Pediatras alertam que brinquedos com IA afetam crianças em 2026
Sociedade Brasileira de Pediatria divulga alerta sobre brinquedos com inteligência artificial e pede que pais monitorem uso, privacidade e impacto no vínculo afetivo das crianças.

Inteligência Artificial
Especialistas destacam riscos dos brinquedos com IA para o desenvolvimento infantil e recomendam supervisão dos pais.
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Brinquedos com inteligência artificial que conversam, memorizam informações e personalizam respostas podem prejudicar o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças ao substituir o vínculo com pais e cuidadores, alertam a Sociedade Brasileira de Pediatria e o Grupo de Trabalho Pediatria IA da Sociedade Paulista de Pediatria em orientação divulgada nesta semana.
Brinquedo que vira “companhia”
A engenheira de pesca Nadira Rocha viu a tecnologia entrar cedo na rotina do filho Rudá, hoje com 1 ano e 4 meses. Desde os primeiros meses de vida, uma babá eletrônica com recurso de áudio fazia parte do dia a dia da família.
“Eu lembro que, Rudá, quando ele acordava, ele costumava olhar para a câmera da babá eletrônica e sorrir. O aparelho que a gente utilizava, ele permitia que a gente falasse com ele, né? Então eu acredito que de alguma forma ali, ele associava aquele dispositivo à nossa presença e a sensação de que ele não estava sozinho”, conta Nadira.
Para os pediatras, esse tipo de interação, quando se torna frequente e pouco mediada pelos adultos, pode deslocar da relação humana para o dispositivo uma parte importante da segurança emocional da criança.
Como a IA pode afetar o desenvolvimento infantil
Eduardo Cordioli, médico e presidente do Grupo de Trabalho Pediatria IA da Sociedade Paulista de Pediatria, explica que brinquedos com IA são desenhados para responder de forma rápida, afetiva e personalizada — e isso pode competir diretamente com o papel de pais e cuidadores.
“Imagine só, uma criança tá com um sinho e fala assim: ‘Por favor, me conte uma história’. Aí ela já sabe o nome da criança e fala assim: ‘Oi, como você tá bonita hoje?’ Isso faz com que ela tenha uma recompensa não esperada e pode substituir o sentimento que deveria ter com o cuidador dela, o pai, a mãe, justamente com um brinquedo”, afirma Cordioli.
Segundo ele, o excesso de interação com esses dispositivos é capaz de alterar o desenvolvimento cognitivo, emocional e comportamental. Ao oferecer respostas prontas e altamente envolventes, a IA tende a inibir o faz de conta, as histórias inventadas e as brincadeiras simbólicas — justamente o terreno fértil da imaginação infantil.
“Não tem como a gente dizer não a essa tecnologia, mas sim, a gente tem que usar com cuidado. O acesso, ele tem que ser monitorado, porque um dos efeitos colaterais dos brinquedos com inteligência artificial é que eles podem inibir uma das coisas mais importantes para o desenvolvimento intelectual das crianças, que é a imaginação”, diz o pediatra.
Entenda o contexto
A orientação divulgada pela Sociedade Brasileira de Pediatria se concentra nos brinquedos que usam IA para manter diálogos, adaptar respostas ao comportamento da criança e registrar hábitos e preferências. Esses dispositivos já estão presentes em casas brasileiras na forma de bonecos que conversam, caixas de som inteligentes, aplicativos educativos e babás eletrônicas conectadas.
O alerta não propõe proibir a tecnologia, mas mudar a forma como famílias e educadores lidam com ela. A recomendação é que esses brinquedos sejam complemento — e não substituto — da interação humana, especialmente nos primeiros anos de vida, fase crítica para a formação de vínculos afetivos e da capacidade de atenção, linguagem e empatia.
O que os pais devem observar nos brinquedos com IA
Na prática, os pediatras orientam que a escolha de brinquedos com inteligência artificial leve em conta mais do que a promessa de diversão ou conteúdo educativo. Pais e responsáveis devem avaliar se o produto é adequado à faixa etária da criança, quais dados ele coleta, como essas informações são armazenadas e compartilhadas e que recursos de privacidade estão disponíveis.
Outro ponto considerado central é o tempo de uso. A recomendação é que adultos estabeleçam limites claros, participem ativamente das interações e conversem com as crianças sobre o que o brinquedo faz e não faz, reforçando que afeto, conforto e limites vêm das pessoas, não das máquinas.
Para a indústria de brinquedos, o recado dos especialistas é que projetos com IA precisam priorizar segurança, transparência e proteção de dados, além de evitar experiências que estimulem dependência emocional da criança em relação ao dispositivo.
Alerta pode influenciar regras e hábitos
O posicionamento da Sociedade Brasileira de Pediatria e do Grupo de Trabalho Pediatria IA tende a pressionar fabricantes e plataformas a adotar critérios mais rígidos de design e comunicação de produtos voltados ao público infantil. A avaliação de especialistas é que pais informados podem passar a exigir mais clareza sobre riscos, mecanismos de controle parental e formas de apagar dados coletados.
O debate também abre espaço para futuras normas técnicas e possíveis regulamentações específicas para dispositivos com IA usados por crianças, em uma tentativa de equilibrar inovação tecnológica e proteção ao desenvolvimento saudável.
Orientações detalhadas sobre inteligência artificial e saúde infantil estão disponíveis no site da Sociedade Paulista de Pediatria, em SPSP.org.br/pediatria-ia, com materiais voltados a pais, educadores e profissionais de saúde.


