Lula exige IA brasileira e Itaú investe R$ 2,9 bi em NeoSpace
Lula defende soberania digital, com IA nacional e regulação de big techs, enquanto Itaú paga R$ 2,925 bilhões pela NeoSpace e acelera uso de IA generativa nos serviços financeiros.

Inteligência Artificial
Lula destaca a importância da IA nacional e regulação das big techs; Itaú investe pesado para impulsionar inovação financeira.
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Reeleito no domingo (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a criação de uma inteligência artificial brasileira e a regulamentação das plataformas digitais, enquanto o Itaú Unibanco anunciou a compra total da NeoSpace por R$ 2,925 bilhões, movimento que acelera o uso de IA generativa no sistema financeiro.
Lula quer IA nacional e regras mais duras para big techs
Em pronunciamento após a vitória eleitoral, Lula, de 81 anos, vinculou a agenda educacional à disputa tecnológica global. “Queremos ensinar mais matemática, mais engenharia porque não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa e americana. Quero criar uma inteligência artificial brasileira”, afirmou.
A ideia é fomentar modelos de IA treinados em português e em outras línguas usadas no país, voltados a problemas locais em áreas como agronegócio, saúde e serviços financeiros. O discurso reforça a bandeira de soberania digital, que inclui tanto desenvolver tecnologia própria quanto reduzir a vulnerabilidade do país a soluções estrangeiras.
Lula também retomou a ofensiva sobre o poder das grandes plataformas digitais. Ele afirmou que “essa foi uma eleição que a gente teve que vencer com uma intromissão de fora para dentro através das plataformas digitais” e avisou: “Nós vamos ter de regulá-las”.
A pauta de regulação das big techs já circula no Congresso, inicialmente focada no combate às notícias falsas, mas enfrenta resistência de parlamentares e do próprio setor de tecnologia. Com o novo discurso do Planalto, a tendência é que a discussão se amplie para temas como proteção de dados, transparência de algoritmos, moderação de conteúdo e regras específicas em períodos eleitorais.
Entenda o contexto
A relação entre redes sociais, desinformação e interferência eleitoral ganhou peso após denúncias de que plataformas da Meta teriam favorecido conteúdos de direita durante a campanha, o que a empresa negou. Um comitê independente que supervisiona decisões de conteúdo da companhia reconheceu falhas na aplicação das próprias regras, reacendendo a pressão por regulação.
No governo, a soberania digital passa a ser tratada como frente estratégica, ao lado de segurança cibernética e política industrial para o setor de tecnologia. A expectativa é de novos projetos de lei e negociações com o Congresso para enquadrar plataformas estrangeiras às prioridades brasileiras em proteção eleitoral e privacidade.
Itaú compra NeoSpace e aposta em IA generativa própria
Enquanto o Planalto fala em autonomia tecnológica, o mercado financeiro corre para se posicionar na mesma disputa. Na segunda-feira (26), o Itaú Unibanco anunciou a aquisição de 100% da NeoSpace, startup especializada em modelos fundacionais de inteligência artificial generativa, por R$ 2,925 bilhões.
O banco já era sócio: em janeiro de 2025, havia adquirido 15% da empresa ao liderar uma rodada de US$ 18 milhões. Agora, assume o controle total com o objetivo de incorporar os modelos da NeoSpace aos seus sistemas de análise de dados e atendimento.
A NeoSpace trabalha com Large Data Models (LDMs), modelos fundacionais de IA capazes de processar grandes volumes de dados estruturados e não estruturados. Diferem dos Large Language Models (LLMs), como os sistemas populares voltados a texto, ao serem projetados principalmente para ler padrões complexos em bases de informação extensas, como históricos de crédito, transações e interações de clientes.
Segundo o Itaú, em quase dois anos de parceria a tecnologia da NeoSpace já elevou em 10% a precisão dos modelos de crédito em comparação com soluções tradicionais usadas pelo banco. A expectativa é usar os LDMs para criar experiências altamente individualizadas, com ofertas de produtos, limites e recomendações ajustadas ao perfil de cada correntista.
O movimento do Itaú reforça uma corrida de inovação no sistema financeiro brasileiro, em que bancos e fintechs disputam vantagens competitivas na análise de risco, na prevenção a fraudes e na personalização de serviços. Com o cheque bilionário, a NeoSpace ganha escala para acelerar o desenvolvimento de seus modelos e ampliar a infraestrutura de dados.
Como a IA mexe com o consumo e a Black Friday
Fora dos bancos, a inteligência artificial já começa a reconfigurar o mercado de consumo e o comércio eletrônico. Assistentes e agentes de IA que sugerem produtos, comparam preços e até concluem compras viram novo canal de venda, disputando espaço com redes sociais, buscadores e grandes marketplaces.
A temporada de Black Friday, cujo auge será em 27 de novembro, é vista por empresas de varejo e tecnologia como um teste importante para medir o quanto as conversas com assistentes de IA se convertem em vendas. Nos Estados Unidos, plataformas de IA devem influenciar US$ 20,57 bilhões em transações de e-commerce em 2026, quase quatro vezes os US$ 5,4 bilhões estimados para 2025, de acordo com a consultoria Emarketer.
Companhias de dados e software investem em técnicas como otimização para mecanismos generativos (GEO) e comércio agêntico (ACO), voltadas a tornar marcas e produtos mais “encontráveis” por sistemas de IA que fazem recomendações. “Com os agentes de IA, o jogo mudou completamente”, resume Guilherme Freire, cofundador e CEO da Dolado, empresa de tecnologia para e-commerce.
A tendência é que o Brasil siga esse movimento, com grandes varejistas e plataformas locais adaptando catálogos, descrições e campanhas para dialogar com algoritmos generativos — o que pode redefinir estratégias de marketing digital e distribuição de verba publicitária.
Setor público e privado na disputa pela soberania digital
A combinação entre o discurso de Lula e o investimento do Itaú ilustra duas frentes que começam a se encontrar: de um lado, um projeto de soberania digital que pretende reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras; de outro, grandes grupos privados internalizando capacidades avançadas de IA para ganhar eficiência e competir globalmente.
No campo regulatório, o fortalecimento de regras para plataformas digitais tende a impor mais transparência e obrigações a big techs estrangeiras que operam no país. No campo econômico, a incorporação de IA generativa por bancos, varejistas e empresas de tecnologia promete aumentar produtividade e abrir novas frentes de negócio.
Os próximos passos passam pelo avanço de propostas no Congresso, pela definição de políticas para pesquisa e formação em ciência de dados, matemática e engenharia, e por novos movimentos de consolidação no mercado de IA, à medida que startups e grandes grupos disputam protagonismo na construção da inteligência artificial “feita no Brasil”.


