Google perde US$ 500 bi e arrasta Meta e Amazon em queda inédita
Alphabet perde US$ 500 bi em um pregão, Meta encolhe US$ 350 bi em duas semanas e Amazon sofre com caixa pressionado por IA, enquanto Lula promete endurecer regulação das big techs no Brasil.

Inteligência Artificial
Queda histórica nas ações das gigantes de tecnologia impacta o mercado global e levanta debates sobre regulação no Brasil.
Leia também: Papa Leão XIV exige regras globais para IA com prazo até 2027
A Alphabet, dona de Google e YouTube, sofreu a maior queda de sua história em um único pregão, apagando US$ 500 bilhões em valor de mercado e arrastando Meta e Amazon numa onda de vendas que põe a corrida pela inteligência artificial sob desconfiança de investidores e pressiona o debate sobre regulação das big techs no Brasil.
Google perde US$ 500 bi e sente efeito da IA na publicidade
Na quinta-feira passada, as ações da Alphabet despencaram mais de 13% após a divulgação de resultados do terceiro trimestre abaixo do esperado. A companhia reportou vendas de US$ 111,2 bilhões, com avanço de apenas 12% na receita de publicidade em Buscas, o ritmo mais fraco em cinco trimestres para o negócio que ainda responde por quase metade do faturamento.
O baque veio acompanhado de um fluxo de caixa livre negativo de US$ 9,1 bilhões, justamente no momento em que o grupo projeta investir entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões neste ano em infraestrutura de inteligência artificial, em especial chips e data centers. O contraste entre caixa apertado e gastos bilionários em IA fez crescer o temor de que o modelo tradicional de negócios da empresa esteja sob pressão.
Na teleconferência com investidores, o diretor de negócios do Google, Philipp Schindler, admitiu que o novo Modo IA na Busca, destaque da estratégia da empresa para enfrentar concorrentes como o ChatGPT, vem pesando nas contas. Segundo ele, as consultas feitas com IA têm “monetização menor”, mas a companhia pretende aumentar a veiculação de anúncios nesse formato para tentar compensar a diferença.
A desaceleração ocorre enquanto a OpenAI, dona do ChatGPT, passa a vender publicidade diretamente em sua plataforma, já com mais de 100 mil anunciantes e projeção de receita anualizada de US$ 1 bilhão nesse segmento. O avanço do modelo de chatbots reforça a percepção de que a disputa pela atenção dos anunciantes está se deslocando para interfaces de IA generativa, com margens ainda em teste.
Meta sente custo da IA e diluição de acionistas
A Meta, controladora de Facebook, Instagram e WhatsApp, também viu seu valor encolher rapidamente. Desde 21 de outubro, quando divulgou o balanço trimestral, as ações acumulam queda superior a 18%, o que representa uma perda de cerca de US$ 350 bilhões em valor de mercado.
Os números operacionais, à primeira vista, são robustos: a receita subiu 26% no último trimestre, para US$ 64,6 bilhões. Ainda assim, a margem operacional ajustada recuou 5 pontos percentuais, para 35%, refletindo principalmente a disparada dos custos em inteligência artificial e infraestrutura.
Para financiar a expansão em IA, a companhia lançou nesta semana uma oferta de US$ 35 bilhões em novas ações. O movimento reforça o caixa, mas dilui a participação dos atuais acionistas e aumenta a pressão por resultados futuros que justifiquem tanto o aumento de capital quanto a escalada do investimento tecnológico.
Investidores passaram a questionar se o crescimento em receita de publicidade será suficiente para sustentar, ao mesmo tempo, altos gastos em IA e retornos atrativos aos acionistas em um cenário de concorrência mais intensa e regulação em avanço em vários países.
Amazon aperta caixa para apostar pesado em IA
A Amazon também entrou na linha de tiro do mercado. As ações da companhia caem forte nesta sexta-feira, depois de a empresa reportar lucro e receita do terceiro trimestre abaixo das projeções de Wall Street, mantendo ao mesmo tempo uma estratégia agressiva de investimento em inteligência artificial.
No balanço mais recente, a Amazon registrou saída líquida de caixa de US$ 42,4 bilhões, puxada justamente pelos investimentos em expansão de infraestrutura. A companhia reafirmou a previsão de gastar cerca de US$ 220 bilhões em capital, majoritariamente voltado à IA, em 2026.
O apetite em acelerar frentes como computação em nuvem, modelos de IA generativa e automação logística agrada quem aposta no potencial de longo prazo da tecnologia, mas intensifica o desconforto de parte do mercado com o risco de um ciclo prolongado de queima de caixa em meio à desaceleração global.
Entenda o contexto
A combinação de resultados abaixo do esperado, desaceleração na publicidade digital e investimentos gigantescos em IA expõe uma transição delicada no modelo de negócios das grandes plataformas. O segmento de anúncios online, que por anos sustentou margens elevadas e crescimento acelerado de Alphabet e Meta, agora disputa orçamento com novos formatos baseados em IA, ainda com retorno menos claro.
No Modo IA do Google, por exemplo, as respostas chegam em blocos gerados por algoritmos, o que reduz o número de cliques em links patrocinados tradicionais. Esse rearranjo do fluxo de atenção tende a diminuir a monetização por busca, a menos que as empresas consigam redesenhar rapidamente os formatos de anúncio para a nova interface.
Ao mesmo tempo, a construção da infraestrutura que sustenta esses serviços — centros de dados, chips de alta performance, redes de fibra — exige desembolsos gigantescos. Investidores passaram esta semana a precificar o risco de que a corrida armamentista em IA estoure orçamentos antes de produzir novas receitas à altura.
O que Lula pretende fazer com as big techs no Brasil?
Lula usa o momento de fragilidade das big techs nos mercados para reforçar o discurso de que o Brasil precisa apertar o cerco sobre o poder das plataformas digitais. Em discurso de vitória recente, o presidente afirmou que a eleição foi disputada também contra a interferência dessas empresas.
“Foi uma eleição em que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais. E nós vamos ter que regulá-las”, disse Lula. Ele também cobrou equiparação entre crimes cometidos online e no mundo físico: “Não é possível que a gente não tenha consciência que o crime no mundo digital tem que ser tratado igual ao crime na vida real. Nós não podemos ter empresas monstruosas de grandes ganhando milhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral”.
As críticas dialogam com investigações e estudos acadêmicos sobre o desempenho das plataformas nas últimas eleições. Marie Santini, diretora do NetLab da UFRJ, afirma que houve descumprimento de regras definidas pela Justiça Eleitoral. “Sabemos que as plataformas não se comportaram adequadamente e não cumpriram o compliance com o TSE”, diz.
Segundo Santini, testes do laboratório identificaram que empresas seguiram recomendando páginas de políticos oficiais cadastrados no Tribunal Superior Eleitoral a usuários que não acompanhavam esses perfis, apesar da orientação em sentido contrário. “Continuaram veiculando anúncios dentro do período de resguardo eleitoral e encontramos anúncios comprados fora do Brasil. Tivemos vários indícios de assimetria de tratamento entre as campanhas”, afirma.
Depois do desgaste em torno do antigo projeto de lei amplo sobre plataformas digitais, o governo passou a apostar em propostas fatiadas, incluindo um texto de “dever de cuidado” das redes com usuários e outro voltado à concorrência nos mercados digitais, sob supervisão do Cade. Ambos aguardam avanço na Câmara.
A queda recente nas ações de Alphabet, Meta e Amazon tende a reforçar, no Brasil e no exterior, a percepção de que as big techs não são invencíveis — nem do ponto de vista financeiro, nem do ponto de vista regulatório. No Congresso e no Executivo, o entendimento é de que esse pode ser o momento para retomar negociações sobre regras de transparência em publicidade política, responsabilidade sobre conteúdo ilícito e obrigações fiscais das gigantes de tecnologia no país.
Leia também
Mais em Inteligência Artificial →
Escolas criam regras para uso da tecnologia e melhoram aulas
Employees walk past a conveyor belt carrying packages at the Amazon.com Inc. LCY3 fulfillment center in Dartford, UK, on Tuesday, Nov. 22, 2022. Wall Street is starting to doubt that retailers can snap out of a yearlong stock-market slump as consumers increasingly tighten their belts heading into the crucial holiday shopping season.