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Política

Homenagem a Adriano pressiona Flávio Bolsonaro na eleição 2026

Homenagem dada por Flávio Bolsonaro ao ex-capitão Adriano da Nóbrega em 2005, hoje associado a milícias, volta ao centro da campanha de 2026 e alimenta debate sobre política e crime organizado.

Homenagem a Adriano pressiona Flávio Bolsonaro na eleição 2026

Política

A homenagem de Flávio Bolsonaro a Adriano da Nóbrega reacende discussões sobre sua influência na campanha eleitoral de 2026.

Uma homenagem feita por Flávio Bolsonaro ao então capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, em junho de 2005, reaparece com força na campanha eleitoral deste ano e pressiona o senador, hoje candidato ao Planalto, em meio a acusações de proximidade com milícias no Rio de Janeiro.

Como foi a homenagem a Adriano da Nóbrega

Naquele período, Flávio, em seu primeiro mandato como deputado estadual, propôs e entregou pessoalmente a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio, a Adriano da Nóbrega. A justificativa oficial era a participação do então oficial do Bope em uma operação no Morro da Coroa, na capital fluminense, em que, segundo a justificativa do título, ele prendeu 12 marginais e apreendeu fuzis, pistolas, munições, granada, submetralhadora, faca e 90 trouxinhas de maconha.

Quando recebeu a homenagem, Adriano estava preso, acusado de matar um guardador de carros que teria denunciado episódios de tortura e extorsão. Flávio foi ao Batalhão Especial Prisional para entregar a medalha na cela e, anos depois, admitiu ter visitado “inúmeras vezes” o local dizendo defender policiais militares que, em sua avaliação, estariam presos injustamente.

Já na Presidência da República, Jair Bolsonaro afirmaria que foi ele quem orientou o filho a agraciar o ex-capitão. “Naquele ano ele era um herói da Polícia Militar”, disse o então presidente, ao comentar o caso após a morte de Adriano.

De herói do Bope a líder de milícia

Com o tempo, a trajetória de Adriano tomou outro rumo. Ele passou a ser apontado por investigações como um dos líderes de milícia na zona oeste do Rio e integrante do grupo de extermínio conhecido como Escritório do Crime. Foragido em 2019, foi localizado no interior da Bahia e acabou morto em uma operação policial em 2020, cercado por suspeitas sobre a dinâmica da ação.

Em depoimento ao Ministério Público fluminense, em 2020, Flávio declarou que conheceu Adriano no Bope, onde o então capitão lhe dava instrução de tiro. Segundo o senador, o encontro ocorreu “por intermédio do Queiroz, que serviu com ele no batalhão”, numa referência a Fabrício Queiroz, ex-assessor de confiança da família Bolsonaro.

Anos depois, durante uma sabatina televisionada, Flávio tentou minimizar o alcance da homenagem. Ele disse que o ato foi “feito há mais de 20 anos […] no momento em que ele era um policial reconhecido” e vinculou a prisão de Adriano à época à suposta existência de uma “política” de punir primeiro o policial para só depois averiguar se ele era inocente, tese que não foi confirmada por perícias oficiais.

Entenda o contexto

A relação de Flávio com o ex-capitão não se resumiu à medalha. O senador admitiu ter sido um parlamentar que gostava de “conhecer os policiais que iam para o combate”, e a aproximação com integrantes das forças de segurança virou marca de sua atuação política no Rio.

Nesse ambiente, Adriano da Nóbrega ganhou projeção tanto na PM quanto, posteriormente, em investigações sobre grupos armados ilegais. A morte dele, em circunstâncias contestadas por familiares e por entidades de direitos humanos, reforçou o interesse em ligações políticas de personagens próximos ao Escritório do Crime e a milícias da zona oeste carioca.

Como Flávio Bolsonaro reage às acusações de vínculo com milícias?

Flávio Bolsonaro tem evitado responder diretamente a perguntas sobre a medalha concedida a Adriano, mas procura reposicionar o debate falando em endurecer o combate ao crime organizado. Em eventos recentes, ele tem defendido que facções criminosas e milícias sejam enquadradas como grupos narcoterroristas.

“Qualquer criminoso que imponha medo coletivo e adote as práticas do CV e PCC tem de ser enquadrado como terrorista, [milicianos] incluídos”, afirmou o senador em um fórum sobre segurança pública. Nas respostas ao presidente Lula, ele diz que as propostas do adversário são frágeis e provoca: “Os bandidos sempre ficam felizes quando o petista fala em segurança pública”.

Ao comentar a homenagem, Flávio costuma repetir que, naquele momento, Adriano seria visto institucionalmente como um policial de destaque e que, na avaliação dele, o ex-capitão estaria sendo “falsamente acusado” de homicídio. A versão confronta laudos e investigações que contestaram a tese de troca de tiros apresentada pela defesa, embora Adriano tenha acabado absolvido do caso anos depois.

Lula explora episódio na campanha de 2026

O presidente Lula transformou o caso em um dos principais flancos da campanha deste ano contra o adversário. Em debate televisivo recente, ao ser chamado por Flávio para se aproximar no estúdio, Lula recusou: disse que queria distância de miliciano, numa referência direta às suspeitas que cercam o senador.

Em ato em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, Lula reiterou a estratégia. Afirmou que não pretende ver “representação de miliciano” dentro do Palácio do Planalto e vinculou o episódio da medalha de 2005 a um suposto projeto de poder ancorado em milícias e grupos de extermínio.

A campanha de Flávio não respondeu a questionamentos específicos sobre as visitas ao Batalhão Especial Prisional, a entrega da Medalha Tiradentes na prisão e a relação posterior com Adriano da Nóbrega, mantendo a linha de focar em propostas de segurança e em críticas ao governo atual.

O que dizem os pesquisadores sobre Flávio e as milícias

Especialistas ouvidos por órgãos de investigação e em estudos acadêmicos afirmam que, até agora, não há provas materiais que liguem diretamente Flávio Bolsonaro a esquemas de milícia — mas apontam sinais de afinidade política e ideológica com esse universo.

“Em termos de participação em esquemas milicianos, em compra de votos, recebimento de grana, isso aí não tem. Eles não são burros a esse ponto”, avalia o sociólogo José Cláudio Sousa Alves, professor e estudioso do tema. Para ele, o vínculo se expressa mais em discursos e práticas que “reforçam a lógica das milícias, do extermínio, da execução sumária e de aplaudir operações sanguinárias”.

Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, destaca os laços do gabinete de Flávio com familiares de Adriano. Ele aponta a nomeação da mãe e da ex-mulher do ex-capitão como o aspecto mais próximo “de um batom na cueca” em relação à milícia. “A ligação com dois nomes publicamente associados à milícia” é o que o pesquisador vê como ponto mais delicado na trajetória do senador.

Rachadinha e cargos para a mãe e a ex-mulher de Adriano

No período em que atuou na Assembleia fluminense, Flávio Bolsonaro nomeou para seu gabinete Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, e Danielle Mendonça da Costa, ex-mulher do ex-capitão. As duas ocuparam cargos de confiança até serem exoneradas em novembro de 2018, pouco depois da eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência.

Segundo as investigações, Fabrício Queiroz, homem de confiança do clã Bolsonaro e ex-assessor de Flávio, intermediou as contratações. A suspeita do Ministério Público é que Raimunda e Danielle atuavam como funcionárias fantasmas, repassando parte dos salários para Queiroz, num esquema de desvio conhecido como rachadinha.

O caso originou uma denúncia criminal, mas, em 2021, a Justiça anulou quebras de sigilo bancário e fiscal consideradas centrais pela acusação, o que derrubou a denúncia. Flávio não foi absolvido ou declarado inocente: o processo foi esvaziado por decisão judicial, e a discussão sobre a legalidade das provas ainda é tema de embates jurídicos e políticos.

Apesar do revés para o Ministério Público, a revelação dos vínculos entre o gabinete do então deputado e familiares de um miliciano apontado como chefe do Escritório do Crime alimenta, até hoje, o discurso de adversários que veem nessa relação um exemplo da proximidade entre política e crime organizado no Rio.

Impacto na política e na segurança pública

A soma da homenagem com os cargos dados à família de Adriano fez do episódio um símbolo da discussão sobre a presença de milícias na política fluminense. Para organizações civis e pesquisadores, a conexão entre mandatos parlamentares e grupos paramilitares ajuda a consolidar o controle territorial e eleitoral dessas redes, com reflexos diretos na vida de moradores de áreas dominadas.

Na arena institucional, a polêmica pressiona órgãos de investigação e a Justiça a avançar em apurações sobre o financiamento e a proteção política de milícias e grupos de extermínio. Ao mesmo tempo, alimenta a desconfiança de parte do eleitorado em relação à capacidade do Estado de combater o crime organizado quando figuras centrais da política são questionadas sobre seus vínculos com esses grupos.

Em plena reta final de campanha, a Medalha Tiradentes entregue há mais de uma década segue no centro do embate entre governo e oposição e tende a continuar sendo usada como arma retórica em debates sobre segurança pública, corrupção e o alcance político das milícias no Rio e no país.

Fonte: matéria original