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Inteligência Artificial

Marco da IA trava na Câmara e deixa 50 mi sem proteção legal

Projeto do marco legal da inteligência artificial, aprovado no Senado, segue engavetado na Câmara sob pressão de big techs, enquanto outro texto avança para regular o uso da tecnologia na saúde.

Inteligência Artificial

Projeto que regulamenta a IA enfrenta obstáculos na Câmara, deixando milhões sem amparo jurídico.

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O marco legal da inteligência artificial, aprovado pelo Senado para regular o uso da tecnologia por cerca de 50 milhões de brasileiros, segue parado na Câmara dos Deputados, sob forte pressão de grandes empresas de tecnologia e em meio à ofensiva de parte da nova bancada digital para flexibilizar pontos centrais de proteção aos usuários.

Marco legal parado e pressão das big techs

O texto foi apresentado pelo então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), passou por meses de debates, recebeu centenas de emendas e só chegou ao plenário depois de mais de 26 audiências públicas, que reuniram mais de 120 especialistas, representantes de empresas, academia e sociedade civil. Aprovado pelos senadores em dezembro de 2024, o projeto está engavetado na Câmara desde março do ano passado, sem avanço relevante nas comissões.

O conteúdo da proposta é visto por especialistas como um divisor de águas para a forma como bancos, empresas de recursos humanos, planos de saúde, órgãos públicos e grandes plataformas de tecnologia usam sistemas de IA em decisões que impactam diretamente a vida das pessoas. A avaliação entre entidades técnicas, como OAB, NIC.br e Cetic.br, é de que o Congresso já tem base suficiente para decidir. Como resume um dos formuladores do texto, “a tecnologia avança depressa demais para que o Congresso siga assistindo a tudo da arquibancada”.

Nos bastidores, entidades relatam atuação intensa de gigantes estrangeiras da área digital sobre parlamentares para diluir deveres de transparência e limitar a responsabilização por danos causados por algoritmos, especialmente em situações de concessão de crédito, seleção de candidatos a emprego e uso de dados pessoais em larga escala.

O que está em jogo na regulamentação da IA

O projeto aprovado no Senado adota a lógica de classificar sistemas de IA por grau de risco, com obrigações proporcionais. Aplicações consideradas de risco alto — como as que interferem em finanças, trabalho, segurança pública e saúde — teriam de seguir regras mais rígidas de transparência e prestação de contas.

A proposta também cria mecanismos de responsabilização para empresas e órgãos públicos, inclusive com dever de explicação sobre como decisões automatizadas foram tomadas. A ideia é impedir que pessoas sejam prejudicadas por um algoritmo sem saber por quê. Nas palavras de um dos defensores do texto, “quem for prejudicado precisa ter a quem recorrer”.

Outro eixo sensível é a proteção de direitos autorais. Veículos de imprensa e criadores de conteúdo pressionam para que a lei exija transparência sobre o material usado para treinar modelos de IA generativa e garanta remuneração justa, sobretudo diante do uso massivo de reportagens profissionais para alimentar sistemas que depois oferecem respostas prontas, reduzindo a audiência das próprias fontes originais.

Entidades técnicas alertam ainda para o risco de uma legislação fraca consolidar a concentração do mercado nas mãos de poucas big techs globais, em detrimento de universidades, startups e centros de pesquisa brasileiros. A defesa é por regras que obriguem responsabilidade, mas, ao mesmo tempo, criem um ambiente previsível para investimento em pesquisa nacional e formação de profissionais.

Ofensiva da bancada digital e disputa em torno da ANPD

A composição atual do Congresso trouxe para o plenário um grupo mais numeroso de parlamentares ligados ao setor de tecnologia, apelidado de bancada digital. Parte desses deputados e senadores tem atuado para suavizar dispositivos do marco da IA sob o argumento de que exigências em excesso poderiam afastar investimentos estrangeiros e travar a inovação.

O principal alvo dessa ofensiva é a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Propostas em discussão pretendem reduzir o alcance da agência na fiscalização de sistemas de IA, especialmente em temas como consentimento de uso de dados, transparência algorítmica e sanções por violações.

Juristas e pesquisadores, porém, veem com preocupação esse movimento. Para um dos articuladores do texto original, “a promessa de investimentos não pode servir de salvo-conduto para que as empresas de tecnologia escapem de suas responsabilidades”. A avaliação é de que sem fiscalização robusta, o país teria uma lei que parece moderna no papel, mas pouco efetiva na prática, mantendo usuários expostos aos mesmos riscos sob a aparência de regulamentação.

Entenda o contexto

Segundo o Cetic.br, ligado ao NIC.br, cerca de 50 milhões de brasileiros já usam ferramentas de IA generativa no dia a dia, em atividades que vão de redigir textos e traduzir documentos a produzir imagens, programar códigos e tirar dúvidas sobre temas variados. Ao mesmo tempo, algoritmos menos visíveis operam em segundo plano em plataformas de comércio eletrônico, redes sociais, call centers, bancos e serviços públicos.

Sem uma lei específica para IA, conflitos acabam sendo resolvidos com base em normas esparsas de proteção de dados, defesa do consumidor, código civil e legislação trabalhista. Especialistas apontam que isso gera insegurança jurídica tanto para usuários quanto para empresas, e abre brechas para decisões discriminatórias ou abusivas, difíceis de contestar na Justiça.

O texto do marco legal busca preencher essa lacuna ao estabelecer princípios gerais para o desenvolvimento e o uso responsável de IA, como não discriminação, segurança, transparência e supervisão humana significativa, além de regras para avaliação de impacto, governança de dados e deveres de informação para fornecedores e operadores da tecnologia.

Saúde discute regras próprias para IA

Em paralelo ao marco geral, tramita no Senado um projeto exclusivo para o uso de inteligência artificial na saúde, hoje em análise na Comissão de Assuntos Sociais. A proposta mira desde ferramentas de apoio a diagnóstico e definição de tratamentos até sistemas que gerenciam leitos, filas de cirurgias e prontuários eletrônicos.

O texto reforça que a responsabilidade final por decisões clínicas deve continuar sendo do profissional de saúde, mesmo quando ele se apoia em recomendações geradas por algoritmos. Um dos defensores da matéria resume o espírito da proposta: “seria absurdo abrir mão desses avanços. Mas, convenhamos, ninguém espera que um médico atribua a uma máquina a responsabilidade por um diagnóstico errado”.

A ideia é criar um equilíbrio entre aproveitar o potencial da IA para identificar doenças mais cedo, reduzir erros, otimizar exames e personalizar tratamentos e, ao mesmo tempo, garantir segurança para pacientes e autonomia para médicos, enfermeiros e demais profissionais. O texto também afasta a possibilidade de que pacientes sejam responsabilizados isoladamente por falhas decorrentes de sistemas automatizados: “tampouco que o paciente arque sozinho com as consequências”, afirma um senador envolvido na negociação.

Hospitais, planos de saúde, conselhos profissionais e empresas de tecnologia da área médica acompanham de perto a tramitação. A tendência é que o relatório na Comissão de Assuntos Sociais sirva de base para futuras normas infralegais de conselhos de classe e do próprio Ministério da Saúde sobre certificação, auditoria e uso ético de soluções de IA em ambientes clínicos.

Impacto para usuários, empresas e imprensa

A regulamentação da IA deve redesenhar a relação entre usuários, empresas e poder público. Em setores financeiros e de recursos humanos, sistemas de análise de perfil, crédito e desempenho passariam a operar com mais camadas de transparência e possibilidade de contestação. Isso pode reduzir práticas discriminatórias baseadas em CEP, gênero, raça, idade ou histórico de consumo.

Para as empresas, um marco claro tende a elevar custos de conformidade, mas também diminui o risco de ações judiciais e de danos reputacionais ligados a uso indevido de dados ou decisões opacas. Já para o governo, sistemas de IA usados em políticas públicas, como triagem de benefícios sociais ou segurança, ficariam submetidos a parâmetros mais rígidos de controle e auditoria.

A imprensa profissional vive um capítulo próprio nessa disputa. Redações apontam que seus textos, fotos, vídeos e bancos de dados têm sido usados como matéria-prima para treinar modelos de IA, muitas vezes sem acordo prévio ou qualquer remuneração. Além disso, respostas diretas fornecidas por assistentes virtuais tendem a reduzir o tráfego para sites jornalísticos, afetando a sustentabilidade econômica de veículos que produzem informação checada.

O marco legal coloca essa questão no centro do debate ao falar em transparência sobre os conjuntos de dados usados no treinamento de sistemas e em condições equitativas para quem fornece conteúdo. A expectativa no setor é que a lei abra caminho para modelos de licenciamento e remuneração que preservem o jornalismo profissional como serviço público essencial no ecossistema informacional.

Próximos passos no Congresso

Na Câmara, líderes partidários discutem se o marco da IA será retomado a partir do texto do Senado ou se receberá um substitutivo mais enxuto. Um dos pontos de impasse é justamente o grau de poder da ANPD e o alcance das regras para usos considerados de alto risco, como reconhecimento facial em espaços públicos.

Enquanto isso, organizações da sociedade civil organizam novas rodadas de debates, seminários e campanhas de pressão para que deputados retomem a pauta ainda neste ano legislativo. A leitura de entidades como OAB, NIC.br e Cetic.br é que a demora amplia a assimetria entre o poder tecnológico de grandes plataformas e a capacidade de defesa de cidadãos comuns.

O recado ao próximo Congresso é direto: “o próximo Congresso terá a responsabilidade de tirar a regulamentação do papel. Afinal, se a inteligência artificial exige responsabilidade de quem a desenvolve e utiliza, o mesmo vale para quem tem o dever de estabelecer suas regras”, afirma um dos protagonistas da tramitação no Senado.

Fonte: matéria original