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Economia

Gasolina aumento: dólar sobe 12% e pressiona preço no Brasil hoje

Alta de cerca de 12% do dólar após a reeleição de Lula encarece o petróleo em reais, aumenta a defasagem de preços da Petrobras e eleva o risco de reajustes na gasolina e, sobretudo, no diesel.

Gasolina aumento: dólar sobe 12% e pressiona preço no Brasil hoje

Economia

Valorização do dólar impacta o custo do petróleo e pode levar a novos reajustes nos combustíveis no Brasil.

Leia também: PIB cresce 3 anos e desemprego cai, mas custo de vida pesa mais

A disparada do dólar após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva encareceu o petróleo em reais, ampliou a defasagem dos preços praticados pela Petrobras e elevou a pressão sobre gasolina e, principalmente, diesel no Brasil, num momento em que o governo tenta conter a alta com subvenções e desoneração de impostos.

O que esperar do preço da gasolina após a reeleição de Lula?

Por enquanto não há um percentual de aumento definido para a gasolina, mas o risco de reajuste cresceu com o dólar mais caro e o petróleo ainda em patamar elevado. Nesta segunda-feira, a moeda americana chegou a superar R$ 5,60, alta de aproximadamente 12% em relação ao fechamento de sexta-feira, quando estava em R$ 4,99.

Mesmo com uma leve queda do barril do tipo Brent, que recuou de US$ 116,72 para perto de US$ 115, o preço do petróleo em reais subiu de R$ 583 para R$ 645 por barril, um salto de cerca de 11%. Como a commodity é cotada em dólar, a desvalorização do real aumenta o custo de importação de combustíveis.

A gasolina já vinha dando sinais dessa pressão. No IPCA-15 divulgado em 23 de outubro, o combustível subiu 0,92%, mesmo com a ampliação da desoneração tributária federal, que passou de R$ 0,63 para R$ 0,89 por litro de gasolina A — um alívio de cerca de R$ 0,18 por litro nas bombas.

Para a economista Tatiana Goes, da Silo Multi Family Office, o impacto da eleição é indireto. “O resultado eleitoral não encarece diretamente o combustível. O que importa é como a reação do mercado afeta o câmbio, os custos de importação e as expectativas”, afirma.

Segundo ela, o comportamento da gasolina nas próximas semanas vai depender de três pontos: por quanto tempo o dólar permanece pressionado, como evoluem as cotações internacionais de petróleo e derivados e quais decisões comerciais serão tomadas por Petrobras e demais refinarias.

Diesel é o ponto mais sensível da alta do dólar

Entre os combustíveis, o diesel é hoje o elo mais frágil. O Brasil ainda precisa importar parte relevante do volume consumido, o que torna o abastecimento mais exposto ao câmbio e às cotações internacionais.

Levantamento da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), referente a 23 de outubro, mostra que a defasagem média do diesel vendido pela Petrobras atingiu R$ 3,53 por litro, o equivalente a 108% do preço doméstico utilizado na comparação. Ou seja, a referência internacional estava mais que o dobro do valor cobrado nas refinarias da estatal.

Na gasolina, a diferença era menor, mas ainda relevante: R$ 0,58 por litro, ou 19%. Com a disparada do dólar, essas defasagens tendem a aumentar, a não ser que o recuo do petróleo e dos derivados no mercado externo compense a alta cambial.

“O risco existe, principalmente se essa valorização do dólar se mostrar persistente. Minha atenção está mais voltada para o diesel, porque o Brasil ainda depende de importações para complementar a oferta doméstica”, diz o economista Tiago Velloso.

Mesmo assim, ele pondera que a existência de defasagem não implica reajuste imediato nas refinarias, já que a Petrobras tem buscado suavizar movimentos de curto prazo.

Estratégia da Petrobras tem limite

Desde 2023, a Petrobras adota uma política comercial que não replica automaticamente cada oscilação do câmbio ou do petróleo. A empresa passou a considerar diferentes referências de mercado e a usar estoques e margens para amortecer choques de preços.

Essa estratégia ajuda a evitar repasses imediatos ao consumidor, mas não pode ser mantida indefinidamente em cenários de defasagem elevada. “Se a defasagem entre preços domésticos e internacionais ficar elevada e persistente, a estratégia tende a se tornar economamente difícil de sustentar”, afirma Ari Francisco de Araujo Junior, coordenador do curso de Ciências Econômicas do Ibmec BH.

Segundo ele, há algumas válvulas de escape de curto prazo, como queima de estoques comprados mais baratos, redução de margens de distribuição e adiamento de reajustes pelas refinarias. O fôlego dessas alternativas, porém, depende do comportamento do câmbio e das cotações internacionais nos próximos dias.

Além disso, a forte defasagem desestimula importadores privados, que ficam sem margem para competir com o preço da Petrobras. Isso reduz a oferta alternativa e, no limite, pode pressionar o abastecimento, principalmente de diesel.

Governo usa subvenções e desoneração para segurar alta

Para conter a escalada dos combustíveis, o governo federal vem recorrendo a dois instrumentos principais: subvenções econômicas ao diesel e desoneração de tributos sobre gasolina e etanol.

No caso do diesel, a União paga uma compensação financeira a produtores e importadores que vendem o produto dentro de um preço pré-definido. Hoje, a subvenção é de R$ 2,12 por litro, com um adicional de R$ 1,40 por litro específico para o diesel importado, o que eleva o benefício a até R$ 3,52 por litro em alguns casos.

Essas medidas, porém, têm prazo para acabar e custo elevado. Só o reforço ao diesel importado, válido por 30 dias, foi estimado em R$ 1,6 bilhão. Já o pacote de desoneração de gasolina e etanol tem impacto previsto de R$ 3,6 bilhões nas contas públicas em 2026.

A professora Juliana Inhasz, do Insper, ressalta que a conta fiscal ainda pode mudar. “A confirmação dessa compensação depende das receitas e despesas efetivamente realizadas”, afirma. Parte do plano do governo é bancar esse gasto com receitas extraordinárias do setor de petróleo, mas isso também está sujeito à volatilidade internacional.

A prorrogação ou não dessas subvenções é uma das principais decisões que o governo terá de tomar nas próximas semanas. Se os benefícios forem reduzidos ou encerrados em um momento de dólar alto, a tendência é de aumento mais forte nas bombas, principalmente no diesel.

Entenda o contexto

A disparada do dólar nesta segunda-feira é reação do mercado financeiro à reeleição de Lula e às dúvidas sobre a condução da política econômica no novo mandato, especialmente em relação a gastos públicos e trajetória da dívida.

O câmbio mais pressionado chega aos combustíveis porque petróleo, gasolina e diesel são negociados em dólar no mercado global. Mesmo que o preço internacional do barril recue levemente, como ocorreu entre sexta-feira e esta segunda, a conversão para reais pode subir se a moeda americana disparar.

Além disso, gasolina e diesel têm dinâmicas próprias. A cotação do Brent é referência para o petróleo bruto, mas os combustíveis refinados respondem a fatores como capacidade de refino, estoques e demanda global. Isso faz com que o movimento do barril nem sempre se traduza em variações proporcionais nas refinarias.

“Não existe uma relação automática entre a variação do Brent e o reajuste na bomba”, diz André Braz, economista do FGV/Ibre. Ele lembra que o preço ao consumidor ainda inclui tributos, margens de distribuição e revenda, o que pode amortecer ou amplificar movimentos de fábrica.

Na avaliação de Braz, mesmo no caso da gasolina o efeito da alta do dólar sobre a inflação não aparece inteiro de uma vez. “Minha avaliação é que a janela limita o efeito neste resultado, mas não permite dizer qual parcela apareceu”, afirma, em referência ao impacto no IPCA-15.

Como a alta do petróleo em reais impacta o preço da gasolina no Brasil?

O petróleo mais caro em reais aumenta o custo de produção e importação da gasolina, o que pressiona a Petrobras e as demais refinarias a reajustar os preços nas refinarias e, mais adiante, nas bombas.

Na prática, o caminho é o seguinte: com o barril próximo de US$ 115 e o dólar acima de R$ 5,60, o custo em moeda local subiu de R$ 583 para R$ 645 por barril. Essa alta encarece a matéria-prima usada para refinar gasolina e diesel.

Refinarias que importam petróleo ou derivados passam a pagar mais caro. Se o preço doméstico ficar muito abaixo da referência internacional, como mostram os números da Abicom, importar deixa de ser viável economicamente, o que reduz a concorrência e eleva a pressão sobre a Petrobras para corrigir preços.

Esse aumento de custo tende a ser repassado, total ou parcialmente, às distribuidoras e, depois, aos postos. A velocidade e o tamanho desse repasse dependem da estratégia da Petrobras, do uso de subvenções e isenções pelo governo e do comportamento de margens na cadeia de combustíveis.

Embora a alta da gasolina nos Estados Unidos e em outros mercados ajude a elevar o patamar internacional dos derivados, o fator decisivo para o Brasil, neste momento, é a combinação de dólar mais valorizado, petróleo ainda caro em reais e espaço fiscal limitado para manter subsídios por muito tempo.

Se esse quadro persistir, o encarecimento dos combustíveis pode chegar ao frete, ao agronegócio e à indústria, aumentando custos logísticos, pressionando o preço de alimentos e outros produtos e adicionando mais combustível à inflação nos próximos meses.