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Gestão de TI

87% dos líderes dizem que IA superará Big Bang financeiro UK

Pesquisa com líderes do setor financeiro britânico aponta que a inteligência artificial deve provocar uma transformação mais profunda que o Big Bang de 1986, com efeitos além de Londres.

87% dos líderes dizem que IA superará Big Bang financeiro UK

Inteligência Artificial

Estudo revela que líderes financeiros no Reino Unido preveem mudanças profundas causadas pela IA, ultrapassando eventos históricos.

Leia também: Paradoxo da maturidade tecnológica pressiona líderes de TI hoje

A inteligência artificial deve provocar uma transformação mais profunda no setor financeiro do Reino Unido do que o Big Bang que, há décadas, redesenhou a praça londrina, e desta vez com ganhos espalhados por centros regionais. É o que indica um novo levantamento com executivos do mercado, segundo o qual 87% dos líderes de serviços financeiros acreditam que a IA terá impacto maior que o das reformas que consagraram Londres como centro financeiro global.

Como os líderes do setor financeiro avaliam o impacto da IA comparado ao Big Bang?

De acordo com a pesquisa Financial Services Sentiment Survey, 87% dos executivos do setor financeiro britânico avaliam que a inteligência artificial será mais transformadora para a indústria do que o Big Bang. Para eles, a diferença agora não está apenas na tecnologia, mas na forma como a IA reorganiza modelos de negócios, trabalho humano e geografia do mercado.

Fiona Fry, diretora não executiva independente e ex-parceira da KPMG, começou a carreira justamente na fase do Big Bang e lembra como era o cotidiano nas mesas de operação de Londres. “Memos eram manuscritos e entregues, as comunicações entre organizações eram por carta, e a maioria dos programas de computador era muito básica, exigindo principalmente entradas manuais. Os dias de estar ‘sempre conectado’ ainda não tinham chegado, pois a tecnologia não o seguia para casa”, afirma.

Desde então, o setor incorporou celulares, conexão global, nuvem e análise em tempo real, mas, na visão de Fry, nada se compara ao que vem pela frente. “A IA vai superar os desenvolvimentos tecnológicos que vi ao longo de quatro décadas. Ela permitirá que as empresas entendam seu desempenho competitivo de uma forma nunca imaginada, fornecendo análises muito mais profundas do desempenho do produto e do comportamento do cliente, possibilitando que aqueles que a adotarem prosperem e cresçam”, diz. “Os clientes também se beneficiarão, recebendo produtos financeiros mais direcionados às suas necessidades específicas.”

Entenda o contexto

O Big Bang ficou marcado pela desregulamentação e pela digitalização das negociações, que substituíram processos em papel e concentraram ainda mais poder financeiro em Londres. Essa virada consolidou a capital como polo dominante, enquanto outras regiões do Reino Unido tiveram participação bem menor nos ganhos.

Agora, com a inteligência artificial se espalhando por bancos, seguradoras e gestoras de investimento, a leitura dos executivos é de que a próxima onda tecnológica não apenas mudará a operação, mas também quem se beneficia dela. A pesquisa aponta que 88% dos líderes acreditam que os efeitos positivos da IA serão sentidos de forma mais ampla pelo país.

Quais são os principais objetivos da inteligência artificial nos serviços financeiros atualmente?

No centro dessa nova fase está o uso intensivo de dados para redesenhar o negócio. As empresas veem a inteligência artificial em serviços financeiros como ferramenta para três objetivos principais: ganhar vantagem competitiva, personalizar produtos e tornar operações mais eficientes.

Do lado comercial, a IA permite analisar com muito mais precisão o desempenho de cada produto e o comportamento de cada cliente, ajustando taxas, limites, ofertas e canais de atendimento quase em tempo real. Isso vale para crédito, investimentos, seguros e serviços de pagamento. A promessa é de pacotes financeiros desenhados sob medida, o que, na visão dos executivos, tende a melhorar a experiência do consumidor e aumentar a fidelização.

Internamente, algoritmos são usados para automatizar tarefas repetitivas de backoffice, cruzar bases de dados regulatórias, monitorar riscos e identificar fraudes com antecedência maior que a possível para equipes humanas. A expectativa é de redução de custos operacionais, decisões mais rápidas e maior precisão em áreas como concessão de crédito, precificação e gestão de risco.

Impactos regionais e redistribuição de ganhos

Uma das principais diferenças em relação ao Big Bang está na geografia. A mesma pesquisa mostra que 88% dos executivos acreditam que os benefícios da IA serão distribuídos mais amplamente pelo Reino Unido, e não apenas concentrados na City londrina. Mais da metade dos respondentes defende que, na próxima década, o equilíbrio entre Londres e outros centros financeiros deve mudar em favor das regiões, enquanto apenas 21% acham que a concentração na capital deveria aumentar.

Para Karim Haji, líder global e do Reino Unido em serviços financeiros da KPMG, a IA abre uma oportunidade de correção de rota. “O Big Bang gerou crescimento significativo e transformou os mercados financeiros do Reino Unido, mas seus benefícios não foram sentidos igualmente em todo o país. A IA oferece um caminho diferente, com líderes do setor financeiro vendo-a como o próximo Big Bang para impulsionar a inovação e o crescimento mais forte e de longo prazo em centros regionais”, afirma.

Esse movimento passa por atrair operações de tecnologia, análise de dados e atendimento especializado para cidades fora de Londres, apoiadas por infraestrutura digital e mão de obra qualificada. Na prática, isso pode significar novos polos de bancos digitais, hubs de fintechs e equipes de risco e compliance distribuídas por diferentes regiões.

Empregos sob pressão e novas habilidades

O entusiasmo com a eficiência da IA vem acompanhado de preocupação com o emprego, especialmente depois de grandes bancos britânicos anunciarem cortes de milhares de postos, parte deles ligados à automação e ao uso intensivo de tecnologia. No mercado, cresce o temor de que sistemas inteligentes substituam funções inteiras em operações de backoffice e atendimento.

Fiona Fry faz um paralelo com a onda de informatização que se seguiu ao Big Bang. “Na minha opinião, assim como os computadores acabaram com o carteiro de escritório, a IA significará menos empregos altamente repetitivos, enquanto o julgamento humano em garantia, identificação de riscos e supervisão se tornará mais importante, não menos”, avalia.

Segundo executivos ouvidos no levantamento, funções operacionais tradicionais tendem a encolher, enquanto ganham espaço áreas ligadas a tecnologia financeira, ciência de dados, segurança cibernética, regulação e gestão de risco. Isso deve alimentar pressões por programas de requalificação profissional e por políticas públicas voltadas à adaptação da força de trabalho.

Nos próximos anos, o setor financeiro britânico deve acelerar investimentos em infraestrutura digital, projetos de IA e capacitação de equipes. A expectativa de executivos e consultores é que o resultado seja uma indústria mais eficiente, inovadora e menos concentrada em Londres — mas que terá de administrar, em paralelo, uma transição delicada para um modelo em que máquinas assumem tarefas rotineiras e humanos ficam com as decisões mais complexas.