Deepfakes nas eleições 2026 crescem 308% e enganam eleitores
Relatório do projeto VigIA mostra 920 conteúdos com IA no 1º turno das eleições de 2026, maioria criada por anônimos e com só 40% de rotulagem correta, o que acende alerta para desinformação.

Inteligência Artificial
Aumento expressivo de deepfakes nas eleições de 2026 gera preocupação sobre a veracidade das informações entre eleitores.
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Imagens e vídeos gerados por inteligência artificial inundam as redes no primeiro turno das eleições de 2026 no Brasil: de 1.941 conteúdos suspeitos analisados pelo projeto VigIA, 920 foram confirmados como uso de IA, em boa parte em deepfakes de jornalistas, celebridades e memes sobre o presidente Lula — e a maioria circula sem qualquer indicação clara de que é material sintético.
Deepfakes crescem e saem do controle de campanhas
Segundo o Observatório Lupa, “o uso de deepfakes cresceu mais de 308% entre 2024 e 2026”. O relatório do VigIA mostra que “usuários comuns e anônimos produziram 60% das 920 publicações identificadas durante o primeiro turno”, revelando que o fenômeno se espalha muito além das estruturas oficiais de campanha.
Esse conteúdo se concentra em montagens humorísticas e peças de engajamento político, mas também inclui vídeos falsos de jornalistas e celebridades. Na prática, boa parte do debate eleitoral passa a ser atravessada por imagens e falas que nunca aconteceram, compartilhadas por perfis difíceis de rastrear.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já trabalha com uma definição específica para esse tipo de material. Para o órgão, “deepfake é conteúdo sintético produzido ou manipulado por IA ou tecnologia equivalente, com realismo ou verossimilhança, que crie, reproduza ou altere imagem, voz ou manifestação de pessoa viva, falecida ou fictícia”.
Rotulagem falha e impulsionamento político
O relatório do VigIA expõe um gargalo central: “apenas 371 dos 920 conteúdos confirmados estavam rotulados corretamente, cerca de 40% do total”. Isso significa que a maior parte das peças geradas por IA circula como se fosse registro real, sem aviso ao usuário comum.
Entre os 920 conteúdos analisados, o projeto identificou 549 publicações irregulares, que descumprem exigências de transparência. Destas, 75 receberam impulsos diretos de candidatos ou partidos políticos, em ações pagas para ampliar o alcance. Ou seja, mesmo sem serem os principais produtores, campanhas ajudam a turbinar esse tipo de material.
Para chegar aos números, o VigIA avaliou 972 imagens e vídeos dentro de um universo de 1.941 conteúdos suspeitos e usou três ferramentas automatizadas de detecção, validadas por pesquisadores, para separar peças reais de produções sintéticas.
Entenda o contexto
O avanço de modelos de inteligência artificial generativa tornou mais fácil, rápido e barato criar fotos, áudios e vídeos falsos com aparência realista. Em eleição nacional, esse cenário potencializa tanto a criatividade de apoiadores quanto o risco de desinformação.
Especialistas e o próprio TSE apontam que a obrigação de rotular conteúdos gerados por IA é hoje uma das principais fronteiras regulatórias no ambiente digital. Sem indicação clara, o eleitor tem dificuldade de distinguir sátira de manipulação mal-intencionada — e de saber quem é responsável pelo que circula.
Do lado das plataformas, o desafio é desenvolver sistemas de verificação que acompanhem o volume e a sofisticação dos deepfakes, sem atingir publicações legítimas e sem sufocar a liberdade de expressão.
Humor domina, mas cenário acende alerta
Bruno Sartori, um dos pioneiros no estudo de deepfakes no Brasil, avalia que o quadro atual não é dominado pelo crime organizado digital, mas por um ambiente de entretenimento politizado. “O cenário teve predomínio de conteúdos de humor e engajamento, como memes sobre o presidente Lula, e poucos registros de aplicações estritamente criminosas”, afirma.
Isso não reduz a preocupação de quem acompanha o tema. O volume de publicações, o crescimento acelerado em dois anos e a baixa taxa de rotulagem mostram que uma parte relevante da conversa política online está ancorada em conteúdos manipulados, com fronteiras pouco nítidas entre piada, propaganda e desinformação.
A expectativa de pesquisadores e autoridades é que o TSE avance em normas mais detalhadas para IA e deepfakes nas próximas disputas, e que políticas públicas ajudem a criar padrões de rotulagem, auditoria de ferramentas e responsabilização de quem financia a amplificação de conteúdos enganosos.
Para que serve a história?
A história serve para entender como processos e decisões do passado moldam desafios atuais, como o uso de novas tecnologias em eleições. Ao analisar trajetórias de outras inovações — da chegada do rádio à popularização das redes sociais —, historiadores ajudam a comparar momentos, identificar padrões de manipulação e reação institucional, e mostrar como sociedades já lidaram com mudanças bruscas na forma de comunicar.
Esse olhar permite relativizar alarmismos e, ao mesmo tempo, reconhecer riscos reais. No caso da inteligência artificial e dos deepfakes, a história oferece referências sobre como a desinformação atuou em outros contextos, quais mecanismos funcionaram para limitar seus efeitos e que tipo de regulação se mostrou eficaz ou exagerada.
A história é considerada uma ciência?
Sim. A história é considerada uma ciência porque trabalha com métodos próprios de investigação, análise crítica de fontes e construção de interpretações fundamentadas sobre o passado. Diferente das ciências exatas, ela lida com fenômenos sociais e culturais, mas segue critérios rigorosos para checar documentos, confrontar versões e explicar mudanças ao longo do tempo.
No debate sobre IA e eleições, essa abordagem científica ajuda a separar o que é novidade tecnológica do que repete mecanismos antigos de propaganda, boatos e manipulação, contribuindo para políticas públicas mais sólidas e menos guiadas apenas por impulsos imediatos.


