James Gray e Walter Salles debatem IA e futuro do cinema em SP
Após sessão de Tigre de Papel na 50ª Mostra de SP, James Gray e Walter Salles defendem criação autoral, risco artístico e filmagem em 35mm diante da inteligência artificial.

Inteligência Artificial
Diretores discutem os desafios e oportunidades da IA na criação cinematográfica durante evento em São Paulo.
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James Gray e Walter Salles transformaram o Solar Fábio Prado, na Avenida Faria Lima, em São Paulo, em uma arena para discutir o futuro do cinema diante da inteligência artificial, na quinta-feira, 15 de outubro, durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Após a exibição de Tigre de Papel, filme que abre o festival, os diretores defenderam a criação autoral, o risco artístico e a filmagem em 35mm como antídotos à automação crescente no audiovisual.
Qual foi o tema do debate entre James Gray e Walter Salles na Mostra de São Paulo?
O encontro girou em torno do impacto da inteligência artificial no cinema, dos limites da tecnologia e da persistência da arte autoral.
Homenageado da 50ª edição da Mostra, Gray subiu ao palco ao lado de Walter Salles para uma masterclass seguida de debate presencial. Em clima de amizade — eles se conhecem há mais de três décadas —, falaram sobre como o cinema vem incorporando ferramentas de IA em etapas técnicas como pré-produção, roteiro, efeitos visuais e sonorização, sem, na visão deles, substituir a sensibilidade humana.
A conversa também destacou a defesa do risco artístico em um mercado dominado por grandes corporações, que, segundo Gray, tendem a podar o caráter pessoal das obras. O cineasta norte-americano reforçou que filmes verdadeiramente pessoais continuam sendo o coração do cinema, mesmo em um cenário de automatização crescente.
Como James Gray e Walter Salles abordaram o impacto da inteligência artificial no cinema?
James Gray afirmou que a inteligência artificial pode ajudar em tarefas técnicas, mas nunca alcançará os territórios da criação humana.
“A inteligência artificial nunca vai alcançar a paisagem infinita da alma humana”, disse Gray ao público no Solar Fábio Prado. Segundo ele, a tecnologia já agiliza decupagens de cenas, organização de cronogramas, geração de storyboards, modelagem 3D, criação de cenários, maquiagem digital e rejuvenescimento de atores, além de ajustes finos de voz em produções recentes. Ainda assim, o diretor insiste que há um limite intransponível.
“Se você é um artista, não se preocupe com a inteligência artificial. A IA nunca vai alcançar a paisagem infinita da alma humana. Ela nunca vai chegar lá, nunca vai conseguir fazer isso”, reforçou. Para ilustrar, citou músicas de bandas clássicas recriadas com IA que “soam exatamente” como as originais, mas, na avaliação dele, são vazias: um exemplo de como a imitação de estilo não garante a experiência emocional.
Gray também recorreu à metáfora do corpo e da máquina para falar desse limite. “Há algo inefável que a máquina não consegue capturar. E mesmo se conseguisse, você saberia que foi a IA que fez. É como ver um robô que se parece exatamente com uma pessoa nadando no oceano em uma Olimpíada: quem se importa?”, questionou.
Walter Salles, por sua vez, conduziu a conversa lembrando que a tecnologia sempre atravessou o cinema, mas agora provoca dilemas éticos e artísticos novos. Ao destacar trechos de Tigre de Papel, o brasileiro mostrou como escolhas de linguagem, enquadramento e tempo de cena ainda dependem da intuição humana, por mais sofisticados que sejam os algoritmos que cercam a produção.
Entenda o contexto
O debate ocorre em um momento em que a inteligência artificial se espalha por todo o ciclo de produção audiovisual, de softwares que ajudam a planejar filmagens e prever bilheterias a sistemas capazes de recriar vozes de atores, rejuvenescer rostos e compor cenários inteiros em pós-produção. O uso da tecnologia, ao mesmo tempo em que reduz custos e prazos, acende alertas sobre direitos autorais, ética e autenticidade artística.
A presença de dois diretores com carreira sólida em cinema autoral, um norte-americano e um brasileiro, em uma das principais vitrines de filmes do país, confere peso ao recado dado na Mostra: a IA é bem-vinda como ferramenta, mas não como substituta da experiência humana por trás da câmera.
Risco artístico e autoria em tempos de automação
Ao lado da discussão tecnológica, Gray e Salles voltaram várias vezes ao tema da autoria. Para o diretor de Ad Astra e Tigre de Papel, a força de um filme nasce da exposição de impressões íntimas, não apenas da reprodução de eventos da vida do cineasta. Ele defendeu obras pessoais como forma de resistência a um mercado que prefere fórmulas seguras.
Gray alertou para a “pressão enorme das corporações para remover esse aspecto pessoal, porque ele envolve risco — e o mundo dos negócios odeia o risco”, e incentivou jovens cineastas a se apoiarem na própria experiência. Na visão dele, a função do artista segue sendo profundamente humana: “No final das contas, tudo o que o artista deve fazer é a extensão da nossa compaixão e da nossa simpatia. Nada mais importa.”
Esse chamado ao risco artístico, feito em plena era da IA, tem impacto direto sobre roteiristas, diretores, atores e montadores, que veem parte do trabalho técnico ser automatizado enquanto a aposta na singularidade criativa se torna ainda mais decisiva para a relevância de um filme.
35mm, textura e a “alma” da imagem
Outro ponto forte da masterclass foi a defesa de Gray da filmagem em 35mm. Em um mercado dominado pelo digital, ele argumentou que o suporte analógico preserva textura, profundidade e imperfeições que ajudam a construir a sensação de verdade na tela. Para o diretor, manter vivo o 35mm é também preservar um modo de olhar para o mundo, em que cada decisão de exposição, grão e cor carrega um gesto autoral.
Essa posição impacta diretamente a cadeia de equipamentos, laboratórios e profissionais especializados em película, que ganham fôlego com o apoio de cineastas de prestígio. Ao mesmo tempo, aponta para uma convivência possível entre processos tradicionais e recursos de IA, desde que a tecnologia não atropele a percepção sensorial e afetiva que o cinema analógico ainda provoca.
Uma amizade que reforça o discurso
A longa amizade entre Gray e Salles deu o tom afetivo do encontro e reforçou o peso das declarações. Brincando com essa intimidade, o diretor norte-americano abriu a conversa dizendo: “Isso é trapaça porque o Walter e eu nos conhecemos há muitos anos e ele é um diretor muito melhor do que eu.”
Mais tarde, Salles retribuiu ao lembrar a primeira vez em que viu um filme de Gray, nos anos 1990, e como aquele trabalho o marcou. A sintonia entre os dois cineastas, hoje referência em cinema autoral em seus países, ajudou a transformar o debate em um manifesto compartilhado em defesa de um cinema que arrisca, erra, acerta e se reinventa sem abrir mão da mão humana.
Humano x máquina: a lição de “2001”
Para sintetizar sua visão, Gray recorreu a um clássico da ficção científica. “No fim, e podem ter se passado tantos anos, eu ainda acredito que o debate sobre a IA volta muito no que propõe o filme 2001: Uma Odisséia no Espaço: o ser humano sempre vencerá aquele computador”, afirmou, retomando a imagem do confronto entre o astronauta e o sistema HAL 9000.
Na prática, o recado que sai da Mostra é que a indústria tende a acelerar o uso de IA em bastidores, mas deve enfrentar, a partir de debates como o de quinta-feira, uma pressão maior para estabelecer limites éticos e preservar a autoria. Festivais e instituições culturais já se movem para discutir regras, enquanto cineastas defendem que, em meio à automação, continua valendo a aposta naquilo que nenhuma máquina consegue reproduzir: a “paisagem infinita da alma humana”.
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