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Inteligência Artificial

Ataques anti-IA nos EUA crescem 50% e alarmam especialistas

Tiros contra vereador, coquetel molotov na casa de Sam Altman e vandalismo a câmeras de IA nos EUA acendem alerta para risco de terrorismo motivado por oposição à tecnologia.

Ataques anti-IA nos EUA crescem 50% e alarmam especialistas

Inteligência Artificial

Incidentes violentos contra tecnologia de IA aumentam, gerando preocupações sobre segurança e terrorismo nos EUA.

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Dois ataques violentos contra alvos ligados à inteligência artificial e a centros de dados nos Estados Unidos, somados a uma onda de vandalismo contra câmeras de vigilância com IA, acendem o alerta de pesquisadores para o risco de que a rejeição à tecnologia se transforme em motivação para terrorismo.

O que é o sentimento anti-IA e como ele pode levar ao terrorismo?

O sentimento anti-IA é a rejeição ao avanço da inteligência artificial e da infraestrutura necessária para sustentar essa tecnologia, alimentada por medos sobre perda de empregos, impactos ambientais de centros de dados e riscos de sistemas cada vez mais autônomos; quando parte desse movimento passa a defender a violência como ferramenta política, ele se aproxima do terrorismo.

Nos casos recentes avaliados por pesquisadores do Center for Strategic and International Studies (CSIS), a insatisfação não ficou restrita a protestos. Em Indianápolis, um autor ainda não identificado disparou 13 vezes contra a porta da casa do vereador Ron Gibson, deixando um bilhete com a mensagem “NO DATA CENTERS” após o político apoiar um centro de dados de US$ 500 milhões em sua região.

Quatro dias depois, em São Francisco, Daniel Moreno-Gama, de 20 anos, lançou um coquetel molotov contra a residência de Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI, e tentou incendiar a sede da empresa. Ele carregava um documento intitulado “Seu último aviso”, no qual defendia o assassinato de executivos e investidores de empresas de IA, listando nomes e endereços. Para o CSIS, episódios como esses se enquadram na definição de terrorismo por envolverem violência de atores não estatais com objetivo político e caráter intimidatório.

O estudo destaca que a maior preocupação não é o crescimento do debate crítico sobre tecnologia, mas o risco de que uma parte dos opositores conclua que eleições, negociações e protestos pacíficos não bastam, passando a tratar ataques físicos a pessoas e infraestrutura como meio legítimo de barrar a IA. “A preocupação central não é simplesmente o crescimento da oposição à IA, mas a possibilidade de que uma parcela desse movimento passe a considerar a violência um instrumento legítimo e necessário para impedir o avanço da tecnologia”, afirma o CSIS.

Ataques miram políticos, executivos e infraestrutura

No ataque em Indianápolis, registrado de madrugada, Ron Gibson e o filho pequeno dormiam em casa quando os tiros atingiram a porta da residência. A polícia tratou o caso como ataque direcionado, e o FBI entrou na investigação. O centro de dados que motivou a reação é alvo de críticas de moradores por causa do consumo de água e energia e do risco de poluição, enquanto autoridades locais defendem o investimento bilionário como motor de desenvolvimento econômico.

Em São Francisco, o alvo foi um dos principais nomes da indústria de IA. Depois de incendiar o portão da casa de Sam Altman, Daniel Moreno-Gama seguiu até a sede da OpenAI com querosene e artefatos incendiários, vandalizou portas de vidro com uma cadeira e ameaçou matar quem estivesse no prédio. Ele responde a acusações federais ligadas ao uso de explosivos e a acusações estaduais que incluem tentativas de homicídio, e se declarou inocente.

Para além dos ataques diretos a pessoas, a infraestrutura associada à IA também entrou na mira. O levantamento do CSIS aponta a destruição de mais de 240 câmeras de reconhecimento de placas da empresa Flock Safety em diferentes regiões dos Estados Unidos até setembro, em uma campanha de vandalismo contra sistemas de vigilância baseados em inteligência artificial.

Entenda o contexto

A oposição à IA e aos centros de dados vem de frentes distintas. Há moradores de áreas onde grandes instalações são planejadas, preocupados com consumo de água, energia e aquecimento local. Há trabalhadores e sindicatos receosos com a automação de tarefas e a substituição de empregos. E há grupos que enxergam a tecnologia como ameaça existencial ou como ferramenta de vigilância em massa.

Esse caldo de insatisfação abre espaço para apropriação por extremistas. O estudo identifica, por exemplo, grupos supremacistas brancos em Michigan e no Texas que tentam colar sua agenda antissemita à rejeição a centros de dados, exibindo faixas e adesivos que misturam críticas à infraestrutura tecnológica com ataques a judeus. Para os pesquisadores, a resistência à IA pode se combinar com outras formas de radicalização já existentes, como ódio a minorias e aversão ao governo.

Ao mesmo tempo, movimentos políticos tradicionais, partidos e organizações civis começam a incorporar o tema da IA a debates sobre emprego, poder das big techs, liberdade de expressão, desinformação e privacidade. Segundo o CSIS, esses canais institucionais podem ajudar a amortecer tensões, oferecendo alternativas de participação que não passam pela violência.

Quais são os riscos do sentimento anti-IA para a segurança pública?

Os riscos imediatos envolvem ataques a autoridades locais, executivos de tecnologia e infraestrutura crítica, como centros de dados e sistemas de vigilância com IA, o que pressiona serviços de segurança pública, encarece projetos e amplia a sensação de insegurança em comunidades afetadas.

No plano pessoal, políticos como Ron Gibson lidam com ameaças físicas, depois de decisões favoráveis a grandes empreendimentos tecnológicos. No setor privado, executivos como Sam Altman se tornam alvos simbólicos de quem vê a indústria de IA como inimiga, o que já leva empresas e lideranças a reforçarem esquemas de proteção.

Para o poder público, uma escalada de violência anti-IA significaria mais recursos destinados a proteção de edifícios governamentais, centros de dados, câmeras de vigilância e redes de telecomunicações, além de investigações complexas para identificar autores que, em muitos casos, atuam de forma isolada. O próprio CSIS alerta que, mesmo sem uma campanha coordenada, ataques esporádicos podem inspirar imitadores, criando um efeito de contágio.

Outro risco central é a deterioração do debate público. Se a oposição à IA passar a ser associada principalmente a atos violentos ou a grupos extremistas, cresce a polarização e diminui o espaço para discussões sobre impactos ambientais, inclusão social e regulação da tecnologia. Isso pode atrasar decisões importantes de política pública, afastar investimentos e ampliar o sentimento de abandono entre comunidades que já se sentem prejudicadas pela transformação digital.

Até agora, o CSIS não vê sinais de uma “nova onda” organizada de terrorismo ligada à IA, mas ressalta que o quadro pode mudar caso surjam indícios de coordenação entre atacantes, repetição de métodos ou defesa aberta da violência em comunidades radicais que usam o tema da inteligência artificial como bandeira.