Relatório AI² define 5 prioridades para unir ciência e empresas
Ciências ULisboa entrega relatório com recomendações para a futura Agência para a Investigação e Inovação, enquanto Portimão prepara cimeira empresarial focada em digitalização e IA.

Inovação Tecnológica
Documento aponta caminhos estratégicos para fortalecer a colaboração entre o meio científico e o setor empresarial.
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A Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) apresentou nesta semana o relatório final da iniciativa Ciências Bottom-up AI², com recomendações para a futura Agência para a Investigação e Inovação, ao mesmo tempo em que o ecossistema empreendedor de Portimão se mobiliza para o Future Business Summit, encontro focado em aceleração digital, liderança e inteligência artificial.
Relatório define rumo da futura Agência para a Investigação e Inovação
O documento, apresentado em sessão pública em 27 de julho nas instalações de Ciências ULisboa, resulta de um processo participativo que envolveu cerca de 70 representantes de universidades, unidades de investigação, laboratórios associados, empresas, entidades públicas, incubadoras, clusters e associações. O objetivo é orientar a criação da nova Agência para a Investigação e Inovação (AI²) e influenciar a política científica e tecnológica do país.
A reitora de Ciências ULisboa, Conceição Freitas, sublinhou que a reforma em curso é estrutural para o sistema científico português. “As recomendações apresentadas hoje não pretendem encerrar o debate, mas enriquecê-lo, oferecendo uma reflexão informada, plural e construtiva”, afirmou, defendendo que o sucesso da futura agência dependerá da confiança construída com a comunidade científica, tecnológica, empresarial e com a sociedade.
Coordenadora da iniciativa e vice-reitora para Investigação e Inovação, Internacionalização e Relações Externas, Cristina Máguas explicou que o projeto nasceu para criar um espaço de discussão verdadeiramente aberto e interdisciplinar. “A criação da AI² representa uma oportunidade para repensar o ecossistema nacional de investigação e inovação através de um processo participativo e baseado em evidências”, destacou.
Os grupos de trabalho foram organizados em torno de temas como clima e recursos naturais, saúde, materiais avançados, tecnologias digitais e espaço. Em cada área, investigadores, empresas, laboratórios e entidades públicas discutiram prioridades estratégicas, modelos de financiamento, critérios de alocação de recursos e mecanismos de monitorização e avaliação, na tentativa de chegar a recomendações consensuais.
Entenda o contexto
A criação da futura AI² é vista dentro do governo e da academia como uma das mudanças mais profundas no desenho do sistema científico nacional, com impacto direto em como projetos de investigação fundamental e aplicada serão financiados e avaliados, e em como se articularão com empresas e organizações sociais. A nova agência deverá funcionar como elo entre universidades, centros de I&D, setor privado e administração pública, com foco em transformar conhecimento em inovação com impacto económico e social.
O relatório reforça a necessidade de proteger a investigação fundamental como base do sistema, ao mesmo tempo em que fortalece pontes com o tecido produtivo. “A excelência da investigação fundamental deve continuar a ser o principal pilar do sistema científico nacional”, defendeu Cristina Máguas, acrescentando que os domínios estratégicos futuros devem articular áreas científicas consolidadas com desafios sociais e oportunidades de inovação, e não substituí-las.
Crise climática, IA e economia azul entre prioridades
Entre as áreas identificadas como prioritárias estão crise climática e resiliência territorial, oceano e economia azul, transição energética, materiais avançados, saúde e biotecnologia, inteligência artificial e soberania digital, segurança, espaço e instrumentação científica. A escolha desses eixos procura alinhar a política científica com desafios globais e necessidades locais, da emergência climática à competitividade industrial.
No campo do financiamento, o relatório recomenda um modelo mais estável, previsível e flexível, capaz de acompanhar as diferentes fases da investigação e da inovação. A proposta combina reforço do investimento público pelo Orçamento do Estado com fundos privados e europeus, e defende regras claras, horizontes plurianuais e menos burocracia para garantir continuidade a equipas e infraestruturas científicas.
O texto também propõe mecanismos robustos de monitorização e avaliação, com sistemas permanentes que permitam medir o impacto científico, económico e social dos instrumentos de financiamento. A ideia é que as decisões estratégicas da AI² sejam tomadas com base em evidências, e não apenas em ciclos políticos ou em lógicas fragmentadas de projeto.
Mais ligação entre universidades e empresas
Outro eixo central das recomendações é o reforço da ligação entre universidades, empresas e entidades públicas. O relatório defende instrumentos que promovam transferência de conhecimento, mobilidade de investigadores e contratação de doutorados pelo setor empresarial, reduzindo a distância entre laboratórios e mercado e aumentando a capacidade de absorção de tecnologia pelo tecido produtivo.
Após a apresentação, um debate moderado por Nuno Araújo, presidente científico de Ciências ULisboa, reuniu representantes de laboratórios associados, planeamento público e empresas tecnológicas. A discussão convergiu na necessidade de a futura AI² equilibrar apoio à investigação fundamental e aplicada, garantir financiamento plurianual previsível e simplificar procedimentos, além de medir com rigor o impacto das políticas públicas de ciência e inovação.
Segundo a reitoria, as reações ao relatório foram amplamente positivas entre participantes do sistema científico e empresarial, que destacaram a legitimidade do processo pela diversidade de vozes envolvidas. A expectativa agora é que o documento sirva de base para o desenho legislativo e institucional da agência, incluindo a definição de programas, critérios de avaliação e modelos de cooperação público-privada.
Impactos esperados e desafios
A implementação das recomendações pode beneficiar sobretudo centros de investigação e empresas inovadoras em áreas como crise climática, economia azul, transição energética, saúde e biotecnologia, inteligência artificial e espaço, que tendem a acessar financiamento mais adaptado a projetos de alto risco e longo prazo. A ênfase em interdisciplinaridade e internacionalização também deve reforçar a competitividade de Portugal em redes científicas globais.
Ao mesmo tempo, setores menos alinhados com essas prioridades ou acostumados a modelos tradicionais de financiamento poderão enfrentar desafios de adaptação. Especialistas alertam que o sucesso da reforma dependerá da coordenação entre governo, instituições científicas e setor privado, além da capacidade de responder a mudanças tecnológicas rápidas e a novos choques globais.
Future Business Summit em Portimão foca em digitalização e IA
Enquanto a academia discute a arquitetura da AI² em Lisboa, o mundo empresarial se prepara para tratar da inovação no terreno. No próximo dia 19 de junho, entre 09h00 e 13h00, Portimão recebe o Future Business Summit, na Casa Manuel Teixeira Gomes, com inscrição gratuita e prévia.
Organizado pela StartUP Portimão, incubadora de empresas do município, o encontro pretende aproximar o ecossistema empreendedor local das empresas e organizações da região, criando um espaço de reflexão, aprendizagem e partilha sobre os desafios de gerir negócios em ambiente cada vez mais digital e influenciado pela inteligência artificial.
O evento reunirá empreendedores da comunidade StartUP Portimão e do Portimão Cowork Space, além de empresários, gestores e profissionais de diferentes setores. A programação combina painéis de debate e workshops práticos, sempre com foco em aceleração digital, liderança, comunicação, gestão de talento, construção de marca e cibersegurança.
Digitalização, liderança e o fator humano
Um dos painéis centrais será dedicado à aceleração digital nas empresas, com participações de Nádia Veloso (3HR Solutions), Carla Martins (BLiSS Image & Life Consulting) e Raquel Melo (Inboundware). As intervenções vão abordar liderança e alta performance, comunicação com propósito, valorização de talento e estratégias para criar marcas diferenciadoras num contexto de forte pressão competitiva e presença digital obrigatória.
Outro painel, sob o tema “O fator humano na era da inteligência artificial”, reunirá Luís Silva (Tecnologias Imaginadas), João Amado e Sara Cartucho (JFA Training) e Tiago Fernandes (Thinkerdots). Em debate estarão literacia digital, riscos e boas práticas de cibersegurança, usos concretos da inteligência artificial em empresas de diferentes portes e o impacto dessas ferramentas na inovação, na tomada de decisão e no desenvolvimento de novos produtos e serviços.
Para além das conversas em palco, a manhã terá workshops temáticos conduzidos por empreendedores locais, com sessões práticas sobre gestão de pessoas, estratégia de imagem e comunicação, desenvolvimento de marcas, aplicação da IA em contextos empresariais e proteção de dados e sistemas.
As inscrições são gratuitas, mediante formulário online e sujeitas à lotação do espaço. No mesmo formulário, os participantes podem consultar o programa detalhado e escolher as atividades em que pretendem participar.
Ciência, tecnologia e negócios mais próximos
A realização quase simultânea da apresentação do relatório da Ciências Bottom-up AI² e do Future Business Summit é vista por atores do setor como sinal de uma tendência de maior integração entre políticas públicas de ciência e inovação e iniciativas de capacitação empresarial. De um lado, o país discute uma nova agência para financiar investigação e articular universidades, laboratórios e empresas; de outro, empreendedores e gestores procuram ferramentas concretas para aplicar tecnologias como a inteligência artificial no dia a dia dos negócios.
Especialistas avaliam que esse duplo movimento pode abrir espaço para mais investimento em inovação, aumento da competitividade das empresas nacionais e fortalecimento da posição de Portugal no cenário internacional de investigação e desenvolvimento, desde que as recomendações agora em discussão se traduzam em medidas efetivas e coordenadas.


