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Inteligência Artificial

Crise da CoreWeave: dívida de US$ 50 bi e ações em queda hoje

Avaliada em US$39 bilhões e apoiada pela Nvidia, CoreWeave amarga prejuízo de US$1,2 bi, dívida de US$50 bi e vê ações caírem mais de 15%, em meio a dúvidas sobre o modelo de IA alavancado por dívidas.

Crise da CoreWeave: dívida de US$ 50 bi e ações em queda hoje

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CoreWeave enfrenta forte queda nas ações e elevado endividamento, levantando questionamentos sobre seu modelo financeiro.

Leia também: Como a IA aumentou 40% a produtividade da Smoov em 2026

A CoreWeave, gigante norte-americana de computação em nuvem voltada para inteligência artificial e avaliada em US$ 39 bilhões, enfrenta uma crise aguda: opera no vermelho, carrega uma dívida de US$ 50 bilhões, viu as ações despencarem mais de 15% nesta semana e paga cerca de 16% ao ano em títulos no mercado, nível típico de empresas sob forte desconfiança.

CoreWeave queima caixa enquanto aposta em data centers de IA

Sediada em Nova Jersey e apoiada pela Nvidia, a CoreWeave se tornou símbolo do modelo de “neoclouds” — companhias que constroem enormes data centers para IA antes de ter receitas maduras para pagar a conta. Em 2025, a empresa registrou receita anual de US$ 5,1 bilhões, mas amargou prejuízo líquido de US$ 1,2 bilhão.

O presidente-executivo, Mike Intrator, tenta acalmar os temores. Em comunicado interno, afirmou que os mercados às vezes podem “interpretar mal e agir de forma irracional” e que a CoreWeave tem uma sólida carteira de pedidos. Segundo ele, a empresa fechou o segundo trimestre com US$ 104,2 bilhões em receitas contratadas e somou mais de US$ 25 bilhões em novos compromissos no início do terceiro trimestre, volume que, na visão da diretoria, cobre amplamente as obrigações de dívida.

O problema é o ritmo da queima de caixa. O mercado trabalha com a projeção de que os investimentos da CoreWeave vão quadruplicar em 2026, alcançando entre US$ 35 bilhões e US$ 39 bilhões — exatamente quando o capital está mais caro e a indústria de IA dá sinais de desaceleração nos aportes.

Dívida cara e título rendendo 16% acendem alerta

O estresse financeiro apareceu de forma clara nesta semana. Os títulos de dívida da CoreWeave com vencimento em 2030 saltaram 500 pontos-base e passaram a render cerca de 16%, um patamar que embute risco elevado de calote. Paralelamente, a ação da empresa desabou mais de 15%, na esteira de resultados recentes de grandes companhias de tecnologia que indicaram atrasos em projetos de data centers e menor apetite imediato por novos investimentos em IA.

No mercado de crédito, o comentário recorrente é que a CoreWeave depende demais de dívida para financiar seus projetos. A empresa é vista como um elo frágil em meio a um ecossistema altamente interligado, que inclui fabricantes de chips como a Nvidia e grandes clientes de capacidade computacional, como empresas de redes sociais e desenvolvedoras de modelos de IA.

“O problema com tudo isso é que estamos falando de uma enorme interconectividade, não apenas do financiamento circular, mas do fato de que esses ativos são todos mantidos nos mesmos lugares, nas mesmas carteiras, pelos mesmos tipos de investidores”, avaliou James Athey, gestor de carteiras de renda fixa da Marlborough. “E a alavancagem é sempre aquele fator que transforma uma tempestade em um copo d’água em algo mais nefasto”, completou.

Venda de ações pelo CEO aumenta desconfiança

A situação fica ainda mais sensível diante do movimento do próprio comando da empresa. Desde a abertura de capital, em março do ano passado, Intrator e entidades ligadas venderam quase US$ 1 bilhão em ações, principalmente por meio de planos de negociação pré-acordados, conforme documentos regulatórios. Embora legais, essas vendas em meio à escalada de riscos são vistas por investidores como um sinal de cautela da própria liderança.

No lado oposto, investidores de dívida preferem empresas com fluxo de caixa mais previsível. “É claro que eles precisarão de uma injeção de capital ou de um resgate financeiro. Estão queimando capital, e o capital não é mais de graça”, disse Alberto Gallo, fundador do fundo de hedge Andromeda Capital. Segundo ele, quem compra títulos quer “dívida de empresas que tenham fluxo de caixa visível” — algo distante da realidade de negócios que despejam bilhões em ativos fixos na esperança de uma demanda futura por capacidade de IA.

Entenda o contexto

A CoreWeave nasceu como mineradora de bitcoin e migrou para a oferta de infraestrutura em nuvem especializada em IA, entrando num grupo de cerca de 100 “neoclouds” monitoradas por consultorias de tecnologia. Essas empresas constroem data centers de altíssimo consumo de energia e investem pesado em chips de última geração para, mais tarde, alugar essa capacidade a desenvolvedores e operadores de modelos de IA.

Esse desenho cria um descompasso: os gastos com terrenos, energia e hardware acontecem agora, enquanto a receita depende de contratos que podem atrasar ou não se concretizar. Consultorias de mercado apontam que esse grupo é “o mais exposto ao desequilíbrio entre receita e investimentos” e preveem que, até 2030, cerca de 80% desses provedores deixarão de operar de forma independente, seja por falência, fusões ou aquisições.

Para Tommaso Leodari, diretor de investimentos do fundo de hedge Index & Cie, sediado em Dubai, o calcanhar de aquiles da CoreWeave é justamente a forma de financiamento. “Estamos em uma situação em que há muitas expectativas em relação às receitas e ao crescimento das receitas, mas esse crescimento está sendo alimentado pelo tipo errado de capital, que é a dívida, e não o patrimônio líquido”, afirmou. “No caso específico da CoreWeave, esses caras estão financiando todo o seu negócio com dívida. Portanto, se algo acontecer na utilização desse ativo específico ou se houver uma desaceleração na construção desses data centers, isso se refletirá em problemas no pagamento da dívida”.

Impacto para Nvidia, mercado de IA e próximos passos

A crise da CoreWeave vai além de uma única empresa. O aperto financeiro ameaça parte da cadeia de negócios da Nvidia, que fechou acordo para comprar a capacidade computacional não vendida da parceira até o início da próxima década, garantindo uma espécie de comprador de última instância para a infraestrutura construída. Se a CoreWeave tiver de cortar ou adiar projetos, o efeito pode chegar a fornecedores de chips e a clientes corporativos que contavam com essa capacidade de nuvem.

Em paralelo, gigantes da tecnologia vêm soando alarmes sobre gargalos de energia e componentes para data centers, além de possível excesso de oferta de chips avançados em alguns segmentos. A combinação de custos altos, crédito caro e ritmo menor de expansão da receita pressiona especialmente as empresas mais alavancadas, como a CoreWeave.

No curtíssimo prazo, o mercado espera uma resposta da companhia: busca de nova rodada de capital próprio, renegociação de prazos e juros da dívida, venda de ativos ou uma combinação dessas medidas. Especialistas não descartam cenários mais drásticos, como uma reestruturação ampla ou a perda da operação independente, em linha com as projeções para o setor de neoclouds.

Enquanto isso, a mensagem que ecoa entre gestores é que a febre da IA entrou numa fase em que paciência de capital e disciplina financeira podem valer tanto quanto os chips mais avançados.

Fonte: matéria original