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Economia

Lula convoca equipe após dólar subir 8% e Bolsa cair 16%

Após a reeleição de Lula, dólar dispara a R$ 5,406 e Ibovespa chega a cair 16%. Presidente chama ministros da Fazenda e do Planejamento ao Alvorada para discutir reação dos mercados e caminhos para acalmar investidores.

Lula convoca equipe após dólar subir 8% e Bolsa cair 16%

Mercado

Reação rápida do governo busca estabilizar economia diante da volatilidade cambial e da queda da Bolsa.

Leia também: PIB cresce 3 anos e desemprego cai, mas custo de vida pesa mais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu nesta segunda-feira (26) com os ministros Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento), no Palácio da Alvorada, em Brasília, depois de um dia de forte turbulência nos mercados financeiros, com o dólar disparando para R$ 5,406 e a Bolsa registrando a maior queda em décadas, em meio a dúvidas sobre a política fiscal no novo mandato.

Reação imediata dos mercados à reeleição

Na primeira sessão após a vitória eleitoral de Lula, o dólar comercial chegou a R$ 5,406, alta de 8,31% no meio do dia. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, recuou até 16% durante a manhã, movimento que obrigou a B3 a interromper temporariamente as negociações.

A paralisação foi acionada depois que os contratos futuros do Ibovespa caíram 20% antes mesmo da abertura do pregão físico. Com a retomada das operações, o índice seguia em forte baixa: às 12h38, operava com queda de 14,36%, aos 175.635,79 pontos.

Segundo dados da própria Bolsa, “a queda foi a maior da Bolsa brasileira desde setembro de 1998, quando o Ibovespa recuou 15,83%”. O movimento é interpretado por analistas como um sinal claro de fuga de risco e reprecificação rápida dos ativos brasileiros após o resultado das urnas.

Entenda o contexto

A reeleição de Lula contrariou a aposta dominante entre boa parte dos operadores, que precificavam a vitória de Flávio Bolsonaro (PL) e esperavam um choque de corte de gastos e maior rigor fiscal. Em vez disso, o mercado reagiu ao risco de uma política econômica mais focada na expansão de despesas sociais e investimentos públicos.

De acordo com interlocutores do setor financeiro, “os investidores demonstraram preocupação com a política fiscal do governo e com a perspectiva de aumento dos gastos públicos”. O temor é de que uma trajetória mais frouxa para as contas do governo pressione juros e inflação, reduza o espaço para investimentos privados e afaste capital estrangeiro.

A continuidade da turbulência e o nível em que dólar e ações se estabilizarem vão definir o quanto esse choque financeiro chega à economia real. Um câmbio acima de R$ 5,40 encarece importados, combustíveis, insumos industriais e alimentos, o que tende a pressionar a inflação nos próximos meses. Já a desvalorização da Bolsa reduz patrimônio de fundos, empresas e investidores individuais, com potencial impacto sobre planos de investimento e consumo.

Reunião no Alvorada busca sinalizar resposta

Diante do tombo histórico do Ibovespa e da disparada do dólar, Lula convocou para o Alvorada os ministros Dario Durigan e Bruno Moretti, responsáveis diretos pela formulação da política fiscal e do planejamento do próximo mandato. O encontro foi descrito por auxiliares como uma tentativa de avaliar o tamanho do estrago e discutir medidas para conter a volatilidade.

No centro da conversa estão a calibragem do arcabouço fiscal, o espaço para novos gastos sociais e investimentos e o desenho de um plano crível de consolidação das contas públicas, capaz de ser bem recebido pelo mercado sem abandonar promessas de campanha na área social.

Integrantes do governo admitem, em caráter reservado, preocupação com a possibilidade de a turbulência se prolongar. Um cenário de dólar pressionado e Bolsa em queda por vários dias elevaria o custo de rolagem da dívida pública, poderia frear a entrada de capital externo e reforçaria pressões por juros mais altos, num momento em que o Planalto busca justamente espaço para estimular a atividade econômica.

Disputa pelo comando da equipe econômica

Em paralelo à crise de confiança, avança a discussão sobre quem comandará a equipe econômica no novo mandato. O Ministério da Fazenda é visto como peça-chave para reconstruir pontes com investidores e definir o grau de compromisso com o ajuste fiscal.

Entre os nomes cotados estão o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), economista com passagem pela área fazendária do Estado, e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que já ocupou funções centrais na coordenação econômica do governo atual. A escolha será lida como um sinal direto da orientação que o Planalto pretende dar à política econômica a partir de janeiro.

A avaliação predominante entre economistas é que o futuro titular da Fazenda precisará apresentar rapidamente um plano detalhado para compatibilizar a ampliação de programas sociais e investimentos com a sustentabilidade da dívida pública. Sem esse roteiro, a percepção de risco fiscal tende a permanecer elevada, mantendo o dólar em patamar alto, a Bolsa pressionada e o crédito mais caro.

Nos próximos dias, a expectativa é de novas reuniões entre Lula, aliados políticos e a atual equipe econômica, em busca de um desenho que permita acalmar os mercados sem abrir mão das principais promessas de campanha, em especial na área social.