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Política

Entidades alertam para boicote político e risco à democracia hoje

Abrasel, OAB e Ministério Público do Trabalho se mobilizam contra listas de boicote a empresas e trabalhadores por posição política após as eleições, e alertam para responsabilização judicial.

Entidades alertam para boicote político e risco à democracia hoje

Política

Organizações se unem para combater boicotes políticos que ameaçam a democracia e defendem a responsabilização legal dos envolvidos.

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Entidades empresariais, órgãos do sistema de Justiça e lideranças políticas passaram a reagir, nas últimas semanas, à disseminação de listas que expõem empresas, comerciantes, profissionais liberais e trabalhadores para boicote econômico e perseguição profissional por suas preferências político-partidárias em todo o Brasil.

Entidades veem discriminação e risco à democracia

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) foi uma das primeiras a se posicionar. Em nota, a entidade condena listas que associam bares e restaurantes a determinados candidatos e conclamam o público a deixar de frequentar esses locais.

Para a associação, a iniciativa ameaça a sobrevivência de pequenos e médios negócios e atinge diretamente funcionários que dependem da atividade para sobreviver. A entidade alerta ainda para as consequências jurídicas das campanhas de boicote. “A divulgação dessas listas pode configurar ato ilícito e sujeitar os responsáveis a ações na Justiça. Do mesmo modo, o consumidor é livre para escolher onde vai comer e beber. Nenhum estabelecimento pode discriminar ou se recusar a atender alguém em função de seu posicionamento político ou ideológico”, afirma a Abrasel.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por meio de seccionais como a de Tocantins, divulgou notas de repúdio às listas, destacando que a exposição de empresas e cidadãos por seu voto viola princípios constitucionais básicos. “A liberdade de manifestação e a pluralidade de ideias constituem pilares do Estado Democrático de Direito e atos de discriminação ou constrangimento podem resultar em responsabilização legal”, registrou a entidade.

Na avaliação da OAB, divergências eleitorais não autorizam perseguição econômica, exposição pública ou restrição de direitos, e qualquer tentativa de punição profissional por convicção política afronta a ordem democrática.

Plataformas digitais são alvo de ação do MPT

O Ministério Público do Trabalho (MPT) identificou que parte relevante dessas campanhas de linchamento econômico e perseguição profissional circula em redes sociais. Segundo o órgão, publicações em plataformas digitais vêm convocando empregadores a vasculhar as redes de funcionários, expor preferências políticas e, em alguns casos, demitir quem não acompanha a posição do chefe.

“Publicações de empresários, influenciadores e até parlamentares orientam vasculhar as redes sociais de trabalhadores para descobrir em quem votaram e, no caso de a opção ser diferente do patrão, mandá-los embora”, descreveu o MPT.

Diante desse cenário, procuradores ingressaram com ação civil pública para obrigar a Meta, dona de Instagram, Facebook e Threads, a remover conteúdos que incentivam boicote político e assédio trabalhista ligado ao voto. O objetivo é frear o uso das plataformas como ferramenta de vigilância e retaliação ideológica contra trabalhadores.

O procurador do trabalho Maurício de Mello informou que, somente nos três dias posteriores ao pleito, o MPT recebeu 1.140 denúncias de assédio eleitoral, parte de um total de 3.080 registros desde o início da campanha. “Quase 30% das denúncias ocorreram pós-processo eleitoral. Isso é uma preocupação muito grande”, afirmou.

Trabalhadores e pequenos negócios na linha de frente

Para o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, a disseminação de listas de boicote e o assédio eleitoral no ambiente profissional afetam diferentes segmentos da economia e não se restringem ao emprego formal.

“Os efeitos dessas práticas atingem não apenas trabalhadores assalariados, mas também profissionais autônomos e pequenos estabelecimentos comerciais que manifestaram posicionamentos políticos”, afirmou o ministro, ao destacar que o clima de intimidação corrói a confiança nas relações de trabalho e a própria convivência democrática.

Na prática, donos de pequenos negócios relatam queda de movimento após terem seus nomes incluídos em listas que circulam em grupos de mensagens e redes sociais. Funcionários, por sua vez, temem ser demitidos ou deixados de lado em promoções caso expressem suas posições políticas em público.

Entenda o contexto

A onda de listas surge em um ambiente já marcado por denúncias de assédio eleitoral durante a campanha. De um lado, há grupos organizados incentivando boicotes a empresas e profissionais associados a determinados candidatos. De outro, relatos de empresários pressionando funcionários a votar em nomes específicos sob ameaça velada de demissão ou retaliação.

Juristas, entidades empresariais e órgãos de fiscalização trabalhista concordam que o eleitor é livre para manifestar preferências políticas, e que essa escolha não pode servir de critério para contratar, demitir ou punir economicamente alguém. A Constituição assegura liberdade de expressão e de opinião, enquanto a legislação trabalhista proíbe discriminação por motivo de convicção política.

Ao mesmo tempo, especialistas lembram que consumidores também têm liberdade para decidir onde gastar seu dinheiro, mas que campanhas organizadas para “marcar” pessoas e empresas, estimular perseguição profissional ou expor dados de trabalhadores ultrapassam a fronteira da opinião legítima e podem configurar ilícitos civis e trabalhistas.

Comparações históricas e alerta contra autoritarismo

A ex-deputada federal Manuela d’Ávila (PCdoB) passou a usar suas redes para denunciar as listas e relacionar o fenômeno a práticas típicas de regimes autoritários. Em vídeo recente, ela comparou a atual organização de listas de boicote político à perseguição econômica promovida pelo regime nazista na Alemanha.

“Sabe como começou o boicote aos judeus na Alemanha nazista? Com listas. Em 1933, os nazistas organizaram um boicote nacional contra estabelecimentos e profissionais judeus. Eles identificavam quem eram essas pessoas, onde trabalhavam e quais lojas e negócios lhes pertenciam”, afirmou a ex-parlamentar, defendendo que a sociedade reaja ainda no início a qualquer tentativa de marcar economicamente adversários políticos.

Historiadores ouvidos por entidades acadêmicas e organizações da sociedade civil reforçam que a produção sistemática de listas de “inimigos” – políticos, econômicos ou ideológicos – é recorrente em ditaduras e processos de erosão democrática. Nesses contextos, a estigmatização pública costuma abrir caminho para demissões, cassações, exílios e, em casos extremos, violência física.

Com o avanço das redes sociais, esse mecanismo ganha velocidade e alcance inéditos: uma postagem com nomes, fotos e acusações político-partidárias pode circular em minutos por milhares de celulares, afetando reputações e faturamentos sem qualquer mediação institucional.

Desafios jurídicos e próximos passos

A atuação de Abrasel, OAB, MPT e TST indica uma tentativa coordenada de impor freios institucionais às listas de boicote político. No campo jurídico, a expectativa é de aumento de ações civis e trabalhistas contra responsáveis pela criação e disseminação dessas listas, bem como de medidas judiciais direcionadas a plataformas digitais para remoção de conteúdos que incentivem perseguição econômica e profissional.

Procuradores do trabalho já tratam parte dos casos como assédio eleitoral, que pode gerar indenizações por dano moral coletivo e individual. Advogados, por sua vez, apontam para possíveis enquadramentos em discriminação política, violação à intimidade e até incitação ao crime, a depender do teor das publicações.

No horizonte, especialistas veem a possibilidade de regulamentações mais rígidas para conteúdos políticos e de assédio econômico em ambientes online, além de novas diretrizes para empresas sobre proteção de dados e vedação de monitoramento político de funcionários. Enquanto essas medidas são discutidas, entidades seguem orientando vítimas a registrar denúncias no MPT, na OAB e em órgãos de defesa do consumidor, para que os casos sejam investigados e julgados pelas instâncias competentes.