Drones e IA definem em tempo real o abate ideal do gado Nelore
Sistema da Embrapa Agricultura Digital usa drones e inteligência artificial para monitorar gado Nelore sem pesagem física e antecipar em até uma semana o momento ideal de abate.

Inteligência Artificial
Tecnologia da Embrapa permite monitoramento avançado do gado Nelore para otimizar o abate com precisão e agilidade.
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Pesquisadores da Embrapa Agricultura Digital apresentaram, nesta quarta-feira (28), em evento científico nos Países Baixos, um sistema que usa drones e algoritmos de inteligência artificial para monitorar o crescimento de gado Nelore em confinamento no Brasil e indicar com precisão o momento ideal de abate, reduzindo custos com ração e estresse dos animais.
Como funciona o sistema com drones e inteligência artificial
O método foi desenvolvido pela equipe liderada pelo pesquisador Jayme Garcia Arnal Barbedo, com apoio da FAPESP. Drones voam a cerca de 15 metros de altura sobre os piquetes, capturam imagens aéreas dos bois e enviam as fotos para algoritmos de deep learning treinados para analisar automaticamente cada animal.
A arquitetura combina dois modelos de inteligência artificial. O primeiro localiza individualmente cada boi Nelore na imagem, com precisão de 95,56%. O segundo delimita o contorno do corpo em nível de pixel, permitindo medir a proporção entre largura e comprimento de cada animal.
Essa relação largura/comprimento é a base do sistema: conforme o boi engorda e ganha músculo e gordura, fica relativamente mais largo. Como se trata de uma proporção, o cálculo não é afetado se o drone voar um pouco mais alto ou mais baixo. A partir da evolução dessa medida ao longo das semanas, o software reconstrói a curva de engorda do lote em tempo quase real.
Para evitar erros, a inteligência artificial descarta automaticamente imagens de animais deitados ou em posições curvadas, trabalhando só com indivíduos em pé e em postura reta dentro da janela central da foto. “Os animais se movimentam constantemente, deitam-se ou ficam em posições curvadas. Por isso, a inteligência artificial analisa todo o lote e descarta automaticamente indivíduos deitados ou em ângulos desfavoráveis, retendo apenas os animais em pé e em postura reta dentro da janela central da imagem”, explica Barbedo.
Entenda o contexto
Na pecuária de corte, depois que o boi atinge o limite natural de desenvolvimento, o ganho de peso diário cai e a ração deixa de se converter em carne de forma eficiente. Mesmo assim, muitos produtores mantêm o lote no cocho além do ponto ideal por falta de informação precisa durante o confinamento, gastando com alimentação sem retorno proporcional.
Hoje, a principal ferramenta de controle é a pesagem física em balança, feita em troncos de contenção. O manejo exige conduzir o rebanho até currais, imobilizar animal por animal e registrar o peso — um processo demorado, caro, estressante para o gado e com risco de lesões e danos em equipamentos. Por isso, na prática, a pesagem costuma ocorrer apenas na entrada e na saída do confinamento, deixando um “vazio” de dados no meio do ciclo.
O sistema com drones busca preencher exatamente essa lacuna, oferecendo acompanhamento frequente, sem contato físico e com custo operacional menor, ao substituir o manejo de tronco por sobrevoos planejados.
Impacto para custos, lucro e bem-estar animal
Os testes em confinamentos comerciais mostram que a tecnologia consegue apontar o ponto ótimo de comercialização em média até uma semana antes do que indicariam os métodos tradicionais de manejo. Essa diferença de dias, segundo os pesquisadores, tem efeito direto no caixa da fazenda.
“Às vezes, um dia de diferença na decisão de abate ou na negociação do lote pode aumentar o lucro daquela operação entre 5% e 10%”, afirma Barbedo. Ao antecipar a decisão e evitar alimentação desnecessária quando o lote já está no platô de ganho de peso, o produtor reduz o custo com ração e libera espaço no confinamento para novos animais.
Além da eficiência econômica, há ganho em bem-estar animal. Nos ensaios de campo, voos em diferentes alturas mostraram que, a 15 metros, os bovinos praticamente não percebem o drone, mantendo o comportamento natural de alimentação e descanso. Como não há manejo físico, caem também os riscos de contusões e o estresse associado ao tronco de contenção.
A substituição parcial da pesagem tradicional por monitoramento aéreo tende a pressionar fornecedores de equipamentos e serviços focados apenas no modelo antigo, ao mesmo tempo em que abre espaço para empresas de tecnologia agropecuária, desenvolvedores de software e fabricantes de drones.
Próximos passos: do laboratório ao campo
Segundo Barbedo, o desenvolvimento está em estágio avançado, com todas as peças centrais da tecnologia já testadas em condições reais. “Estamos muito próximos de obter um protótipo funcional completo do sistema. O próximo passo crucial será estabelecer parcerias com empresas do setor ou agtechs para transformar essa pesquisa em um produto comercial disponível em grande escala para os pecuaristas”, diz o pesquisador.
A expectativa é que, com a transferência de tecnologia e a criação de soluções “de prateleira”, o sistema possa ser integrado a plataformas de gestão de fazendas, facilitando a adoção por produtores de diferentes portes. Entre os desafios estão o investimento inicial em drones e infraestrutura de dados, a adaptação das rotinas de manejo e a capacitação de equipes para operar o sistema.
A médio prazo, a equipe avalia expandir o uso da plataforma além do monitoramento da engorda. Já há estudos para aplicar os algoritmos na detecção remota de comportamentos de estresse em confinamento, como disputas por alimento e problemas de espaço no cocho, e em sistemas de produção de leite, com foco em identificação precoce de doenças e análise do padrão de alimentação.
O grupo trabalha agora na consolidação do protótipo completo e na negociação com possíveis parceiros industriais, etapa considerada decisiva para que a tecnologia chegue de fato às fazendas brasileiras em escala ampla.
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