Midterms nos EUA testam força de Trump e podem mudar Congresso
EUA realizam em 3 de novembro as eleições de meio de mandato, que renovam toda a Câmara e 35 das 100 cadeiras do Senado. Resultado pode tirar de Trump o controle do Congresso.

Eleições EUA
As eleições de meio de mandato definirão o equilíbrio de poder no Congresso e o futuro político de Trump.
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Os Estados Unidos realizam em 3 de novembro as eleições de meio de mandato que vão renovar as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 cadeiras do Senado, em uma disputa que testa a força política de Donald Trump diante de uma desaprovação de 66% ao seu governo e pode redefinir o controle do Congresso.
O que está em jogo nas midterms
As chamadas midterms acontecem na metade do mandato presidencial e, na prática, determinam o ambiente político em que o presidente vai governar nos dois anos seguintes. Embora Trump não apareça na cédula, seu governo é o alvo central da campanha de democratas e republicanos espalhados pelos 50 estados.
Hoje, o Partido Republicano tenta manter o controle do Congresso. Pesquisas e projeções mais recentes apontam, porém, que os democratas têm chance real de assumir a maioria tanto no Senado quanto na Câmara dos Representantes, o que poderia travar a agenda legislativa da Casa Branca e abrir espaço para investigações e bloqueios a iniciativas do governo.
O desenho do sistema americano potencializa essa disputa. Deputados cumprem mandatos de dois anos e sempre precisam buscar a reeleição nas midterms. Senadores têm mandatos de seis anos, com renovação de cerca de um terço das cadeiras a cada dois anos — neste ciclo, 35 das 100 vagas estarão em disputa.
Como funciona o Congresso americano
O Congresso dos Estados Unidos é formado por duas Casas, com regras diferentes de representação. No Senado, cada um dos 50 estados tem direito a duas cadeiras, independentemente do tamanho da população, somando 100 senadores. Isso dá o mesmo peso a estados gigantes como Califórnia e Texas e a estados pouco populosos.
Na Câmara dos Representantes, as 435 cadeiras são distribuídas de acordo com a população de cada estado. Cada deputado representa um distrito eleitoral — uma região desenhada para reunir um número semelhante de habitantes. Em estados como Nova York, por exemplo, há distritos que abrangem apenas alguns bairros de uma grande cidade; em áreas rurais, um distrito pode juntar vários municípios.
Antes do dia oficial da votação, republicanos e democratas realizam eleições primárias para escolher seus candidatos. Com isso, a disputa na maior parte dos estados e distritos se concentra em um nome de cada partido. Candidatos independentes também podem concorrer, mas costumam ter menos estrutura e visibilidade.
Entenda o contexto
Trump chega às midterms pressionado por um desgaste crescente. Uma pesquisa recente aponta desaprovação de 66% ao governo, índice que coloca o presidente em situação delicada diante do eleitorado. O humor do país com a economia e o custo de vida é apontado como principal motor dessa insatisfação.
Mesmo assim, o presidente e aliados tentam transformar a eleição em um plebiscito sobre a direção do país e mobilizar a base conservadora em temas como segurança, imigração e costumes. Do outro lado, democratas exploram o desgaste do governo e pedem voto para limitar o poder da Casa Branca no Congresso.
O equilíbrio atual no Legislativo já trouxe dor de cabeça ao governo. A maioria republicana permitiu aprovar pautas importantes, mas com margem apertada e deserções em votações sensíveis. Uma perda de cadeiras agora pode significar derrotas sistemáticas em projetos centrais da Presidência.
Voto postal e apuração lenta alimentam tensão
As midterms também voltam a expor particularidades do sistema eleitoral americano. Não há um órgão nacional equivalente ao Tribunal Superior Eleitoral brasileiro; cada estado define regras, calendário e procedimentos de apuração, o que cria um mosaico de normas e prazos.
A votação antecipada já está em andamento em vários estados, e o voto pelo correio se consolidou como peça-chave da participação eleitoral. O mecanismo, porém, virou um dos principais temas da campanha: republicanos questionam sua segurança, enquanto democratas defendem que a modalidade amplia o acesso ao voto.
Como a contagem dos votos postais leva mais tempo em diversos estados, os resultados finais podem demorar. A apuração começa assim que as seções eleitorais fecham — o horário varia conforme o estado, com locais encerrando às 19h na Flórida e até 21h em Nova York, por exemplo —, e os primeiros números devem aparecer ainda na noite de 3 de novembro.
A definição do controle do Congresso, contudo, pode levar dias. Em pleitos recentes, a disputa pela maioria da Câmara só foi definida mais de uma semana após a eleição, em parte porque alguns estados demoram mais para contar todos os votos enviados pelo correio. Com o clima polarizado, uma eventual demora tende a alimentar discursos de desconfiança e contestação do resultado.
Guerra dos mapas eleitorais em estados-chave
Outra peça central desta eleição é a disputa pelos mapas dos distritos eleitorais. Em vários estados, as legendas usam o controle dos parlamentos locais para redesenhar fronteiras de distritos de forma a concentrar eleitores favoráveis e pulverizar opositores — prática conhecida como gerrymandering.
Texas e Califórnia estão entre os exemplos de estados em que o redesenho dos mapas virou arma estratégica dos partidos. Em alguns casos, bairros de perfil semelhante são divididos entre distritos diferentes para diluir um grupo de eleitores; em outros, áreas distantes são agrupadas para consolidar uma maioria de um partido.
Críticos afirmam que o gerrymandering distorce a representatividade, permitindo que um partido conquiste mais cadeiras do que a sua fatia de votos no estado sugeriria. A prática é alvo constante de ações judiciais e pressões por reformas eleitorais, mas continua influenciando de forma decisiva a correlação de forças na Câmara.
Possíveis cenários após 3 de novembro
Se os republicanos conseguirem preservar ou ampliar a maioria nas duas Casas, Trump tende a ganhar fôlego para avançar com projetos de interesse do governo e indicar nomes alinhados para cargos estratégicos, incluindo tribunais. Uma vitória mais larga daria ao presidente margem para enfrentar dissidências dentro da própria bancada.
Se os democratas conquistarem a maioria em apenas uma das Casas, Trump já passa a enfrentar um Congresso dividido, com mais espaço para bloqueios pontuais, comissões de inquérito e barganhas duras a cada votação relevante. Uma virada democrata simultânea na Câmara e no Senado colocaria o governo em posição defensiva e obrigaria a uma readequação profunda de prioridades.
Enquanto a campanha entra na reta final, o país se ajusta à possibilidade de dias de incerteza após o fechamento das urnas. A depender da margem das disputas em estados decisivos e do volume de votos postais, a definição da nova composição do Congresso pode se arrastar, com impacto direto na governabilidade de Trump e na relação entre Executivo e Legislativo até o fim do mandato presidencial.


