CIOs mudam foco na era da IA e enfrentam novo desafio em TI
Com nuvem, automação e IA ao alcance de todos, a grande escassez na TI hoje não é mais tecnologia, mas atenção, contexto organizacional e bom julgamento para priorizar investimentos.

Tech Desk
Executivos de TI ajustam estratégias para lidar com prioridades e decisões em um cenário dominado por IA e automação.
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Líderes de tecnologia vivem uma virada silenciosa nas empresas: com nuvem, automação e inteligência artificial amplamente disponíveis, o maior desafio da área de TI já não é ter acesso à tecnologia, mas decidir, com atenção e bom julgamento, quais iniciativas realmente merecem avançar dentro do contexto organizacional.
Por que a tecnologia não é mais o recurso mais escasso em TI?
Hoje, praticamente qualquer empresa consegue contratar plataformas em nuvem, soluções de analytics, ferramentas de automação e recursos de IA em modelo de serviço, o que faz da tecnologia um insumo abundante, e não mais um gargalo. O limite passa a ser a capacidade da organização de escolher, implementar e absorver essas capacidades, sem desperdiçar tempo, dinheiro e energia em projetos que não geram resultado concreto.
Ferramentas como Azure, Fabric, Power Platform e o próprio Microsoft Copilot ilustram essa expansão acelerada de opções. A barreira de entrada tecnológica cai, mas a complexidade de escolha aumenta. Cada novo serviço disponível vira uma decisão: vale investir agora, preparar o terreno ou deixar para depois?
Nesse cenário, sai de cena a lógica em que “mais tecnologia” era sinônimo automático de progresso. Ganham força perguntas mais difíceis: onde isso melhora o trabalho de verdade? Quem será responsável pelo resultado? Que processos, dados, governança e preparação de gente precisam vir antes?
Quais recursos estão se tornando mais escassos que a tecnologia em TI?
O recurso mais raro na TI hoje é a combinação de atenção, entendimento do contexto do negócio e julgamento para separar oportunidades relevantes de modismos. Não falta ferramenta; falta foco qualificado para decidir em que a organização vai colocar sua capacidade limitada de execução.
Ao comentar essa mudança, Michele Carvalho, diretora sênior de Desenvolvimento de Produto e Preparação da SoftwareOne, resume a nova tensão vivida pelos CIOs: “Uma das decisões mais importantes que um CIO pode tomar é o que não acelerar. Se a organização não consegue explicar como uma nova capacidade mudará o trabalho, quem será responsável pelo resultado e o que precisa estar em vigor primeiro, a velocidade pode se tornar uma distração em vez de uma vantagem”.
Além da atenção, pesa a capacidade de absorção da empresa: processos, pessoas, governança e arquitetura de TI. Empilhar soluções sem domínio claro do que já foi adotado tende a criar obrigações, dependências e custos adicionais, sem contrapartida em produtividade ou receita.
Entenda o contexto
Por muitos anos, as áreas de TI eram forçadas a fazer escolhas duras porque hardware, software e capacidade de processamento eram caros e limitados. Estratégias inteiras eram construídas a partir das restrições tecnológicas e orçamentárias.
Com a maturidade da nuvem e dos modelos de assinatura, a lógica se inverteu. Setores intensivos em tecnologia — como desenvolvimento de produtos, atendimento ao cliente e operações internas — ganharam acesso rápido a capacidades sofisticadas. Ao mesmo tempo, a pressão competitiva empurra empresas a anunciar iniciativas ousadas em IA, dados e automação.
Nesse ambiente, a tentação é “não ficar para trás” e contratar tudo que parece inovador. Mas ser o primeiro a ligar um recurso não garante vantagem competitiva se a organização não estiver pronta para usá-lo com propósito.
Como a mudança na escassez de recursos impacta a gestão de TI nas empresas?
Para os CIOs, a principal consequência é a necessidade de redesenhar a gestão de TI em torno de prioridades de negócio, e não da simples disponibilidade de tecnologias novas. Em vez de sair implantando recursos em massa, o foco passa a ser escolher poucas apostas relevantes, com patrocinador claro, caso de uso definido e métricas de sucesso.
O exemplo do Microsoft Copilot é emblemático. Muitas organizações já têm direito à tecnologia dentro do ecossistema Microsoft e enxergam sua ativação como “próximo passo natural”. Mas, sem clareza sobre quais tipos de trabalho serão transformados, como os funcionários serão treinados e quais indicadores vão medir os ganhos de produtividade, a adoção tende a ser rasa — e cara.
Segundo Michele Carvalho, essa é justamente a lacuna que a abordagem Intentional IT tenta preencher. A proposta é criar critérios explícitos para distinguir entre oportunidades que valem investimento imediato, iniciativas que ainda dependem de preparação interna e capacidades que podem esperar. “Intentional IT não é sobre desacelerar a inovação, mas ser deliberado o suficiente para agir decisivamente onde o negócio está pronto, e disciplinado para construir a base onde não está. O ritmo do mercado não deve se tornar a estratégia da organização”, afirma.
Na prática, isso significa revisitar o portfólio de projetos, olhar com lupa para tecnologias já implantadas e, muitas vezes, priorizar melhor uso e adoção do que novas compras. Em alguns casos, o passo mais estratégico é corrigir falhas de governança, consolidar plataformas ou até descontinuar iniciativas cujo custo-benefício deixou de fazer sentido.
Desafio para empresas e fornecedores
A mudança de escassez também altera o papel dos fornecedores de tecnologia. Em vez de apenas ampliar o leque de soluções, eles são pressionados a ajudar clientes a definir prioridades, construir casos de uso sólidos e medir resultados. O argumento de venda deixa de ser só o poder da plataforma e passa a incluir o alinhamento com a capacidade real da organização.
Para as empresas, a tendência é que caiam os projetos lançados às pressas “para não perder o bonde” e cresçam iniciativas com governança mais forte, revisão periódica e critérios claros de continuidade. A disputa não é mais por quem adota primeiro, mas por quem consegue transformar tecnologia abundante em vantagem competitiva sustentável.
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