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Economia

Mercado cai 18% após reeleição de Lula e dólar dispara hoje

Ibovespa deve abrir em queda superior a 10%, com risco de circuit breaker, enquanto ETFs brasileiros despencam mais de 18% no exterior e dólar é projetado acima de R$ 5,30.

Mercado Financeiro

Ibovespa e ETFs brasileiros registram fortes quedas após resultado eleitoral, com dólar ultrapassando R$ 5,30.

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A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva provoca nesta segunda-feira (26) uma forte reação negativa do mercado financeiro brasileiro, com expectativa de queda acentuada da Bolsa de São Paulo, disparada do dólar e aumento da pressão sobre a política fiscal do novo governo.

ETFs despencam em Nova York e Tóquio

Mesmo antes da abertura do pregão em São Paulo, a virada de humor já aparece nos ativos brasileiros negociados no exterior. Em Nova York, o fundo de índice EWZ, que reúne as principais ações da Bolsa brasileira, desaba 18,29% no pregão noturno, cotado a US$ 34,80, o que representa uma perda de US$ 7,79 em relação ao fechamento de sexta-feira.

Na Bolsa de Tóquio, o ETF Next Funds Ibovespa Linked também opera em forte queda, recuando 11,80% na madrugada desta segunda-feira (pelo horário local). Esses movimentos antecipam um dia de forte estresse no mercado doméstico, com investidores ajustando rapidamente as posições ao novo cenário político.

Segundo analistas, parte da disparada da Bolsa ao longo do ano — o Ibovespa acumulou alta de 27,3% — estava ligada à expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro, do PL, preferência declarada de boa parte do mercado financeiro. “A vitória de Lula foi uma surpresa para o mercado, que vinha demonstrando preferência por Flávio e antecipando sua vitória”, afirma Daniel Wainstein, co-CEO e sócio fundador da Seneca Evercore.

Risco de circuit breaker e dólar acima de R$ 5,30

No Brasil, a projeção é de um início de pregão turbulento. Marcos Weigt, diretor de tesouraria do Travelex Bank, vê chance real de interrupção das negociações logo após a abertura oficial da Bolsa. A expectativa é de queda superior a 10% no Ibovespa, o que pode acionar o circuit breaker, mecanismo que suspende temporariamente os negócios para conter movimentos de pânico.

Weigt também prevê estouro dos limites de oscilação nos contratos futuros de dólar e de juros. Para o câmbio à vista, a projeção é de uma abertura já acima de R$ 5,30. “O BC vai cumprir seu papel de dar liquidez, mas não vai ter como segurar o dólar, que deve já abrir acima de R$ 5,30”, diz o executivo.

Para ele, a percepção de risco fiscal torna a reação mais dura com o petista do que seria com o candidato do PL. “Qualquer que fosse o vencedor, haveria muita dificuldade com a questão fiscal, por conta do tamanho das promessas. Mas o mercado daria um voto de confiança para Flávio. No caso de Lula, não vai haver complacência. Não vai ter o benefício da dúvida”, afirma.

Entenda o contexto

Após o primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro saiu na frente, a Bolsa brasileira chegou a subir 8,8% na semana seguinte. Com a recuperação de Lula nas pesquisas e o acirramento da disputa, o Ibovespa devolveu 2,3% em apenas três pregões, num sinal de que os preços já vinham incorporando o risco de reeleição do atual presidente.

Wainstein lembra que boa parte da valorização acumulada no ano refletia a expectativa de mudança de governo. “O Ibovespa acumulou 27,3% de aumento neste ano, e parte da expectativa de mudança de governo estava incorporada às cotações. Com a vitória de Lula, o mercado vai rever essa expectativa e deveremos ter uma correção no mercado”, afirma.

O desconforto se concentra principalmente na condução das contas públicas. Investidores cobram um plano crível para conter o crescimento da dívida e reduzir, ao longo do tempo, o custo dos juros, hoje em patamar elevado.

Pressão sobre a política fiscal e a dívida

O novo mandato começa com uma situação fiscal mais delicada. A dívida bruta do governo gira em torno de 83% do Produto Interno Bruto (PIB), acima dos 72% registrados no fim de 2022 — um aumento de cerca de 11 pontos percentuais no período.

No resultado primário, houve deterioração importante: o governo assumiu após um superávit de 1,25% do PIB e hoje opera com déficit de aproximadamente 0,6% do PIB acumulado em 12 meses. Em paralelo, o setor público desembolsou R$ 1,2 trilhão em juros no mesmo intervalo, o equivalente a 9% do PIB.

Para Wainstein, esse quadro limita o espaço para postergação de ajustes. “O governo atual continua, mas com uma clara necessidade de mudar sua trajetória”, avalia. O economista critica a falta de clareza sobre como o Palácio do Planalto pretende frear os gastos. “Lula não tem defendido o controle dos gastos com a clareza que considero necessária”, diz ele. “Espero que reconheça que adiar o ajuste também compromete o financiamento das prioridades sociais do próprio governo.”

Sinais exigidos pelo mercado

A reversão do pessimismo, avaliam os analistas, dependerá de respostas rápidas da equipe de transição e do núcleo econômico do governo reeleito. Wainstein aponta quatro eixos principais: compromisso com um ajuste fiscal relevante, queda dos juros de longo prazo, recuperação da rentabilidade das empresas e respeito à autonomia do Banco Central.

“É possível haver uma reversão dessa expectativa negativa, caso haja sinais muito concretos de um ajuste fiscal relevante, redução dos juros de longo prazo e recuperação dos lucros das empresas”, afirma o executivo. A composição da equipe econômica é vista como primeiro termômetro dessa direção.

No câmbio, a tendência inicial é de dólar mais caro e volatilidade elevada, mesmo com a atuação do Banco Central para prover liquidez. A moeda americana mais forte encarece importações, pressiona custos para empresas e consumidores e aumenta o peso da dívida pública em moeda estrangeira, afetando diretamente o poder de compra da população.

A leitura predominante na manhã desta segunda-feira é que o mercado não concederá “lua de mel” a Lula. Sem sinais firmes de disciplina fiscal e diálogo com investidores, a instabilidade tende a se prolongar, elevando o custo do crédito e piorando o ambiente de negócios no país.