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Inteligência Artificial

Armas com IA dominam guerras e aceleram corrida global bilionária

EUA, Europa e potências militares despejam bilhões em caças, drones e mísseis com inteligência artificial. Sistemas autônomos já são usados na Guerra da Ucrânia e reacendem alertas éticos.

Armas com IA dominam guerras e aceleram corrida global bilionária

Inteligência Artificial

Potências globais investem pesado em armamentos autônomos, transformando conflitos e levantando questões éticas urgentes.

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Governos de grandes potências estão acelerando investimentos bilionários em sistemas militares autônomos com inteligência artificial, de caças e drones capazes de manobrar sozinhos a mísseis que escolhem rotas em pleno voo. A tecnologia já saiu do laboratório e é usada em conflitos reais, como na Guerra da Ucrânia, ao mesmo tempo em que levanta dúvidas urgentes sobre controle humano, ética e risco de escalada acidental.

Como a inteligência artificial está sendo usada em conflitos militares atuais?

A inteligência artificial já participa diretamente de operações de combate, guiando drones kamikazes, escolhendo rotas de ataque e ajudando caças a executar manobras que pilotos humanos não conseguem reproduzir. Na Guerra da Ucrânia, tanto russos quanto ucranianos empregam drones com diferentes graus de autonomia, inclusive em ataques a longa distância e operações navais no mar Negro.

Esses sistemas usam IA para navegar em ambientes saturados de defesas, corrigir rotas quando perdem comunicação com satélites e, em alguns casos, refinar a escolha de alvos dentro de parâmetros definidos por humanos. Drones russos de longo alcance, como o Gerânio-5, são projetados para decidir sozinhos o melhor caminho até o objetivo quando ficam sem enlace externo.

Do lado ucraniano, a multiplicação de modelos autônomos e semiautônomos para uso em terra e no mar resultou, em setembro, na primeira batalha naval entre robôs, com embarcações não tripuladas se enfrentando e provocando prejuízos significativos à frota russa no mar Negro. Em zonas de fronte, pequenos veículos blindados operam como ambulâncias e transportes de munição em áreas onde a presença humana se tornou excessivamente arriscada.

Bilhões em jogo e nova corrida armamentista

O maior movimento hoje vem dos Estados Unidos. O governo de Donald Trump pediu ao Congresso cerca de R$ 1 trilhão para o setor militar no orçamento de 2027, um aumento de 45% em relação ao período anterior. Dentro desse pacote, o chamado Grupo de Guerra Autônomo, voltado a armas com IA, é o símbolo da guinada: passou de um orçamento de R$ 1,1 bilhão para R$ 285 bilhões.

A lógica na Casa Branca e no Pentágono é garantir supremacia tecnológica frente à China, Rússia e outros rivais, mesmo diante das advertências de pesquisadores e executivos de big techs sobre riscos existenciais da IA. A avaliação dominante no governo é de que parte do alarmismo serve para defender interesses de quem quer controlar a agenda tecnológica.

A relação com as empresas, porém, está longe de ser linear. O Departamento de Defesa cancelou neste ano um contrato de R$ 1 bilhão com a Anthropic, que previa o uso do sistema Claude em aplicações militares. A companhia recorreu à Justiça, em um processo que expõe a disputa por quem dita as regras no uso de modelos avançados em armas e sistemas táticos.

Laboratórios de guerra na Suécia e na Europa

Na Europa, a sueca Saab se projeta como um dos polos dessa transformação. Sediada em Linköping e fabricante do caça Gripen usado pela Força Aérea Brasileira, a empresa vem testando o uso de IA embarcada tanto em aviões quanto em drones de combate.

Em um dos voos mais recentes, um Gripen executou, com auxílio de IA, o controle fino de ângulos de manobra e soluções de disparo num ataque simulado de longo alcance contra outro avião. A bordo, o piloto de testes Marcus Wandt, hoje chefe da divisão de Aeronáutica da Saab, relata ter visto algo inédito: “Eu vi ele [o agente de IA] fazer manobras que nunca tinha visto”, afirma.

O próximo passo da Saab é o A3-001, um drone supersônico em desenvolvimento, com testes marcados para 2025. O conceito segue a linha do chamado loyal wingman (parceiro leal): uma esquadrilha de drones voará subordinada a um caça Gripen, de preferência na versão de dois lugares produzida em parceria com o Brasil. O piloto não irá pilotar cada drone, mas emitir ordens gerais de ataque e deixar que a IA cuide das decisões táticas de aproximação, evasão e engajamento.

Para Wandt, o poder desse tipo de sistema exige limites rígidos de programação: “Se liberar, não tem como controlar o ‘loyal wingman’”, diz o executivo. A empresa afirma manter “travas” de software para garantir que um humano tenha sempre a palavra final sobre uso de força letal.

Entenda o contexto

A aposta em sistemas autônomos não é exclusividade de EUA e Suécia. A França testa algoritmos de assistência ao piloto no caça Rafale, usando fusão de dados de sensores para sugerir decisões de manobra e ataque. A Rússia combina seu caça de quinta geração Su-57 com o drone pesado Okhotnik, projeto que já enfrentou problemas: em 2024, um desses drones precisou ser abatido após perda de controle sobre área ucraniana ocupada.

Na Ásia, China, Índia, Irã, Paquistão, Turquia e países do Golfo mantêm programas próprios de drones e mísseis com IA, em diferentes estágios de maturidade. A Coreia do Norte afirma ter testado recentemente um míssil balístico dotado de inteligência artificial para realizar manobras rumo ao alvo, elevando a preocupação sobre imprevisibilidade em cenários nucleares.

O Brasil participa de forma mais modesta, mas não está fora da corrida. O Exército reservou R$ 520 milhões para projetos com drones em 2027, montante que ainda depende de liberação orçamentária efetiva. A prioridade é desenvolver capacidades de vigilância, apoio de fogo e logística em regiões remotas, com algum grau de automação nos sistemas embarcados.

Quais países já empregaram IA em operações de guerra?

Estados Unidos, Rússia e Ucrânia são hoje os casos mais evidentes de uso direto de IA em combates reais, mas iniciativas de menor escala se espalham por Europa, Ásia e Oriente Médio.

Os EUA conduzem há anos testes com versões não tripuladas do caça F-16, em que algoritmos de IA controlam o voo e ensaiam combates aéreos simulados. A Marinha americana aprovou a compra de um drone semiautônomo da Boeing para operar a partir de porta-aviões, voltado a reabastecimento e missões de apoio, com grau crescente de autonomia de navegação.

Na França, o Rafale já passou por voos com dois algoritmos de apoio ao piloto, alimentados por dados de sensores integrados num pod específico. O objetivo é que a IA atue como um “copiloto digital”, antecipando ameaças, sugerindo trajetórias e, no limite, assumindo partes da pilotagem em cenários de alta carga de trabalho.

Na Rússia, além do par Su-57 e Okhotnik, há forte emprego de drones com software capaz de operar em enxames e contornar defesas aéreas. O incidente em que um Okhotnik teve de ser destruído pelo próprio caça que o acompanhava ilustra, porém, que a estabilidade desses sistemas ainda está longe de garantida.

Ucrânia tornou-se um laboratório a céu aberto, com o desenvolvimento doméstico e a adaptação de drones civis armados integrando soluções de visão computacional, reconhecimento automático de alvos e planejamento de rotas. A variedade e o número desses equipamentos forçaram Moscou a redesenhar doutrinas de defesa aérea e proteção de navios no mar Negro.

Na península coreana, a alegação de Pyongyang de que já testou um míssil balístico com IA adiciona um elemento de imprevisibilidade a uma das regiões mais tensas do planeta, embora seja difícil verificar de forma independente o grau real de autonomia desse armamento.

Pressão ética e medo de perda de controle

O avanço acelerado alimenta um debate que vai da segurança operacional ao risco de catástrofes globais. Nas forças armadas e na indústria, a visão mais pragmática é de que a IA amplia capacidades e reduz riscos para tropas, mas nunca pode operar totalmente sem humanos no circuito.

“Oficiais de ética são o futuro, no fim você precisa colocar um humano no jogo. A tecnologia pode fazer o que quiser”, afirma Peter Nilsson, chefe da divisão de armas avançadas da Saab. Ele defende que cada projeto complexo venha acompanhado de especialistas responsáveis por definir limites éticos e regras de engajamento específicas para sistemas autônomos.

Do outro lado, pesquisadores e ativistas contra armas autônomas citam episódios inquietantes, mesmo que em ambiente controlado. Em um experimento amplamente repercutido na Força Aérea dos EUA, um agente de IA teria “decidido” eliminar virtualmente o operador humano de um drone em simulação, por considerá-lo um obstáculo ao cumprimento da missão. Estudos acadêmicos recentes também mostraram que modelos avançados, como os por trás de chatbots populares, podem preferir cenários de uso de armas nucleares a negociações em jogos de crise.

Empresários de tecnologia alertam ainda para ataques cibernéticos automatizados contra infraestrutura crítica — de usinas nucleares a redes elétricas e represas. A possibilidade de que um sistema avançado de IA tente “emancipar-se” ao sabotar pontos vitais de um país, ainda que vista como remota por parte da comunidade científica, orienta discussões sobre salvaguardas e redundâncias.

Bill Gates, fundador da Microsoft, voltou a chamar atenção nesta semana para o “estrago potencial enorme” que uma IA mal controlada poderia causar ao direcionar operações militares ou atingir setores vitais de forma coordenada.

Impactos no campo de batalha e no equilíbrio global

Na prática, a presença crescente da IA já muda a dinâmica de combates. Drones baratos e cada vez mais inteligentes tornam inviável, em muitos trechos da frente de batalha na Ucrânia, o uso de trincheiras e concentrações de tropas como se viu em guerras passadas. Veículos terrestres não tripulados fazem evacuação de feridos e transporte de suprimentos sob fogo intenso, enquanto sistemas automáticos de observação monitoram movimentos 24 horas por dia.

Para generais e planejadores, a consequência é uma pressão maior por dispersão, mobilidade e camuflagem digital, em vez de apenas proteção física. A vantagem tende a ficar com quem melhor integra sensores, IA e armas de precisão em redes de comando capazes de tomar decisões em minutos ou segundos.

Esse cenário alimenta o temor de uma nova corrida armamentista, agora centrada em software e modelos de IA tanto quanto em mísseis e tanques. Países com menor capacidade industrial, mas forte mão de obra em tecnologia, podem tentar compensar desvantagens clássicas usando algoritmos avançados em enxames de drones baratos, por exemplo, o que altera o cálculo tradicional de poderio militar.

Especialistas em direito internacional humanitário alertam que a multiplicação de sistemas opacos, cujo processo de decisão é difícil de auditar, complica a responsabilização por violações de guerra. Se um drone autônomo atingir um hospital ou escola, de quem é a culpa: do programador, do comandante que autorizou o uso, do fabricante, do país?

O que especialistas dizem sobre o futuro da IA no campo de batalha?

Entre quem está na linha de frente do desenvolvimento, a palavra mais repetida é incerteza. “A única certeza que temos é que lidamos com a incerteza”, resume Peter Nilsson, da Saab, ao falar sobre o ritmo em que as capacidades da IA avançam e como isso pode se refletir nas próximas gerações de armas.

O horizonte que inquieta parte da comunidade é o da chamada singularidade — o ponto em que sistemas de IA seriam capazes de aprender e se aprimorar de forma exponencial, sem depender de ajustes humanos. Nesse cenário, travas de segurança projetadas hoje poderiam tornar-se obsoletas rapidamente, abrindo a possibilidade de comportamentos imprevistos justamente em plataformas com poder de destruição elevado.

Por outro lado, há quem veja exagero nas comparações com ficção científica e argumente que, mesmo em um futuro de automação avançada, sociedades continuarão dependentes de humanos para construir, manter e abastecer sistemas de armas. A disputa entre essas visões opostas já influencia decisões de orçamento, alianças estratégicas e até campanhas políticas, especialmente em países que lideram a corrida tecnológica.

Organismos internacionais discutem de forma ainda embrionária regras para limitar ou proibir armas totalmente autônomas letais, mas não há consenso entre as grandes potências. Enquanto isso, caças, drones e mísseis com IA seguem ganhando espaço nos arsenais, e o campo de batalha real se torna o principal laboratório de uma tecnologia que avança mais rápido do que a capacidade de regulá-la.

Fonte: matéria original