TJSC debate IA para agilizar Justiça e preservar juízes hoje
Tribunal de Justiça de Santa Catarina realiza hoje as Jornadas de IA para uma Justiça mais Humana, em parceria com a Microsoft, para debater modernização do Judiciário sem perder o foco nas pessoas.

Inteligência Artificial
Evento discute como a IA pode modernizar o Judiciário mantendo o foco no aspecto humano.
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O Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) abriu na manhã desta terça-feira (3) o evento “Jornadas de IA para uma Justiça mais Humana”, que discute como a inteligência artificial pode modernizar o Judiciário, acelerar tarefas burocráticas e melhorar a prestação de serviços ao cidadão sem substituir o protagonismo de juízes e servidores. A programação se estende ao longo do dia, com transmissão ao vivo pela intranet do tribunal.
IA para agilizar processos sem substituir pessoas
Organizado pela Academia Judicial em parceria com a Microsoft, o encontro reúne magistrados, servidores e especialistas para tratar de impactos, desafios e oportunidades da inteligência artificial no setor público, em especial na Justiça. A meta é usar tecnologia para reduzir gargalos, como análise documental e triagem de processos, e liberar tempo para decisões que exigem mais sensibilidade e prudência.
Na abertura, o presidente do TJSC, desembargador Rubens Schulz, frisou que a adoção de IA no Judiciário não tem como foco substituir profissionais. “Quando se fala em IA, inicialmente, sempre se pensa em tecnologia, em substituição da atividade do ser humano, mas não é esse o objetivo. É exatamente o contrário. A IA vem para nos auxiliar na questão dos processos repetitivos, justamente para deixar mais tempo para o ser humano refletir, pensar e se aprimorar. A IA nunca vai substituir o ser humano na questão da sensibilidade, da prudência, do equilíbrio e das reflexões”, afirmou.
O debate reforça uma mudança prática na condução de processos judiciais: algoritmos podem assumir rotinas de grande volume e baixa complexidade, enquanto juízes e equipes se concentram em casos que exigem escuta atenta, análise contextual e decisões com forte impacto social.
Setor público e letramento digital em foco
Na palestra “A Era da IA no Setor Público”, o vice-presidente da Microsoft Brasil, Guilherme Araújo, destacou o potencial da tecnologia em um ambiente que lida diariamente com alto volume de processos, leis e interpretações possíveis. “Quando eu olho para o setor do Judiciário, vejo uma área que tem uma demanda absurda todos os dias, um volume de informações, leis e até nuances de como você as interpreta. No momento em que você coloca uma tecnologia para ajudar o ser humano a entender esse mar de informação, a trazer insights ou inteligência para que essa decisão seja tomada de forma mais assertiva e, muitas vezes, de forma mais humana, você tem aí uma transformação cultural que vai permear todas as indústrias, inclusive o Poder Judiciário”, disse.
Araújo ressaltou que o ganho real depende de preparar as pessoas para usar as novas ferramentas. “Para isso, exige-se, sim, um letramento. As pessoas precisam estar abertas a receber essa tecnologia para poder utilizá-la da melhor forma possível. Hoje eu vou tratar muito disso. A transformação cultural das organizações é o que gera o real impacto do uso da inteligência artificial nessas organizações, nas suas indústrias, para os seus clientes”, completou.
O modelo discutido no TJSC pode servir de referência para outras áreas do setor público interessadas em modernizar serviços, desde que acompanhado de capacitação contínua, revisão de fluxos de trabalho e regras claras de uso da tecnologia.
Visão estratégica: IA como ferramenta de apoio
Outro destaque da programação foi a palestra “Visão Estratégica de IA”, com o especialista em inteligência artificial, machine learning e gestão de dados Diego Nogare, que tem mais de 25 anos de experiência em tecnologia. Ele reforçou que a IA deve ser entendida como instrumento de ampliação de capacidades humanas, e não como substituta dos profissionais.
“A IA acelera o trabalho, sim, mas não vamos perder nosso protagonismo. O ser humano continua sendo o centro neste cenário”, afirmou Nogare. Segundo ele, ao combinar conhecimento técnico, contexto institucional e agentes inteligentes, equipes conseguem aumentar produtividade, qualificar entregas e dedicar mais tempo a tarefas que envolvem análise e tomada de decisão.
Nogare explicou ainda que a adoção de IA ocorre em etapas. Primeiro, o uso individual de ferramentas para apoiar o trabalho diário; depois, o compartilhamento do conhecimento gerado; por fim, uma fase de maior maturidade, em que a instituição passa a usar a tecnologia de forma coordenada, segura e orientada a resultados. “O sucesso da inteligência artificial não depende apenas da tecnologia, mas da capacidade das instituições de integrar pessoas, processos e governança para gerar valor de forma consistente”, afirmou.
Entenda o contexto
O movimento do TJSC se insere em uma tendência mais ampla de tribunais que buscam enfrentar o acúmulo de ações e a morosidade com apoio de IA. No Judiciário, o uso de algoritmos costuma se concentrar em tarefas como classificação de documentos, organização de acervos, identificação de temas repetitivos e suporte à redação de minutas, sempre sob supervisão humana.
Os organizadores defendem que, se bem regulada e transparente, a tecnologia pode encurtar prazos, dar mais previsibilidade às partes e qualificar decisões, sem abrir mão de princípios como imparcialidade, acesso à Justiça e dignidade da pessoa humana. Por outro lado, reconhecem desafios como resistência à mudança, riscos de desumanização no atendimento e necessidade de garantir ética, segurança de dados e explicabilidade dos sistemas.
Ao longo do dia, as Jornadas de IA para uma Justiça mais Humana seguem com novos painéis e debates sobre governança tecnológica, integração entre pessoas e processos e caminhos para consolidar uma cultura de inovação no TJSC. A expectativa é que as discussões sirvam de base para futuras diretrizes de uso responsável de IA e programas de capacitação para magistrados e servidores.

