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Política

Flávio Bolsonaro vai aos EUA para liderar oposição a Lula

Senador viaja aos Estados Unidos após derrota presidencial, sob investigação por lavagem de dinheiro e com passaporte apreendido pelo STF, e promete chefiar oposição a Lula do exterior.

Flávio Bolsonaro vai aos EUA para liderar oposição a Lula

Política

Senador enfrenta investigações e promete liderar resistência contra o governo Lula diretamente dos Estados Unidos.

Leia também: PL reconhece vitória de Lula, mas cobra esclarecimentos

O senador Flávio Bolsonaro (PL) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos nesta semana, após a derrota na eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), sob a promessa de comandar a oposição ao novo governo a partir do exterior e em meio a investigações da Polícia Federal e a uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que determinou a apreensão de seu passaporte.

Pronunciamentos, contestação da eleição e ida aos EUA

No dia 28/10, já fora do país, Flávio divulgou um pronunciamento na rede X em que se autodeclarava inicialmente “o verdadeiro presidente do Brasil” e dizia haver “fraude eleitoral”, sem apresentar provas. A publicação foi apagada e substituída por outra, quase idêntica, em que ele passou a se intitular “o líder do Brasil”, mantendo a acusação de fraude.

No texto, o senador anunciou que pretende dirigir a oposição a Lula a partir dos Estados Unidos, pedindo mobilização de seus apoiadores. “Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil. Peço a cada um que permaneça firme e jamais desista”, afirmou.

A saída do país ocorre depois que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou a apreensão do passaporte de Flávio, atendendo a um pedido da Polícia Federal em inquérito que apura suposta lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado e empresário Willer Tomaz. Mesmo alvo da investigação, Flávio nega qualquer irregularidade e diz ser vítima de “perseguição política”. Em seu pronunciamento, chamou a Suprema Corte de “aparelhada pela organização criminosa petista” e falou em “regime de exceção” no Brasil.

Apesar da narrativa do senador, o resultado da eleição presidencial foi reconhecido oficialmente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), presidido por Kassio Nunes Marques, e pelos principais partidos políticos do país, inclusive o PL, sigla de Flávio e do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Entenda o contexto

Flávio Bolsonaro deixa o país em um momento de desgaste da família na política institucional: são duas derrotas presidenciais seguidas para Lula, a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e o êxodo dos filhos com maior projeção, agora baseados nos Estados Unidos. Eduardo Bolsonaro (PL), filho “03”, vive no país norte-americano desde fevereiro de 2025 e se apresenta como articulador internacional do bolsonarismo.

Ao mesmo tempo, o clã preserva presença no Congresso. A ex-primeira-dama Michele Bolsonaro (PL) assumirá em 2027 seu primeiro mandato eletivo como senadora pelo Distrito Federal. Os filhos Carlos Bolsonaro (PL) e Jair Renan Bolsonaro (PL), até então vereadores, também chegarão ao Legislativo federal no próximo ano, ambos por Santa Catarina — Carlos no Senado, Renan na Câmara.

Qual é o impacto de Flávio Bolsonaro atuar dos EUA?

Para analistas, a tentativa de Flávio de comandar a oposição a Lula a partir dos Estados Unidos tende a ter alcance limitado sobre a política brasileira e a vida institucional em Brasília.

Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que há pouco espaço para que uma liderança exilada consiga pautar o debate interno, especialmente diante do reconhecimento amplo do resultado das urnas. “É muito claro que Flávio vai pra lá tentar fazer uma articulação de fora pra dentro. Agora, quanto a classe política brasileira, inclusive o próprio PL, vai dar ressonância? Ao que parece, os partidos, quase de maneira uníssona, até o PL, já abriram mão de contestar qualquer coisa em relação à eleição de Lula”, afirma.

Na avaliação de especialistas, o distanciamento físico de Flávio e Eduardo — hoje as figuras mais conhecidas do clã depois de Jair Bolsonaro — enfraquece a capacidade de articulação direta do grupo no Congresso e junto a governadores e prefeitos. A expectativa é de que a oposição mais institucionalizada a Lula se concentre em parlamentares de direita que permanecem no país e em governadores alinhados, mas que operam dentro das regras do jogo político.

Daniela Costanzo, cientista política e pesquisadora do Cebrap, destaca, porém, que o bolsonarismo se organiza como um “partido digital”, com forte coordenação nas redes sociais, o que preserva certa musculatura. Para ela, a derrota eleitoral não dissolve o movimento: “A derrota presidencial é uma derrota importante, mas o bolsonarismo vai continuar forte porque ele tem hoje um partido que o organiza, que a gente chama de partido digital bolsonarista”. Segundo Costanzo, a liderança de Flávio, que vinha sendo construída, “vai ficar muito fraca”, abrindo espaço para outras figuras.

Reações no Brasil e no exterior

No cenário internacional, a aposta de Flávio e Eduardo em um alinhamento estreito com o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump não se traduz, por ora, em apoio público direto às investidas contra o resultado das urnas no Brasil. Questionado por jornalistas sobre a autodeclaração de Flávio como “verdadeiro presidente”, Trump evitou endossar o discurso. “Eu não vou fazer um comentário sobre isso, mas eu sei que nós demos a ele um visto para entrar no país, então vamos ver. Mas eu não vou me envolver, foi uma eleição muito estranha, isso com certeza”, disse.

Dentro do campo da direita brasileira, a postura de líderes com mandato reforça o isolamento da tese de fraude. Reeleito governador de São Paulo com forte apoio do eleitorado conservador, Tarcísio de Freitas (Republicanos) divulgou um pronunciamento em que, embora diga compreender a revolta do senador, defende o respeito ao resultado das urnas. “O caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente. O momento exige responsabilidade, serenidade e a construção de uma oposição forte, capaz de exercer seu papel. É assim, respeitando o processo democrático e trabalhando dentro das instituições, que vamos fortalecer o sistema de freios e contrapesos que sustenta a nossa democracia”, afirmou.

A posição de Tarcísio é vista por analistas como um sinal de que parte da direita buscará se descolar da estratégia de confronto permanente com o Judiciário e o sistema eleitoral, apostando em uma oposição institucional, com foco em agendas econômicas e de costumes, em vez de contestar a legitimidade do governo Lula.

Quem pode liderar o bolsonarismo sem Flávio no país?

A saída de Flávio e a permanência de Eduardo nos Estados Unidos alimentam o debate sobre quem herda o comando do bolsonarismo no Brasil. Para Daniela Costanzo, o movimento tem “muitas opções” fora do núcleo familiar e deve ver novas lideranças ganhando espaço, enquanto a influência direta do clã se dilui.

No diagnóstico da pesquisadora, Michele Bolsonaro desponta como figura com maior potencial dentro da família, graças à sua atuação na presidência do PL Mulher e à capacidade de mobilizar o eleitorado evangélico e conservador. Ela “continua muito forte” e “tem vida própria, não depende só do resto da família estar bem”, avalia Costanzo.

Outros nomes citados por analistas como possíveis herdeiros do eleitorado bolsonarista vêm de fora da família, como Tarcísio de Freitas em São Paulo, além de lideranças jovens de direita que se fortaleceram nestas eleições, a exemplo de Nikolas Ferreira (PL-MG) e outros parlamentares com grande presença nas redes sociais.

Marco Antonio Carvalho Teixeira, por outro lado, vê dificuldades para que Michele, Carlos ou Jair Renan assumam o comando do campo bolsonarista. Ele lembra conflitos internos entre Michele e os filhos de Jair Bolsonaro, o perfil de bastidor de Carlos e a falta de densidade política de Renan. Na visão do professor, abre-se uma “lacuna” que pode estimular partidos de direita a reduzir a dependência da família e buscar outras referências.

Apesar das incertezas sobre quem ocupará esse espaço, pesquisadores como Fábio Baldaia, professor do Instituto Federal da Bahia, avaliam que o bolsonarismo seguirá presente em três frentes: dentro da institucionalidade, com tentativas de pressionar Congresso e Judiciário; na mobilização digital por meio de pautas que geram grande engajamento; e, agora, a partir da influência exercida por Flávio e Eduardo desde o exterior.

Enquanto o senador promete apresentar do exílio norte-americano uma “estratégia” para reorganizar a oposição, as instituições brasileiras seguem operando com o reconhecimento formal da vitória de Lula, a continuidade das investigações criminais e a expectativa de que o novo governo encontre um cenário de menor turbulência interna no campo bolsonarista.