Mercados
S&P 5007.677▲ 0,70%Nasdaq26.169▲ 0,82%Dow Jones52.362▲ 0,28%Ibovespa176.608▼ 13,88%FTSE 10010.767▲ 0,72%DAX25.411▲ 0,91%Nikkei62.190▼ 0,80%DólarR$ 5,41▲ 8,96%EuroR$ 6,04▲ 9,11%BitcoinR$ 431.685▲ 8,57%Powered by WIREDESK OSS&P 5007.677▲ 0,70%Nasdaq26.169▲ 0,82%Dow Jones52.362▲ 0,28%Ibovespa176.608▼ 13,88%FTSE 10010.767▲ 0,72%DAX25.411▲ 0,91%Nikkei62.190▼ 0,80%DólarR$ 5,41▲ 8,96%EuroR$ 6,04▲ 9,11%BitcoinR$ 431.685▲ 8,57%Powered by WIREDESK OS
Powered by WIREDESK OS
Lançamentos de IA

EUA investem US$ 260 mi e viram sócios em startups de fusão

Governo dos EUA investe US$ 260 milhões em Helion e CFS, recebe ações sem voto e muda forma de apoiar a fusão nuclear para alinhar retorno ao contribuinte e competir com China.

EUA investem US$ 260 mi e viram sócios em startups de fusão

Fusão Nuclear

Investimento estratégico dos EUA em startups visa fortalecer a inovação e competir globalmente na área de energia limpa.

Leia também: Anthropic eleva 50% gasto com Hooked book para reter empresas

O governo dos Estados Unidos voltou com força ao setor de fusão nuclear ao conceder US$ 260 milhões em prêmios às startups Helion e Commonwealth Fusion Systems (CFS), em troca de participação acionária sem direito a voto, numa guinada na forma de apoiar a área de energia de fusão.

O pacote, concedido pelo Departamento de Comércio sob a Lei CHIPS e Ciência, destina US$ 175 milhões à Helion e US$ 85 milhões à CFS para desenvolver semicondutores avançados usados para controlar e alimentar reatores de fusão. Em contrapartida, o governo entra no quadro societário das empresas com ações não votantes, vinculando diretamente o dinheiro público ao sucesso comercial dos projetos.

Governo vira sócio em fusão nuclear

Na Helion, a estrutura foi explicitada: os US$ 175 milhões correspondem a cerca de 1% da companhia, com base na avaliação de US$ 15,5 bilhões da rodada Série G. Na CFS, o valor recebido também é convertido em participação, mas o percentual não foi revelado. Em ambos os casos, o governo não terá direito a voto na gestão.

“This type of structure has become more common in large U.S. government investments in recent years”, afirmou David Kirtley, cofundador e CEO da Helion. Segundo ele, “this approach aligns the interests of Helion and the U.S. taxpayer around our commercial success”.

A CFS ecoou o discurso. Um porta-voz da empresa disse que “this U.S. equity stake will enable the U.S. taxpayer to participate in the upside of our commercial success in exchange for investing in important research and development that supports the growth of an American commercial fusion industry”.

O modelo representa uma ruptura em relação ao padrão que predominou por anos, em que o apoio federal a startups de alta tecnologia vinha sobretudo por meio de subsídios, contratos e prêmios não dilutivos, sem o governo entrar como acionista.

Entenda o contexto

A fusão nuclear — que busca reproduzir na Terra o processo que alimenta o Sol, fundindo átomos para gerar energia — exige materiais exóticos, superimãs, eletrônica de altíssimo desempenho e modelagem computacional complexa. A conta é bilionária, e o capital privado entrou pesado nos últimos anos, apostando que pelo menos uma empresa conseguirá colocar uma usina em operação comercial.

Ainda assim, o setor avalia que, sem apoio estatal robusto, os Estados Unidos podem ficar atrás de países que despejam recursos públicos na corrida pela fusão, com a China no centro das preocupações. A Fusion Industry Association, entidade que reúne empresas do ramo, vinha pedindo um aporte pontual de US$ 10 bilhões do governo, sendo US$ 5,4 bilhões destinados diretamente a startups, para construir infraestrutura de pesquisa e acelerar demonstrações em escala de rede elétrica.

Até agora, o movimento em Washington era tímido. O programa Milestone Based Fusion Development, do Departamento de Energia, distribuiu menos de US$ 50 milhões nos primeiros anos, cifra considerada insuficiente pelo setor. Os US$ 260 milhões de hoje, embora ainda distantes do volume pleiteado, marcam uma escalada e, principalmente, uma mudança qualitativa: o governo não apenas financia, mas assume risco como investidor.

Como as fusion startups avaliam se vale a pena ceder ações para obter prêmios governamentais?

Para startups como Helion e CFS, que já levantaram cifras bilionárias com investidores privados — cerca de US$ 3,2 bilhões no caso da Helion e algo em torno de US$ 4 bilhões no da CFS —, a decisão passa menos pelo tamanho do cheque isolado e mais pelo pacote completo de benefícios.

Na prática, o governo entra com capital, apoio político e acesso facilitado a infraestrutura, contratos e cadeias estratégicas como a de semicondutores avançados. Em troca, dilui levemente os atuais acionistas. No caso da Helion, por exemplo, a fatia governamental gira em torno de 1%, uma redução pequena na participação dos demais investidores.

Pesam na conta a reputação de ter o governo como parceiro, algo que tende a destravar mais financiamentos privados, e o fato de as ações serem sem direito a voto, o que reduz o risco de interferência na estratégia da empresa. As companhias também veem vantagem em poder argumentar que o contribuinte participa do potencial ganho financeiro caso a tecnologia se prove comercial.

O dilema para os fundadores e fundos de venture capital é se a diluição e a presença de um acionista estatal compensam o capital e o selo de confiança recebidos. Em um setor que ainda vai demandar muitos bilhões até chegar a usinas conectadas à rede, a tendência é que mais empresas considerem aceitável a troca de uma pequena fatia de capital por um parceiro profundo de longo prazo.

Quais são os riscos para investidores e para o governo nessa troca de ações por prêmios?

Os riscos são relevantes dos dois lados. Para investidores privados, a entrada do governo significa diluição imediata e, potencialmente, um investidor grande e atípico na base acionária, o que pode complicar futuras rodadas de captação ou reestruturações em caso de dificuldades financeiras.

Há dúvidas, por exemplo, sobre como ficaria a prioridade do governo numa eventual venda de ativos ou numa liquidação, e que tipo de exigências regulatórias ou de transparência poderiam ser vinculadas a essa participação. Fundos mais avessos a interferência estatal podem pensar duas vezes antes de entrar em empresas com o governo no capital.

Para o governo, o risco é o oposto: assumir exposição direta a negócios altamente experimentais, em um setor onde o prazo e a probabilidade de retorno ainda são incertos. Como a fusão nuclear ainda não é uma tecnologia comercial madura, há chance real de que parte desses investimentos nunca dê lucro.

Além disso, o governo precisa demonstrar que não favorece algumas empresas em detrimento de outras sem critérios técnicos claros, e que há mecanismos para garantir que o eventual ganho de capital, caso as startups tenham sucesso, de fato retorne ao contribuinte de forma transparente.

Exemplos de acordos semelhantes e impacto para o setor

Helion e CFS não são casos isolados na nova estratégia americana de se tornar sócio de empresas consideradas estratégicas. No setor de minerais críticos, a MP Materials cedeu 15% do capital em troca de um pacote que inclui US$ 400 milhões em investimento direto, um empréstimo de US$ 150 milhões, contratos de compra garantida e compartilhamento de lucros. Outra companhia de terras raras, a USA Rare Earth, entregou 10% de participação por um prêmio de US$ 277 milhões e um empréstimo de US$ 1,3 bilhão.

No campo da fusão, outras startups que já trabalharam com o governo — como Thea Energy, Avalanche Energy e Pacific Fusion — informaram que receberam verbas ou firmaram parcerias sem ceder participação acionária, o que mostra que o novo modelo ainda não é regra, mas começa a ganhar terreno.

Se os acordos com Helion e CFS resultarem em avanços técnicos rápidos e em valorização das empresas, o desenho pode se consolidar como padrão para projetos de alto risco tecnológico em energia limpa e semicondores avançados. Caso contrário, a presença do governo no cap table pode ser vista como um complicador a mais num setor que já lida com desafios científicos e financeiros consideráveis.

Por ora, a aposta de Washington é clara: ao trocar prêmios por ações, o contribuinte deixa de ser apenas financiador da fusão nuclear para se tornar, ainda que indiretamente, sócio do futuro da tecnologia.