Character.AI pede proteção nos EUA e acerta licença de tecnologia com Disney
Character.AI entra em proteção contra credores sob Capítulo 11 nos EUA, negocia licença de tecnologia de US$ 20 milhões com a Disney e corre para achar comprador e evitar desligamento da plataforma.

Inteligência Artificial
Character.AI busca reestruturação judicial e firma acordo tecnológico com Disney para manter operações nos EUA.
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A Character.AI, plataforma de chatbots de inteligência artificial cofundada pelo brasileiro Daniel de Freitas e pelo americano Noam Shazeer, pediu proteção contra credores em um tribunal de Delaware e, ao mesmo tempo, fechou princípio de acordo para licenciar parte de sua tecnologia à Disney por US$ 20 milhões, enquanto tenta encontrar um comprador para manter o serviço no ar.
O que está em jogo no processo de proteção judicial
O pedido foi apresentado em 12 de outubro sob o Capítulo 11 da lei de falências americana, mecanismo que permite à empresa seguir operando enquanto reorganiza dívidas e negocia a venda de ativos. A Character afirma que recorre ao processo para conter a queda de moral da equipe e o risco de fuga de talentos, em meio a pressões financeiras e a ações judiciais que acusam a plataforma de expor menores a conteúdos nocivos.
Pelo plano levado à Justiça, a companhia continua administrando a plataforma de chatbots durante a reestruturação, mas coloca seus principais ativos à venda. Um leilão está previsto para novembro, caso surjam ofertas concorrentes à da Disney. A expectativa da empresa é concluir a transação até o fim de novembro ou início de dezembro; se não houver comprador disposto a manter o serviço, a plataforma poderá ser encerrada.
O processo corre no tribunal de Delaware, jurisdição usada por grandes empresas americanas em casos de recuperação e falência. A proteção do Capítulo 11 congela temporariamente cobranças de credores enquanto a empresa negocia um plano para pagar dívidas e definir o destino do negócio.
Como é a proposta da Disney pela tecnologia da Character.AI
No centro das negociações está um pacote que combina licença de tecnologia e contratação de parte da equipe da startup. Segundo os documentos apresentados à Justiça, “a Disney oferece US$ 20 milhões por uma licença perpétua e não exclusiva de parte da propriedade intelectual da Character”. Desse total, US$ 7,5 milhões já foram pagos antes mesmo do pedido de proteção contra credores.
A proposta não inclui a compra da plataforma de chatbots nem o domínio da Character.AI, focando apenas em elementos específicos da tecnologia e em talentos-chave da empresa. A licença precisa ser aprovada pelo juiz responsável pelo caso e poderá ser disputada por outros interessados no leilão marcado para novembro.
Além da licença, a Disney se compromete a contratar mais de 60 profissionais que hoje trabalham na startup, em um pacote que prevê cerca de US$ 180 milhões em remuneração e incentivos ao longo dos próximos três anos. “O pacote prevê US$ 30 milhões em bônus para estimular a permanência dos funcionários”, indicam os documentos do processo, numa tentativa de evitar debandada de engenheiros e pesquisadores em meio à incerteza.
A movimentação reforça o interesse da gigante do entretenimento em consolidar uma estrutura própria de inteligência artificial. Em setembro, a empresa já havia contratado Karandeep Anand, ex-CEO da Character, para assumir o cargo de diretor de tecnologia, posição estratégica na integração dessas equipes e ativos.
Entenda o contexto
A Character.AI surgiu como uma das plataformas mais populares da nova leva de ferramentas de inteligência artificial voltadas a conversas. O serviço permite criar e interagir com chatbots inspirados em personagens de ficção, celebridades ou figuras inventadas pelos próprios usuários, e chegou a ser avaliado em US$ 1 bilhão em 2023.
O sucesso da plataforma se apoiou na experiência dos fundadores. Daniel de Freitas, engenheiro formado pela USP, trabalhou na Microsoft e depois no Google, onde liderou o desenvolvimento do modelo de linguagem LaMDA, voltado para diálogos, e conheceu Noam Shazeer. Os dois deixaram a big tech em 2021 para fundar a Character.AI.
Em 2024, um acordo bilionário de licenciamento levou Freitas, Shazeer e parte da equipe de volta ao Google. O brasileiro hoje atua no Google DeepMind e não participa da gestão da startup, que passou a ser comandada por outros executivos — entre eles Anand, que mais tarde migraria para a Disney. A Character, porém, seguiu operando de forma independente e mantendo sua base de usuários.
Ações por exposição de menores e pressão regulatória
Enquanto expandia o uso de seus chatbots, a plataforma passou a enfrentar processos e investigações sobre a segurança de interações com crianças e adolescentes. Uma das ações civis foi aberta por uma mãe da Flórida após o suicídio do filho de 14 anos. Segundo a família, o adolescente havia desenvolvido uma relação de dependência com um chatbot baseado em uma personagem de Game of Thrones, e a plataforma não teria oferecido ajuda nem alertado os pais quando o jovem manifestou intenção suicida.
Em janeiro deste ano, a empresa firmou acordos preliminares em cinco ações movidas por famílias, mas os acertos ainda não foram concluídos nem pagos. Paralelamente, governos estaduais abriram investigações e pressionam por mudanças técnicas. Em documento recente, procuradores-gerais pediram que qualquer comprador da Character implemente verificação eficaz de idade e bloqueio de conversas com conteúdo sexual, violento ou considerado nocivo para menores.
As autoridades argumentam que a forma como esses chatbots reproduzem conversas humanas pode dificultar, especialmente para adolescentes, a distinção entre relações artificiais e reais, o que aumenta riscos em situações de vulnerabilidade emocional. Em resposta à pressão, a Character adotou medidas para restringir o acesso de menores, incluindo a proibição formal de uso por quem tem menos de 18 anos em chats abertos, mas segue negociando termos de acordos com procuradores estaduais.
Conflitos e reaproximação com a Disney
A atual negociação com a Disney acontece depois de um histórico recente de atritos entre as duas empresas. Em setembro do ano passado, a companhia de entretenimento havia notificado a Character exigindo a retirada de chatbots baseados em suas franquias, que apareciam na plataforma sem autorização. A disputa girou em torno do uso de personagens protegidos por direitos autorais em conversas de usuários com modelos de IA.
Agora, as empresas ensaiam uma espécie de trégua com o acordo de licença tecnológica. A diferença é que, desta vez, o foco não são os personagens em si, mas o uso de partes da tecnologia desenvolvida pela Character, além da absorção de engenheiros e cientistas de dados.
A Disney não se comprometeu a assumir a operação da plataforma, o que explica a busca da Character por outros interessados capazes de manter o serviço vivo. Se a oferta da companhia for aprovada, ela levará o direito de usar parte da tecnologia de forma perpétua e não exclusiva, enquanto a startup segue tentando vender o restante de seus ativos.
Impacto para usuários e para o mercado de IA
Por ora, “a Character.AI continua funcionando enquanto busca um comprador para manter o serviço”. A empresa informa que, se não encontrar um comprador até o fim de novembro ou início de dezembro, a plataforma poderá sair do ar. Esse cenário preocupa uma comunidade de usuários que utiliza a ferramenta tanto para lazer quanto para criação de conteúdo e experimentos com personagens interativos.
No mercado de inteligência artificial, o caso é acompanhado como mais um sinal de consolidação do setor, com grandes grupos de tecnologia e entretenimento absorvendo talentos e tecnologias de startups que ganharam tração rápida, mas enfrentam custos altos de operação, pressão regulatória e disputas de propriedade intelectual.
Se o plano for aprovado pelo tribunal e o leilão atrair concorrentes, a disputa pelos ativos da Character pode redefinir o equilíbrio de forças em nichos como chatbots de entretenimento e experiências conversacionais personalizadas. Ao mesmo tempo, os compromissos exigidos por autoridades para proteger menores tendem a servir de referência para futuras negociações envolvendo plataformas de IA interativa.
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