográfica e o exílio no Líbano

Depois de períodos alternando prisão e liberdade sob fiança, Ghosn protagoniza uma fuga improvável. Deixa o Japão escondido em uma caixa de equipamentos musicais, carregada até um jato particular que decola rumo ao Oriente Médio, com escala na Turquia.

A operação envolve o ex-integrante das Forças Especiais dos EUA Michael Taylor e seu filho Peter, que ajudam a burlar a vigilância japonesa. O avião pousa no Líbano, país que não tem acordo de extradição com o Japão. De lá, o executivo passa a atacar o sistema judicial japonês e a se dizer vítima de uma armação corporativa.

O episódio rende pedidos de prisão, processos e a detenção dos Taylors, extraditados mais tarde ao Japão. Ghosn permanece em Beirute, fora do alcance da Justiça japonesa, dando entrevistas, escrevendo e oferecendo cursos e palestras sobre liderança e gestão. “Seu maior erro pode ter sido não ter se aposentado depois de assegurar a Aliança Renault-Nissan e concluir a recuperação”, afirma hoje, em tom de autocrítica calculada.

Nissan em crise, nostalgia em alta

Enquanto Ghosn se reinventa como guru de gestão, a Nissan patina. As vendas globais caem de 5,5 milhões para 3,15 milhões de veículos anuais, a lucratividade murcha e a empresa perde relevância em um mercado em rápida transição para a eletrificação e o software embarcado. A montadora corta capacidade, fecha linhas, anuncia planos de reestruturação sucessivos e troca de comando.

O novo CEO, Ivan Espinosa, herda uma companhia em desgaste com investidores e sob ataque de concorrentes chineses no segmento de elétricos. Em discurso aos acionistas, ele resume a estratégia: “A Nissan tenta acelerar a eletrificação e consolidar relações em robotáxis com Uber e Wayve, reduzir custos, simplificar operações e defender participação contra concorrentes chineses”.

Os números, porém, alimentam o ceticismo. Parte dos investidores passa a olhar para trás, para a era Ghosn, quando a aliança Renault–Nissan–Mitsubishi parecia imbatível e a Nissan mantinha um dos maiores volumes de vendas do mundo. Em assembleia recente, um acionista pede alto a volta do ex-chairman; outros desabafam sobre a destruição de valor.

Do Líbano, Ghosn reage com rapidez. “É uma reação com muito bom senso. Dá para sentir a raiva e a frustração dos acionistas”, diz. Argumenta que três CEOs sucessivos fracassam em revitalizar a Nissan e que apenas uma liderança forte, disposta a “tomar decisões difíceis”, poderia inverter a rota. Na prática, sugere a si mesmo.

O que está em jogo para Nissan, Renault e governos

A hipótese de um retorno é considerada irreal por executivos e advogados que acompanham o caso. Ghosn é procurado pela Justiça japonesa, enfrenta disputas civis em diferentes jurisdições e se tornou símbolo de tudo o que a Nissan tenta deixar para trás em sua política de governança.

O nome do brasileiro-libanês, no entanto, continua a ser peça de pressão política e financeira. A crise da Nissan afeta fornecedores, concessionárias e empregos em diversos países, inclusive no Brasil, onde a montadora opera há 22 anos. Afeta também a aliança com a Renault e a Mitsubishi, redesenhada às pressas após a queda de Ghosn, e coloca governos como o francês em posição delicada entre interesse econômico e desgaste diplomático com o Japão e o Líbano.

Os promotores japoneses seguem defendendo a robustez do caso criminal, enquanto Ghosn insiste que jamais teria um julgamento justo no país. A acusação e a fuga expõem o sistema judicial japonês a críticas internacionais, especialmente pelo longo tempo de detenção preventiva e pela taxa quase absoluta de condenações.

No campo corporativo, o debate sobre o legado de Ghosn vai além da Nissan. Sua trajetória levanta questões sobre concentração de poder em grandes alianças, conflitos entre controle nacional e capital estrangeiro, e os riscos de estruturas que dependem demais de um único líder carismático. A atual turbulência da montadora japonesa funciona como teste de estresse para esse modelo.

Os próximos capítulos passam pela capacidade de Ivan Espinosa e de seu time em entregar resultados concretos: recuperar margens, acelerar a linha de elétricos, tornar competitivas as parcerias em robotáxis e reconquistar a confiança de investidores cansados de promessas. Enquanto isso não acontece, o fantasma de Carlos Ghosn permanece sentado, invisível, em cada assembleia da Nissan.

Onde está Carlos Ghosn hoje?

Carlos Ghosn está hoje no Líbano, vivendo em Beirute desde que fugiu do Japão em um jato particular escondido em uma caixa de equipamentos musicais, após romper as condições de fiança. Ele não pode ser extraditado pelo país, dá entrevistas, escreve sobre gestão e tenta moldar a narrativa sobre sua própria história.

O que aconteceu com Carlos Ghosn na Nissan?

Carlos Ghosn comandou a recuperação da Nissan, virou CEO e símbolo da aliança com Renault e Mitsubishi, foi preso em Tóquio sob acusação de má conduta financeira e acabou afastado de todos os cargos. Ele nega ter cometido crimes, diz ser vítima de conspiração interna e hoje ataca a antiga empregadora à distância.

Como foi a fuga de Carlos Ghosn do Japão?

Carlos Ghosn fugiu do Japão escondido em uma caixa de equipamentos musicais, colocada em um jato particular que deixou o país rumo ao Líbano, com escala na Turquia, após violar a fiança. A operação contou com o ex-militar americano Michael Taylor e seu filho Peter, que mais tarde foram presos e extraditados para responder no Japão.

Por que acionistas da Nissan pedem o retorno de Carlos Ghosn?

Acionistas da Nissan pedem a volta de Carlos Ghosn porque veem a montadora em crise, com vendas caindo de 5,5 milhões para 3,15 milhões de veículos por ano, perda de valor e dificuldade frente a rivais chineses. Eles associam o ex-CEO ao período de recuperação e lucratividade e expressam frustração com os resultados das gestões posteriores.

Qual o impacto da prisão de Carlos Ghosn na crise da Nissan?

A prisão de Carlos Ghosn rompeu a liderança central da aliança Renault–Nissan–Mitsubishi, desencadeou disputas de poder internas e abalou a confiança de investidores justamente quando a Nissan precisava se adaptar à eletrificação. Desde então, a montadora acumula trocas de comando, planos de reestruturação e queda de vendas, aprofundando a sensação de perda de rumo estratégico.

Qual a relação entre Carlos Ghosn e o julgamento da ex-ministra francesa Rachida Dati?

A relação entre Carlos Ghosn e o julgamento da ex-ministra francesa Rachida Dati está em contratos de consultoria firmados quando ela atuava como advogada, ligados à aliança Renault–Nissan, que se tornaram objeto de investigação na França. O caso discute possível conflito de interesses e pagamentos suspeitos, tendo Ghosn como figura central no desenho desses acordos.


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