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Economia

Anthropic pede IPO bilionário nos EUA em meio a pressão legal

Laboratório de IA que criou o Claude protocolou pedido confidencial de IPO nos EUA e planeja um dos maiores lançamentos de ações da história, como empresa de benefício público.

Anthropic pede IPO bilionário nos EUA em meio a pressão legal

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Laboratório de IA busca abrir capital nos EUA com uma das maiores ofertas públicas iniciais já vistas, enfrentando desafios legais.

Leia também: PIB cresce 3 anos e desemprego cai, mas custo de vida pesa mais

A Anthropic protocolou nesta segunda-feira (26) um pedido confidencial de oferta pública inicial (IPO) nos Estados Unidos e se prepara para uma das maiores aberturas de capital da história recente, apoiada por uma sequência de rodadas bilionárias, lançamentos de modelos avançados de inteligência artificial e sob a pressão de ações judiciais e restrições do governo americano.

IPO gigante em meio a pressão regulatória

O pedido foi entregue de forma confidencial às autoridades do mercado americano, etapa que antecede a divulgação do prospecto ao público. A companhia já avisou a investidores que pretende estrear na Bolsa como empresa de benefício público. “Estamos planejando um dos maiores IPOs da história como uma empresa de benefício público, equilibrando interesses públicos e metas de lucratividade”, afirmou a Anthropic em comunicação recente.

A listagem deve oferecer liquidez para sócios como Amazon, Google (Alphabet), Lightspeed Venture Partners e Spark Capital, que despejaram dezenas de bilhões de dólares na empresa desde 2022. Ao mesmo tempo, o movimento ocorre enquanto o laboratório de IA enfrenta um cerco regulatório: o Pentágono classificou a companhia como ameaça à cadeia de suprimentos, o presidente Donald Trump declarou que orienta o governo a cortar laços com a empresa e ações judiciais sobre direitos autorais seguem em curso em tribunais da Califórnia e de São Francisco.

Investimentos bilionários e corrida por valor de mercado

Fundada em 2021, a Anthropic iniciou a escalada de capital em abril de 2022, quando arrecadou US$ 580 milhões em rodada Série B. No ano seguinte, reforçou o caixa com US$ 450 milhões em nova captação que trouxe a Alphabet e o fundo Spark Capital para a base de investidores.

Desde então, o volume de dinheiro só aumentou. A Amazon se comprometeu com até US$ 4 bilhões em setembro de 2023, em um acordo estratégico que inclui uso da nuvem da gigante do varejo. Um mês depois foi a vez do Google anunciar até US$ 2 bilhões em aportes. Em março de 2025, a Anthropic captou US$ 3,5 bilhões e passou a valer US$ 61,5 bilhões. Em setembro do mesmo ano, levantou mais US$ 13 bilhões, elevando a avaliação a US$ 183 bilhões.

Em fevereiro de 2026, a empresa arrecadou US$ 30 bilhões em nova rodada, o que mais do que dobrou seu valor para US$ 380 bilhões. Em maio, anunciou outro salto: US$ 65 bilhões adicionais, que empurraram a avaliação pós-investimento para US$ 965 bilhões, aproximando o laboratório de IA do grupo de companhias mais valiosas do mundo antes mesmo de abrir capital.

Modelos de IA de ponta e foco em segurança

Em paralelo às captações, a Anthropic acelerou o desenvolvimento tecnológico. Em março de 2023 lançou o Claude, seu primeiro grande modelo de linguagem, posicionado como rival direto do GPT-4 da OpenAI. Um ano depois, apresentou a família Claude 3, destacando o Claude 3 Opus. Segundo a própria empresa, “o Claude 3 Opus supera os modelos concorrentes GPT-4 da OpenAI e Gemini 1.0 Ultra do Google em vários testes de desempenho”.

Em setembro de 2025, a companhia revelou o Claude 4.5, voltado a execuções mais longas de código e tarefas complexas em finanças e ciência. Já em abril de 2026 lançou o Mythos, descrito internamente como o modelo mais avançado da casa, com foco em cibersegurança defensiva, capaz de detectar vulnerabilidades e simular ataques para fortalecer sistemas corporativos e governamentais.

Os modelos da Anthropic são oferecidos por meio de APIs para desenvolvedores e grandes clientes corporativos, além de integrações com plataformas de nuvem dos próprios investidores estratégicos. É justamente essa combinação de tecnologia de ponta e contratos de alto valor que sustenta a expectativa de um IPO entre os maiores do setor de tecnologia.

Entenda o contexto

A estratégia da Anthropic para o mercado vai além da busca por valor de mercado. A empresa adotou a estrutura de benefício público, que obriga legalmente a administração a considerar impactos sociais e de segurança, não apenas retorno financeiro a acionistas. Em tese, isso significa compromissos mais rígidos com segurança de IA, proteção de dados e mitigação de riscos sistêmicos.

A empresa também tenta se diferenciar ao enfatizar pesquisas em alinhamento de modelos de IA — isto é, formas de garantir que sistemas poderosos sigam instruções humanas e limites de segurança mesmo em cenários complexos. Na prática, porém, a expansão rápida e o apetite por capital a aproximam das big techs tradicionais, o que alimenta questionamentos de reguladores e críticos.

Acordos bilionários e ações por direitos autorais

O avanço tecnológico e comercial veio acompanhado de uma onda de litígios. Em agosto de 2024, a Anthropic foi alvo de uma ação coletiva em um tribunal federal da Califórnia, movida por autores que acusavam o laboratório de usar indevidamente livros — incluindo obras dos três líderes da ação — para treinar o chatbot Claude.

Após quase dois anos de disputa, um juiz federal em São Francisco homologou em julho um acordo de US$ 1,5 bilhão. “A Anthropic homologou acordo histórico de US$ 1,5 bilhão em ação coletiva”, registrou o tribunal federal de São Francisco, encerrando o caso mediante compensação financeira e compromissos adicionais de transparência sobre dados de treinamento.

O contencioso, porém, não acabou. Em agosto, a editora musical independente Round Hill Music abriu processo em um tribunal federal da Califórnia contra a Anthropic e a startup de música gerada por IA Suno, alegando uso indevido de centenas de faixas no treinamento de sistemas. O caso ainda está em fase inicial, mas reforça a pressão da indústria criativa sobre laboratórios de IA generativa.

Pentágono, Trump e a batalha em segurança nacional

Ao mesmo tempo em que fecha acordos com grandes empresas privadas, a Anthropic passou a enfrentar resistência do governo dos Estados Unidos. Em fevereiro de 2026, o Pentágono informou que “o Pentágono declarou a Anthropic como um risco para a cadeia de suprimentos”, o que dificultaria o avanço de contratos ligados à área de defesa.

No mesmo período, o presidente Donald Trump subiu o tom. “Estamos orientando o governo a interromper o trabalho com a Anthropic”, disse o presidente, pressionando agências federais a rever acordos em curso. A empresa reagiu no mês seguinte: “A Anthropic entrou com um processo para impedir sua inclusão em lista negra de segurança nacional”, afirmou a própria companhia, em referência à ação que apresentou à Justiça para barrar a decisão do Departamento de Defesa.

A disputa expõe o dilema central da IA avançada: ao mesmo tempo em que é vista como ativo estratégico para defesa cibernética e superioridade tecnológica, também é tratada como possível risco de vazamento de informação, dependência de fornecedores privados e vulnerabilidades em cadeias críticas.

Receita dispara, mas avaliação pode ser revista no IPO

O volume de negócios da Anthropic acompanha o ritmo dos investimentos. De acordo com pessoas próximas à empresa, “a receita anual da Anthropic ultrapassou US$ 65 bilhões no final de julho”, resultado de contratos de uso intensivo de IA por bancos, big techs, indústrias e governos estrangeiros.

As mesmas fontes afirmam que “a Anthropic projeta receita entre US$ 190 bilhões e US$ 200 bilhões para 2028”, o que ajudou a sustentar as avaliações bilionárias nas rodadas privadas deste ano. Para o IPO, porém, o cenário é um pouco mais cauteloso.

Em outubro, após as últimas divulgações financeiras feitas a investidores, parte dos atuais acionistas e potenciais compradores das ações na estreia passou a defender uma avaliação menor que os US$ 965 bilhões alcançados em maio. A revisão reflete preocupações com a velocidade do crescimento em relação aos custos com infraestrutura de nuvem, equipe de pesquisa altamente especializada e provisões para litígios e regulações mais duras.

A definição do valuation de estreia ainda está em discussão e dependerá das condições de mercado, da leitura de risco regulatório e da percepção sobre a vantagem competitiva dos modelos Claude e Mythos frente a rivais como OpenAI e o próprio Google.

O que muda com a abertura de capital

Com a listagem, a Anthropic passa a responder a um grupo muito mais amplo de acionistas públicos, sob escrutínio regular de reguladores e mercados. A empresa promete usar os recursos levantados para ampliar centros de dados, contratar mais pesquisadores e acelerar o desenvolvimento de novas gerações de modelos, inclusive versões futuras do Mythos, com foco ainda maior em cibersegurança.

Para investidores institucionais, o IPO oferece a chance de entrar em uma das líderes da corrida global pela IA generativa, em um estágio em que boa parte do risco tecnológico já foi reduzida, mas o potencial de crescimento de receita ainda é elevado. Para concorrentes como OpenAI e Google, a chegada da Anthropic ao mercado acionário deve acirrar a disputa por talentos, contratos corporativos e influência regulatória em Washington e em outras capitais.

Do lado regulatório, a estreia em Bolsa tende a aumentar a pressão por transparência sobre dados de treinamento, mitigação de vieses e impactos trabalhistas da automação. O desfecho das ações judiciais em andamento e da briga com o Pentágono será determinante para o apetite de investidores na largada e para a margem de manobra da empresa depois de se tornar pública.