Itamaraty reage a Milei e crise com Argentina cresce
Itamaraty chama de inaceitável ingerência externa fala de Javier Milei sobre suposta fraude na eleição brasileira, enquanto Argentina lança plano para demitir 21 mil servidores.

Política
Ministério das Relações Exteriores condena declarações de Milei e tensão bilateral se intensifica.
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O Itamaraty classificou como “inaceitável” e tentativa de ingerência externa as novas declarações do presidente argentino Javier Milei, que voltou a atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a colocar em dúvida a lisura da eleição presidencial brasileira, a menos de uma semana do segundo turno marcado para 25 de outubro.
Itamaraty rebate ataque ao sistema eletrônico e fala em ingerência
Em nota divulgada nesta terça-feira (20), o Ministério das Relações Exteriores afirmou que as ofensas de Milei dirigidas ao Judiciário brasileiro e ao sistema de voto eletrônico “constituem nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro”. O texto responde a uma publicação do argentino no X em que ele, ao compartilhar ataque a Lula, escreveu: “Espero que o último truque sujo de campanha dele não inclua roubar a eleição… esquerdista ladrão”.
O Itamaraty destacou que o presidente argentino “reitera mentiras” e que a manifestação é antidemocrática, desequilibrada e incompatível com a postura esperada de “chefe de Estado de um país amigo”. A chancelaria também reforçou a defesa do sistema eletrônico de votação, ao afirmar que “o sistema brasileiro de voto eletrônico é comprovadamente seguro, nunca registrou irregularidades e observadores eleitorais do mundo inteiro já ratificaram essa realidade no primeiro turno das eleições”.
Na nota, o governo brasileiro sublinha ainda que a decisão sobre o futuro do país cabe “exclusivamente ao povo brasileiro, sem qualquer tipo de ingerência externa”. O recado é dado em meio à reta final da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, candidato apoiado abertamente por Milei.
Crise diplomática e rebaixamento de relações
A troca de ataques empurra Brasil e Argentina para a pior crise diplomática em décadas. O desgaste se intensifica desde que Milei participou da convenção do PL que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência, em solo brasileiro, ocasião em que chamou Lula de “presidiário” e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de “lixo careca”.
Diante da escalada, o Itamaraty chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para consultas e pediu explicações ao embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi. Mesmo após o chanceler argentino, Pablo Quirno, dizer que não havia intenção de ruptura com o Brasil, Milei manteve o tom e seguiu chamando Lula de “ladrão” em entrevistas.
Como resposta, o governo brasileiro rebaixou o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires e decidiu não enviar Bitelli de volta. Raimondi também deixou o Brasil dias depois de ser informado da medida. Agora, os dois países mantêm apenas encarregados de negócios à frente das representações. No caso brasileiro, a chefia da embaixada na Argentina está a cargo do ministro-conselheiro Eduardo Uziel.
Além de expor divergências políticas e ideológicas, a ruptura de confiança entre os governos ameaça respingar em áreas sensíveis da relação bilateral, como comércio, turismo e coordenação em fóruns regionais, num momento em que a região se prepara para a visibilidade adicional trazida pelo Mundial de Seleções de 2026, que será sediado em México, Estados Unidos e Canadá.
O que é o plano de demissão voluntária na Argentina?
O novo plano de demissão voluntária do governo Javier Milei prevê o corte de 21.187 servidores da administração pública nacional centralizada, com início em 1º de novembro e duração de um mês. As vagas serão extintas permanentemente, e quem aderir ficará proibido de voltar ao serviço público por 8 anos, segundo o decreto publicado em Buenos Aires.
A medida, apresentada pelo Ministério da Desregulação e Transformação do Estado, comandado por Federico Sturzenegger, faz parte da política de austeridade que já eliminou mais de 77 mil postos no setor público argentino desde o início do atual governo, incluindo áreas civis, militares, de segurança e empresas estatais. “Continuamos buscando maneiras de reduzir o gasto público para continuar baixando impostos”, escreveu Sturzenegger ao defender o plano.
Os pagamentos oferecidos variam conforme idade e tempo de serviço, e o decreto condiciona a adesão de servidores que têm mandato sindical à renúncia a essas funções. A intenção declarada do governo é promover uma “adequada e eficiente alocação dos recursos públicos”, reduzir o tamanho do Estado e abrir espaço para cortes de tributos.
Sindicatos falam em “demissão extorsiva” e prometem reação
A Associação de Trabalhadores do Estado (ATE), principal sindicato do funcionalismo nacional, anunciou mobilizações contra o decreto e acusa Milei de chantagear os servidores. “Não é desligamento voluntário, é demissão extorsiva. A rejeição a este decreto é total”, afirmou o secretário-geral da entidade, Rodolfo Aguiar, em publicação nas redes sociais.
Segundo o sindicato, trabalhadores vêm sendo pressionados com ameaças de perda de estabilidade, demissões sem indenização e corte de assistência médica, num cenário em que a alternativa ao plano seria ser colocado em disponibilidade e, na sequência, dispensado em piores condições. A ATE também criticou o uso de um empréstimo de US$ 300 milhões aprovado junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento para financiar a primeira etapa do programa, que prevê ainda desregulamentações e privatizações e pode chegar a uma linha de crédito total de US$ 800 milhões.
O pacote de Milei inclui ainda uma ofensiva regulatória: desde o ano passado, o governo afirma já ter modificado ou revogado quase 2,9 mil normas, como parte da reestruturação estatal conduzida por Sturzenegger.
Entenda o contexto
A estratégia de enxugamento do Estado vem acompanhada por forte ajuste fiscal e recessão. De acordo com dados citados pelo próprio governo, mais de 77 mil servidores foram desligados desde o início da atual gestão. No mesmo período, o setor privado formal perdeu 270 mil empregos, enquanto a administração afirma ter criado 400 mil vagas somando trabalho informal e autônomo, num mercado em que a informalidade já se aproxima de 45%.
Na prática, os cortes em série pressionam serviços públicos e aumentam a tensão social, especialmente entre famílias que dependem de empregos estatais e da rede pública de saúde, educação e assistência. A imposição de um intervalo de 8 anos sem possibilidade de retorno ao setor público e a exigência de renúncia a mandatos sindicais para quem aderir ao plano também são vistas por centrais sindicais como tentativa de enfraquecer a organização dos trabalhadores.
No tabuleiro regional, as medidas econômicas duras de Milei, somadas à retórica agressiva contra Lula e instituições brasileiras, elevam o grau de incerteza sobre a capacidade de Brasil e Argentina de coordenar posições em temas comerciais e políticos, num momento em que ambos ainda são os dois maiores sócios do Mercosul e interlocutores centrais na América do Sul.
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