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Inteligência Artificial

Professora usa IA para criar vídeos dos sonhos dos alunos

Professores de escolas públicas e privadas usam inteligência artificial para criar experiências que projetam o futuro dos alunos e reforçam a defesa por formação continuada de docentes.

Professora usa IA para criar vídeos dos sonhos dos alunos

Inteligência Artificial

Docentes inovam ao utilizar IA para desenvolver vídeos que inspiram e projetam o futuro dos estudantes.

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A professora Giovanna Macedo, da Escola Estadual Professor Carlos Cristovam Zink, em Campinas (SP), usou inteligência artificial para criar vídeos em que seus 31 alunos do 4º ano aparecem atuando nas profissões com que sonham, iniciativa que emocionou a turma, viralizou nas redes e reacendeu o debate sobre como preparar docentes para a transformação digital na educação.

Como docentes estão usando inteligência artificial para inovar e engajar alunos?

Na sala de Giovanna, a pergunta clássica “o que você quer ser quando crescer?” virou ponto de partida para uma experiência tecnológica. Com apoio do ChatGPT, ela acelerou simbolicamente o tempo: a partir de fotos das crianças, gerou imagens que mostram cada uma já adulta, vestida e atuando como jogador de futebol, astronauta, veterinária, bailarina, cantor, artista e outras carreiras citadas pelos estudantes.

O resultado foi um vídeo exibido em sala, que registra as reações de surpresa e choro de alegria das crianças ao se verem no futuro imaginado. A professora, que tem 8 anos de atuação no magistério, diz que o objetivo vai além do impacto visual: “Mais do que utilizar uma tecnologia nova, nosso papel é encontrar formas de despertar a curiosidade das crianças, fortalecer a autoestima e ampliar os horizontes delas. Quanto mais conseguirmos mostrar o que são capazes de aprender, criar e sonhar, mais sentido terá o nosso trabalho”.

Giovanna admite que ainda não tem formação específica em IA e usa as ferramentas de forma intuitiva para produzir recursos visuais e planejar atividades. Após a repercussão do vídeo, ela quer se especializar em metodologias e didática ligadas à tecnologia e espera inspirar outros professores a aproximar os conteúdos escolares da realidade dos alunos, sem perder de vista o afeto e o diálogo em sala.

No Rio de Janeiro, a diretora-geral da Start Anglo Bilingual School, Kassula Correa, conta que a IA já entra no dia a dia pedagógico para personalizar exercícios, adaptar níveis de dificuldade, apoiar planejamentos e agilizar correções. Mesmo assim, ela alerta que a familiaridade das crianças com telas não garante aprendizagem crítica. “Uma criança pode ter facilidade para mexer no celular e, ainda assim, não saber pesquisar com profundidade, identificar uma informação falsa ou compreender os riscos de compartilhar determinados dados”, afirma.

Para Kassula, cabe às escolas usar a IA para enriquecer o currículo e valorizar as diferenças entre os estudantes. Ela defende que cada professor tenha ferramentas e apoio para lidar com ritmos e formas de aprender variados, inclusive em turmas com alunos que dominam tecnologia e outros que têm pouco ou nenhum acesso a dispositivos em casa.

Entenda o contexto

A expansão acelerada da IA generativa chega às escolas em um momento em que estudantes recebem grande volume de informações em poucos segundos, mas nem sempre conseguem transformar isso em conhecimento. Nas redes pública e privada, educadores veem na tecnologia uma oportunidade de engajar os mais novos com linguagens próximas do cotidiano digital, mas temem que a falta de formação, infraestrutura e critérios amplie desigualdades entre redes e regiões.

Além de criar vídeos e atividades interativas, professores já usam IA para sugerir trilhas de estudo, diversificar exemplos em sala, revisar textos e automatizar tarefas burocráticas — como relatórios, planilhas e organização de dados acadêmicos. Isso libera tempo para o acompanhamento individualizado dos alunos, mas também exige atenção ética com privacidade, direitos autorais e transparência sobre o uso das ferramentas.

Formação continuada e desafios para os professores

No Distrito Federal, o professor e doutorando em Educação Marcio Luiz Dias trabalha há 13 anos com formação continuada em tecnologias educacionais para docentes da rede pública. Especialista em IA na educação, ele resume o ponto central: “A formação continuada é indispensável tanto para professores com formação analógica quanto para os recém-formados em licenciaturas”.

Segundo Marcio, as mudanças no ambiente digital são tão rápidas que os currículos das faculdades não conseguem acompanhar o ritmo. Por isso, a atualização em serviço — via cursos, oficinas e comunidades de prática — é crucial para que o professor aprenda a usar IA de modo crítico, colaborativo e com intencionalidade pedagógica, e não apenas como atalho para produzir atividades em massa.

As capacitações da Secretaria de Educação do DF têm orientado os docentes a ir além do uso mecânico de plataformas, focando no planejamento de aulas, na mediação de debates sobre veracidade da informação e no desenvolvimento de projetos autorais com os estudantes. A IA também é apresentada como aliada para automatizar rotinas administrativas e operacionais, o que pode abrir espaço na agenda do professor para estudar, testar formatos de aula e acompanhar mais de perto as dificuldades da turma.

Marcio reconhece que ainda há resistência em parte do magistério, que teme substituir práticas consolidadas pelos recursos digitais. Ele argumenta, porém, que se trata de um caminho sem volta e que a chave é acolher a experiência prévia dos professores, especialmente daqueles que construíram carreiras com quadro, livro e papel, aproximando-os das novas ferramentas sem desprezar o que já funciona.

IA, inclusão e desenvolvimento socioemocional

Kassula Correa reforça que, mesmo com a presença crescente da IA, a escola não pode abrir mão de sua função de formar pessoas capazes de conviver e lidar com emoções. “Por mais que a tecnologia avance, a escola continua sendo um lugar de relações humanas. É onde a criança aprende a conviver, a lidar com dificuldades, a se conhecer e a descobrir do que é capaz”, diz.

Na prática, isso significa usar a IA para criar experiências que aumentem a autoestima — como o vídeo de Giovanna, que mostra crianças de periferia ocupando profissões de prestígio — e, ao mesmo tempo, garantir espaços de conversa sobre frustração, erro, limites e empatia. Professores e gestores defendem que as ferramentas não substituem o olhar humano na hora de avaliar o desenvolvimento de cada criança, interpretar silêncios, perceber sinais de sofrimento e celebrar avanços que não aparecem em gráficos.

Outro ponto de atenção é a infraestrutura desigual entre escolas. Enquanto algumas redes conseguem investir em computadores, conexão estável e formação estruturada, outras ainda lutam pelo básico. Docentes que não recebem apoio para se atualizar correm o risco de ficar para trás, o que pode aprofundar diferenças de aprendizagem entre estudantes de contextos distintos.

Entre o encantamento com as possibilidades da IA e a preocupação com seus efeitos, educadores convergem em uma ideia: a tecnologia deve complementar, e não substituir, o vínculo entre professor e aluno. O próximo passo, apontam, é ampliar programas de capacitação, garantir condições materiais para o uso responsável das ferramentas e acompanhar de perto como essas experiências, como a de Campinas, impactam o futuro escolar e profissional das crianças brasileiras.

Fonte: matéria original